fotos de arquivo

sexta-feira, 18 de agosto de 2017

Natureza em movimento - no lago do Jardim Botânico do Rio



                                           Fotos de José Eduardo Barros

terça-feira, 15 de agosto de 2017

THE LEGEND PLAYS SCHUBERT

THE LEGEND PLAYS SCHUBERT

https://youtu.be/L2IF2yFuXIw

Clara, a maravilhosa pianista! Clara Haskil toca Schubert

segunda-feira, 14 de agosto de 2017

Caderno de anotações - Berlim, junho de 2011

Cheiros, texturas. Arquitetura.
Desde as pedras no chão à beira do rio Spree
com seus pássaros e jovens de bicicletas
até os museus de pedra na ilha dos museus
Lá dentro, segredos do mundo antigo:
gregos e assírios
O silêncio ao lado, e os olhos giram
ou se fixam nas formas que tomam as paredes
Do lado de fora
(outra vez, a vida):
os trilhos dos trens
os turistas
as obras que abrem ruídos
Canteiros de obras
caminhões e andaimes
- amarelos -
confundem as formas do antigo
e do contemporâneo.

27.06.2011


"Femme se coiffant" - 1906 - Picasso

O que pensaria Picasso olhando a sua amante se penteando
pela manhã?
A escultura se mostra incompleta.
Os olhos fechados e os cabelos longos

"Portrait de Lorette" -1917 - Henri Matisse
Recolho em pesquisa na internet:
Matisse painted her as a flirtatious Spanish señorita in a lace mantilla, a turbaned inhabitant of a Turkish harem and a Parisian cocotte.

Dizem que pintou a italiana Lorette umas cinquenta vezes, em Paris e em Nice.

terça-feira, 8 de agosto de 2017

sem título

ontem as nuvens sopraram no frio da madrugada
e os homens buscaram em silêncio alcançar o pensamento

as horas traçaram a direção do múltiplo
e poucos se firmaram no horizonte próximo

os passos os alimentos as raízes as vozes os cheiros
a natureza sem voz pede clemência

no universo distante não há ouvidos suficientes
(o que vinga é o supérfluo o banal o excesso)

a tudo meu amigo seremos atentos
ousados e sérios

no horizonte perto
vemos os pássaros as flores o vento

e no passo desta manhã
onde o sol rompe o intervalo

carrega-se de esperança
o que pode vir a ser








quarta-feira, 2 de agosto de 2017

Qual a saída para o Rio?

Nem sempre a saída para um rio é o mar. Embora, seja sabido que o rio gosta de correr para o mar. As pernas ou os braços de um rio se movem em direções inesperadas a partir da nascente. Às vezes, o rio deságua em outro rio e se torna mais forte e caudaloso caminhando sua majestade, abrindo as suas margens para novos ângulos da natureza, que providencia e fortalece a vida animal com a água que distribui, que se estabelece ao redor dos homens de forma natural.
O rio Capibaribe do poeta João Cabral de Melo Neto, agora, corre até mesmo nas veias de bailarinos musculosos que o construíram no espetáculo Um cão sem plumas de Débora Colker. Vibrante espetáculo: belo, poético, forte. Espesso no sentido cabralino. Inesquecível!

“Porque é muito mais espessa
 a vida que se desdobra
em mais vida
como uma fruta
é mais espessa
que sua flor;
como a árvore
é mais espessa
que sua semente;
como a flor
é mais espessa
que sua árvore,
etc. etc.”
                   (Versos de O cão sem plumas de João Cabral )

No entanto, a questão que convido o leitor a pensar é muito densa.  Em um momento de tanta violência na cena carioca, quando temos que conviver com mais armas espalhadas pela cidade, suspensas em ombros jovens que chegaram de longe para ajudar a nos dar uma trégua, nestes conflitos extremos e sem limites que a vida carioca nos abre todos os dias, com um número enorme de mortes sem sentido em um cenário de guerrilhas, como podemos pensar e administrar a violência sem a violência? Pois administrar a violência com violência é manter tudo igual. É colocar panos quentes, ou melhor, soprar o fogo da fogueira. Deixar crescer a ignorância da violência de nossa população é ser mais ignorante que a ignorância. É ficar cego, e manter paralisado o espírito criativo do cidadão.
A saída para o nosso sofrimento está nos braços de todos nós. Em nossas pernas. Nos movimentos que – juntos – podemos alcançar para ajudar a mudar o nosso Rio. Educação e arte! Um olhar mais digno e diferenciado que alcance os menos favorecidos. Programas voltados para humanizar e harmonizar a sociedade. Um pensamento mais humano ajuda ao homem em sua caminhada. Amplia sua visão crítica, e o auxilia a sair da miséria da mente que pensa pequeno. Leitura para todos! Bibliotecas ambulantes!
O novo “Projeto Ruas” que circula na cidade é um exemplo de caminho. Outros projetos precisam nascer. Pensem grande! Nós somos maiores que a Economia. Somos a Ciência, a Filosofia! Somos o Direito.
Somos Literatura e Arte!
Somos Música!
Teatro, Dança!
Somos Poesia!
Corpo e Espírito!
Somos a vida que, de fato, se desdobra!


                                                                                   S.R

                                                                                                 Rio de Janeiro, 2 de agosto de 2017. 

domingo, 30 de julho de 2017

A "pedra mágica" do poeta Francis Ponge

                                       A “pedra mágica” do poeta Ponge
                                       ou reflexões em tempos disformes
                                                                                       
                                                                                         Solange Rebuzzi*


                          
1. Le Savon de Francis Ponge. 
   Desde o título, enigmático na simplicidade, o texto-poema Le Savon/ O Sabão guarda um lugar de perda. Nomeado por Ponge “pedra mágica”, Le Savon reserva no instante em que aparece uma existência a ser perseguida em leituras cuidadosas.
   Na apresentação do livro o poeta comparece e dirige-se ao leitor pedindo para ser escutado com “orelhas alemãs”. A época era a década de 40, durante a Segunda Grande Guerra. Portanto, o poeta insiste em ruídos radiofônicos, que marcavam um tempo de horror e pesadelo transmitidos pelos rádios. Ele nos diz logo no início:

                                   “Le lecteur, d’emblée, soit prié (il comprendra très vite pourquoi)
- nous voulons dire: pour le décollage – de se doter, par l’imagination, d’oreilles allemandes.”

Ao leitor, de início, seja rogado (ele compreenderá muito rápido porque)
- queremos dizer: para a decolagem – de se dotar, pela imaginação, de orelhas alemãs”.   

Orelhas alemãs? Que sentidos elas abririam ao estranho que se instala em um texto escrito em francês? Ele pedia para ser escutado, e isso é certo.

                
2. A escrita em ato.
   Desde que começou a escrever o texto, Ponge, em carta a Jean Paulhan - amigo e editor - partilhou sua angústia e dificuldade em terminá-lo. Chegou a pensar em abandoná-lo, mais de uma vez, e persistiu escrevendo-o e revendo-o durante vinte e cinco anos (de 1942 a 1967, data de sua publicação). É fato, que alguns poetas insistem em alguns escritos sem saber bem o porquê. O que é da ordem da pulsão faz seu espaço no “que não cessa de não se inscrever”. Ou seja, no que pode ser nomeado como algo da ordem do impossível, que insiste.   
   Jacques Derrida disse sobre este texto que Ponge assumia aí, neste escrito, uma perda não declarada até então. Pois, o que ele falava havia sido “esquecido” por muitos de seus contemporâneos. Hoje podemos remexer nestas letras, e buscar pensar algumas outras tantas possibilidades. Quem sabe o desejo de testemunhar, seja uma delas. Ou, buscar escrever um texto para além do poético: algo que em meio ao impossível de se dizer, viesse fazer ruídos em orelhas torturantes.

           
               
3. Ouvimos os sons dos aviões de bombardeio (Boum!) nos primeiros instantes do poema.
    A palavra é colocada em ato, na intenção de produzir uma luz que pudesse fazer buraco – na memória – é outra possibilidade.
   No poeta Francis Ponge a palavra está em constante gestação. Existem, em seus textos, três pessoas: as coisas, as palavras e o escritor, segundo o crítico Guy Lavorel. A terceira pessoa é indispensável.
   No texto Le Savon, ele faz a relação entre la boue et l’homme (a poeira, o resíduo e o homem). A autodescrição na obra é, então, um efeito autobiográfico. Alguns traços do biográfico circulam à maneira de Roger Laporte (escritor que construiu uma obra e uma teoria sobre o autobiográfico).
   Podemos também aproximar seus textos dos Essais de Montaigne, e, em alguns momentos, dos diários de alguns escritores pois o poeta insere-se no trabalho dando um testemunho natural.
   Francis Ponge em Le Savon parece ter feito seu canto de fuga. Embarquemos no tom de discurso, e ouçamos o que ele nos abre, neste texto-poema: “Mesdames et Messieurs”/ “Senhoras e Senhores”
                              ( ...)
      Le savon a beaucoup à dire. Qu’íl le dise avec volubilité,                         enthousiasme. Quand il a fini de le dire, il n’existe plus. ”

            O sabão tem muito a dizer. Que o diga com volubilidade, entusiasmo.       Quando terminou de dizer, não mais existe. ”  
                                                           

                                                        *


   Em plena guerra, o poeta localiza e fala de uma falta. Roanne é o lugar no qual ele e sua família se encontravam refugiados, no mês de abril de 1942; uma cidade pequena francesa.
  Lemos:

“Nous étions donc, alors, en pleine guerre, c’est-à-dire en pleine restrictions, de tous genres, et le savon, le vraí savon, en particulier, nous manquait.”

 “Estávamos pois, então, em plena guerra, quer dizer em plenas restrições, de todos os gêneros, e o sabão, o verdadeiro sabão, em particular, nos faltava. ”  
  
Há muito a dizer, com certeza, sobre o que falta ou faltou durante uma guerra. Francis Ponge escolhe falar sobre o objeto Sabão. Um objeto que desaparece. “Uma espécie de pedra”. Ao menos, uma pedra de memória. Embora escorregue e desapareça, o sabão tem seu lugar; marcado de falta. Assim o poeta o descreve como fazendo parte de uma espécie de exercício com as mãos:

                      “PRÉLUDE AU SAVON

    Pour la toilette intellectuelle, un petit morceau
 de savon. Bien manié suffit. Où des torrents d’eau
 simple ne décrasseraient rien. Ni le silence. Ni ton
 suicide en la plus noire source, ô lecteur absolu.”
                                                                  (p.36 Le Savon)


                      “PRELÚDIO AO SABÃO

     Para o toalete intelectual, um pequeno pedaço
  de sabão. Bem manipulado satisfaz. Onde torrentes de água
  simples não lavariam nada. Nem o silêncio. Nem teu
  suicídio na mais negra fonte, ó leitor absoluto.”



No PRELÚDIO AO SABÃO, extraímos a presença do silêncio e o desejo de escrita, quem sabe em luta com a pulsão de morte; em p r e l ú d i o (nos primeiros passos). A guerra apresenta ao homem sua face hostil. A guerra, a corrosão que rói o mundo!
Ponge contava com alguns leitores neste momento, os amigos Albert Camus e Jean Paulhan. Trechos de cartas desta época estão inseridos no texto-poema. Em uma das cartas recebidas, Camus comenta que, talvez Le Savon traga um excesso de elipses. E sugere que Ponge possa suprimir “les charnières”.
   Sobre les charnières, o dicionário Le Robert Micro, diz: “2. Abstrait: point de jonction.”. O sentido de ponto de junção permanece no texto, e o comentário de Camus fica mais interessante, se o pensarmos como sendo dirigido às dobradiças do texto. As dobradiças que se apresentam em movimento, que podem abrir sentidos novos: encobrem velando, e despertam abrindo o vai e vem do pensamento do leitor. Um pouco antes e no mesmo poema, (já em 1943), o poeta diz que o homem não se limpa na água pura (mesmo que seja perfumado) e nem no silêncio ou na prece. Incrível afirmativa! Bem no estilo crítico da sociedade de nossos dias.  
   Se permanecermos apenas com o que foi dito até agora, já temos inúmeras razões para lermos Le Savon do poeta Francis Ponge. Deixo-os no exercício intelectual desta procura, e desejo que seja possível a reflexão, muitas e muitas vezes. Lembremos que aos homens de nosso tempo, sem a certeza da ética, nem a prece nem o silêncio são possíveis. Muito menos o perfume!   



Rio de Janeiro, 14 de agosto de 2005.
    
                   
  
PS: publico novamente o texto que escrevi em 2005.
      Pertinente aos nossos dias!

segunda-feira, 24 de julho de 2017