fotos de arquivo

segunda-feira, 25 de janeiro de 2010

segundo fragmento

Quando o ar do verão corta o corredor vazio ou “uma pétala tomba da rosa na jarra”, Virgínia escreve que não ama ninguém exceto seu pai. Parecendo mesmo estar se mantendo para recobrir de palavras o tempo, as diferentes afirmações, também as de seus personagens, caminham para nos dizer que, entre as árvores e o ar verde das folhagens, podemos encontrar os vestígios do que mais importa. Ou seja, as palavras brancas como pedra, ou as amarelas, flamejantes, com as diferentes tonalidades do dia e das emoções que nos arrastam.

domingo, 24 de janeiro de 2010

A escrita de Virgínia Woolf e o universo da pintura

Apenas um murmúrio. O murmúrio das ondas. O mar diante dos olhos abrindo brancas espumas: ondas azuis, ondas verdes. A vida soprada. A escrita anunciando-se em largas ondas. Em movimentos onde a autora comunica viver “agarrada às franjas das palavras”.
Relendo o sexto romance de Woolf, publicado em 1931, descobri que não são os diferentes personagens que nos contam a vida, mas essas vozes, quase indiferenciadas, que marcam o tempo do relato, entre dias e noites, chás, jogos, passeios ou caminhadas. Eu diria que as marés, tanto quanto o vento ou os violentos trovões, se inscrevem nos momentos de intimidade e sofrimento ou na angústia e no amor.
Ela, a escrita de Virgínia, desnuda esse espaço polifônico.

quarta-feira, 20 de janeiro de 2010

Caderno de anotações

Fragmento do livro Anotações de viagem

23.03.05

Estamos novamente na sede da Polícia perto de nossa casa, agora no Quatorzième, para a entrega dos documentos que nos autorizam permanecer na França. Mais três meses. Já consegui a certidão de casamento traduzida. Hoje, está quase vazio o local e permaneço tranqüila. O interessante é que pegamos o número 130!


***

Enquanto aguardo leio o que anotei ontem durante o Seminário de Corinne Enaudeau.

A questão da mundialização e da globalização não é simples.
Qual é o começo da viagem? (a história para Musil é sempre assim (ela comenta), pois a civilização não sabe de seu próprio patrimônio).
O filósofo alemão me remete ao que devemos organizar e preparar com as coisas que serão carregadas ao longo da história, pois elas serão o nosso saco de viagem (já que a economia é perigosa e domina as coisas e a política).
Ele considera a nossa época como um tempo de transição, mas só que desconhecemos o fato.

A solução de Musil é poética.
Em 1935 Musil deu uma conferência em Paris. E usou a figura do dançarino para dizer dele mesmo, que dançando se punha a conhecer o mundo.
Ele diz que é preciso escrever, porque o mundo parou.
Propõe movimentos procurando uma lógica de progressão e regressão.
Mas o que fazer com as coisas do mundo?
A Europa se mostra desamparada. E Musil acredita que a política usa o medo e ganha esse argumento que não é real.


***

Olho ao redor.
Há muitos africanos na sala. Estou sentada em cadeira simples de madeira. Alguns permanecem de pé. Há os que não falam a língua francesa e chegam acompanhados pelos familiares ou por um advogado. Todos querem permanecer na França. Mas alguns não conseguirão.
Trecho do livro Diários,
de Joaquim Nabuco
1874
30 de janeiro
Comecei a escrever os versos a Victor Hugo.
Às 11h M. Oppenheimer veio convidar-me para irmos a Pompéia. Partimos no trem de 12h20. Belo caminho ao lado do mar. Praias pretas e sujas. Torre del Greco e Annunziata. Em Pompéia: entrada ainda pela porta della Marina. Como devia ser belo o fórum de uma cidade antiga; colunas dóricas existentes, colunas jônicas superpostas e desaparecidas. Do alto delas, que vista sobre o mar e o Vesúvio! O Vesúvio fumega de um vapor branco; céu puro. Quando saímos, o céu estava tempestuoso, espécie de luz elétrica. Tomamos a estrada da Abbondanza. Pés da mesa de Cornélio Rufo. Estrada Stabiana; de novo ao teatro grande, ao templo de Netuno. As belas termas de Stabia. Casa de Holconius; em uma parede escrito: Otiosis hic locus non est; discede, morator* . O lupanar: inscrições dos soldados. Casa de Ariadne. A casa do Balcão ou Varanda, construção pesada e desagradável; quartos na varanda, que era uma espécie de segundo andar. De novo na Voie des Tombeaux* . O columbarium do túmulo de Scaurus. Banco do túmulo de Mamia com um bela vista sobre o mar e o Vesúvio. Uma bonita americana que encontramos e da qual fui o cicerone na casa de Diomedes. A casa do Labirinto. Mosaico de Teseu matando o Minotauro. Voltei pelo caminho de ferro: o sol poente, o mar azul e o horizonte vermelho com tons de laranja. Jantar no hotel. Conversa com miss Claussen: a coquette alemã. O dia de uma poesia: a confiança e a desconfiança.

terça-feira, 19 de janeiro de 2010

Poema de Aimé Césaire

Tam-tam da noite
Aimé Césaire

trem de ocapis fácil às lágrimas
o rio de dedos carnudos escava no
cabelo das pedras mil luas espelhos rodando
mil dentadas de diamantes mil línguas sem
oração febre arabescos de arco escondido à
reboque das mãos de pedra formigando
a sombra dos sonhos sugados nos simulacros do
mar



Tradução: Solange Rebuzzi

Nota da tradutora:
"Cocani tam'tam' ou do bengali tantan, pelo francês tam-tam 'gongo, tambor de bronze'”.
Palavra onomatopéica de origem africana. Sinal transmitido pelos tambores africanos.



Tam-tam de nuit
Aimé Césaire

train d’okapis facile aux pleurs
la rivière aux doigts charnus fouille dans le
cheveu des pierres mille lunes miroirs tournants
mille morsures de diamants mille langues sans
oraison fièvre entrelacs d’archet caché à la
remorque des mains de pierre chatouillant
l’ombre des songes plongés aux simulacres de la
mer

Homenagem ao povo do Haiti

domingo, 17 de janeiro de 2010

Akhmátova

Anna nasceu e morreu na Rússia.
Seus mais antigos sonhos habitaram
o quarto amarelo da casa de
Chukhardiná. Infância pagã.
O pai a levava à ópera.
No inverno patinava nos parques.
Escrevia poesias desde os onze anos.
Viu a guerra de 1914 até seu fim
no Verão de 1917.
Trenós, botas de feltros,
Montões de neve. Neves diamantinas.

O século XX começou no Outono de 1914, declarou.
Petersburgo antes dos elétricos.
Estrangeiros nas ruas. Prédios em cores.
Do vermelho ao cor-de-rosa.
(À guisa de prefácio escreveu em 1940):
No outono do mesmo ano
escrevi três peças não líricas
e criei um livro de “Pequenos Poemas”.

De repente em 1939,
no primeiro dia de setembro, a Segunda Guerra chegou.
Leu poesia aos soldados em 1944.
Perdeu o marido e um filho.
Em “Três lilases” as sombras falam.
A cada palavra o verso sem medo
e a pancada da voz.

Em 1957 escreveu:
No fundo, ninguém conhece a época em que vive.

Segunda parte da entrevista com Laure Limongi

video

Livro das Areias (inédito)

Ao redor das coisas – pequeninas coisas – há um hálito que, raramente, nos detemos em perceber. Não está colocado apenas na poeira que a vida cumpre em instalar nos objetos em geral, e que a luz quase não consegue filtrar na manhã-madrugada, dos dias de maio e junho, por exemplo. Consigo dizer de um “lugar”, no qual raras vezes me detive e, aonde, sem fazer alarde, consegui ver um brilho meio dourado e meio azul; purpurina das manhãs nas areias do Espírito Santo.

Vagar nas areias quando o sol ainda não deixou a luz firmar-se, pode ser uma experiência poética que não garante Nada. Um lugar que avança com o ritmo que procura deter o tempo? Um passo e outro.


Mas caminhar em direção a quê?

Ruas (Homenagem a Pierre Lucerné)

Futurismo

Itinerário de colagens

Cartas inéditas de Freud

Sigmund Freud
“Notre coeur tend vers le sud”
Correspondência de viagem, 1895-1923

Traduzido do alemão por Jean-Claude Capèle
Prefácio de Elizabeth Roudinesco
Fayard, 2005





13 de setembro de 1910
Cartão postal de Alcamo-Calatafimi endereçado à Martha Freud



Alcamo-Calatafimi
13 setb. 10.6 h



Estação na qual chegamos por engano muito cedo e esperamos o trem de Castelvetrano onde passaremos a noite; amanhã, permaneceremos em Selinunte e retornaremos a Palermo à tarde.
Aqui, é a Sicília mais antiga, com localidades que não têm mais nomes árabes, tudo é sisudo e sujo, mas o café estava muito bom. O templo de Segesta , ao qual nós retornamos, foi um espetáculo magnífico nesta terra isolada e perdida. Para isso valia certamente a pena fazer 2 horas e meia de trajeto, e o mesmo tanto para a volta, em uma abominável carruagem . Os outros templos não serão certamente tão cansativos. Uma outra carta parte ao mesmo tempo de Wittebrug.

Sentimentos afet.
Papa




22.9.13

Queridos filhos
Fomos a Tivoli hoje, obrigado pela charmosa carta de vocês. Sua tia é muito gentil, o tempo esplêndido.
Sentimentos, Papa



Roma, 16.9.23

Meus muito queridos,

São os últimos dias. Para facilitar a partida, o sirocco começou a soprar e as reações de minha mandíbula me fazem sofrer mais do que nunca. Anna está muito alegre, ela até tentou uma opereta. Teirich escreve que o processo contra Ernst H aconteceu no dia 19 . Espero que vocês todos estejam bem.

Afetuosamente,
Papa




Tradução: Solange Rebuzzi

sábado, 16 de janeiro de 2010

Um vestígio das coisas

A boca não se confunde com os ruídos.
Nem bem os corpos carregam os personagens
- entre o selvagem e o perdido –
os pés ao final do corpo carregam
o peso desta manhã.
Um casal caminha em meio aos destroços.
Inquietos. (Imagens de arquivo).
Perderam a casa. Os filhos. As conexões possíveis.
Observando-os daqui, desprezo o sentido da Guerra.

O vermelho se impõe (nem sempre no sinal de
trânsito). A regra é pisar fundo, e sair da frente o quanto antes.
Nos jornais diários as matérias assustam. Incorporam detritos.
As estatísticas também. Atropelamentos, acidentes, mortes.
Dobramos e dobramos as páginas para não ler.
O vermelho se impõe: violento.

Pesados, os ombros trafegam ao redor.
Em algumas aldeias da Líbia as cidades são fantasmas. Fantoches.
Portas e janelas vazias.
No primeiro plano:
Um silêncio, um estranhamento.
O cansaço. O sono. A morte.


A cena é muito distante.
A passar... a passar as imensas águas
de um tempo cansado e triste.