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terça-feira, 23 de fevereiro de 2010

Inédito

15.

(Escuto o piano de Nélson Freire: Chopin)

A lua e suas marés
quando ela sai das alturas
de tons baixos
quando ela se retira (quase nua)
uma parte de meus braços soltos
segue com as areias

Lua:
fiel ao tempo das vertigens do corpo
As sombras correm
Os corpos giram

Sem sinfonia
Em todo caso não mais as mornas manhãs de abril, mas as frias sílabas dos dias de julho que começam sem sol

Aqui as palavras partem mais facilmente

... e as caixas de areia na intimidade do sonho carregam caranguejos vivos
olhos em pé:
amarrados juntos no emaranhado de cordas
sujos dos grãos


A canção da Lua embala o trabalho
com a fraqueza na melodia das letras
essa distenção que move uma e outra linha
balança e se escande no esquecimento

A persiana do quarto
lamenta
e cai

Livro das areias (inédito)

2.
O livro de Ítalo Calvino O Caminho de San Giovanni apresenta textos voltados para a memória. O autor introduz a ‘lata de lixo’/ ‘la poubelle’ para falar de nossos gestos, os mais inesperados, e que podem vir a ocupar um lugar em nossas vidas diárias que nem sequer notamos.
Somos o que não jogamos fora?
(Retomo a pergunta de Calvino para também indagar sobre o que precisamos reter conosco ou deixar por perto, mesmo que seja para não olhar jamais.)

Na lista das pequeninas coisas e objetos especiais, encontro-me meio desajeitada. Vejamos que nem sempre é fácil listar.
Mas, as palavras que pensam em nós demandam algum trabalho. Assim, que o que me vem à mente, de imediato, são os livros; os muito amados ou os nem tanto.
Onde costumo colocar os que procuro sempre – para ler ou reler – e em que lugares permanecem os livros novos que serão utilizados em estudos ou em textos a escrever?
E os que são ganhos de presente, ou os que quase não agradam?
Na lista, ainda me ocorre dizer que, há coisas difíceis de se desfazer. Por exemplo, nas inúmeras miudezas de uma casa: as linhas já velhas, as agulhas enferrujadas, as tesouras gastas, os alfinetes tortos, os grampos (?), os clipes quebrados, os lápis que desagradam, os cartões esquisitos que recebemos, os jornais já lidos e até os remédios vencidos.
Lembro-me que preparei pequenas surpresas para quem ia catar no lixo as coisas, aquelas que não queremos mais.

domingo, 21 de fevereiro de 2010

Anotações de viagem feitas em 2005

Au theâtre:


A cena do foyer no teatro Châtelet é ocupada por um piano de calda e duas cadeiras vazias. Há também uma máquina fotográfica antiga montada em cima de um tripé.

As grandes portas abrem a varanda.

São mais de 18 horas.

Na claridade do sol a primavera sopra e se estende.

Paris, maio de 2005.

- C’est jolie l’ange dorée qui est là bas! (escuto na exclamação da francesa sentada bem próximo a mim).

Fiquei sabendo, na hora de comprar o bilhete (12 euros) que,
la pianiste est tombée dans les scaliers/ a pianista caiu nas escadas.

De fato, a pianista havia caído antes do início do espetáculo. No entanto, ela não só tocou piano como fez a peça, pois era a personagem Clara Schumann.

O ator, Jean-Marc Barr, já bastante conhecido do público francês, realizou um trabalho forte no papel de Robert Schumann.

O texto foi transcrito a partir das cartas trocadas entre Schumann e sua esposa Clara. Um texto poético denso escrito por Irina Decermic.
Na platéia consigo reconhecer a atriz francesa Elodie Bouchet.

Sentei na primeira fila, onde havia lugar.
Ça va!

(Respiro junto com as pontuações do texto).



Acrescento algo que li sobre a história deste teatro.
Des compositeurs tels que Tchaïkovski, Grieg, Richard Strauss ou Debussy viennent diriger leurs propres œuvres au théâtre du Châtelet. D'autres orchestres sont aussi invités. En 1900, Gustav Mahler dirige son premier concert en France à la tête de l'Orchestre philharmonique de Vienne.
:
Compositores tais como Tchaïkovski, Grieg, Richard Strauss ou Debussy dirigem suas próprias obras no teatro Châtelet. Outras orquestras são convidadas também. Em 1900, Gustav Mahler dirige seu primeiro concerto na França à frente da Orquestra filarmônica de Viena.

Ps:
Procurar ler a correspondência de Clara e Robert Schumann depois.

Textos inéditos

No dia 11 de março


Escrevo enquanto aguardo o Colóquio de Michel Collot, na Sorbonne, Paris III.

Pela manhã, já na Sorbonne, pesquiso em livros da Biblioteca de Literatura Brasileira com a ajuda de Antonio, um brasileiro que trabalha aqui nesta pequena biblioteca. Encontro títulos que vão me interessar.





À Tarde:
No colóquio “Paisagem e modernidade”, participo como ouvinte, afirmo em francês que sou estudante brasileira.
Permaneço impressionada com a apresentação de um professor chinês.
Ao analisar um poema que se escreve em um papel com uma dobradura, na arte do papel que se mostra nas dobras, e diante do público que lotou a pequenina jóia-sala da Sorbonne, o chinês abriu o poema e, em pé, nos explicou como este poeta usou o termo souffle enquanto força.
O poema é “A errância do pássaro”, e foi traduzido por esse professor chinês e poeta para a língua francesa.
Não consigo me lembrar das palavras exatamente. Continuei com o gesto e o movimento das dobras de um poema-artefacto-de-arte que se abriu diante de nós e soprou sua força!

Colagem (2005)


Caderno de viagem


domingo, 14 de fevereiro de 2010

Texto inédito - Biblioteca Saint-Geneviève

Notas tomadas em 25.07.05 na Bibliothèque Sainte-Geneviève


A porta diante de mim possui o número 13 bem no meio do portal.
Preciso fazer esforço para conseguir me concentrar. Leio novamente Meschonnic. Estalo os dedos. Procuro me ausentar um pouco da força escópica que sinto em direção às paredes rodeadas de livros.

No alto da colina Sainte Geneviève, a biblioteca oferece alguns vestígios de leitores antigos, com transcrições, inclusive, nas paredes da entrada. A história conta que houve uma abadia aqui, lá pelos anos VI d. C.
Li e não lembro onde, que o abade principal, na época da Revolução Francesa, conseguiu proteger a abadia-biblioteca das invasões e destruições que aconteciam na cidade (feitas por inúmeros saqueadores). O local que já foi um lugar que recebeu muitos viajantes, e os alimentou durante suas passagens por Paris, continuou respeitado sempre. Nunca foi incendiado ou danificado.


Sento-me na cadeira de número 313, porque a de número 311 está ocupada. O jovem que está ali me diz, tranqüilamente, que não é preciso ocupar o lugar correto reservado pelo computador, que nos é apresentado logo na entrada (diferentemente da Biblioteca Nacional da França, com sua formalidade perfeita).
Et, ça va!

Eu procuro escutar a leitura
(encontro os olhos de José
no outro lado da longa e baixa mesa de madeira).
A luz atravessa os vidros altos da biblioteca.
Rendo-me, finalmente.

Poèsie sans réponse, Henri Meschonnic, ed. Gallimard, 1978.
p.18:
«Le poème est une pratique du singulier.
C’est le je qui est l’universel, qui fait le discours de l’impersonnel, vers le on d’avant et d’après le jeu.»

O capítulo é denso: «La situation d’un langage poétique»
Anoto traduzindo:
A poesia escapa ao verbo ser, ela é a própria figura da linguagem. Leio com vagar...


P.S: Na hora de sair lembro-me: J’ai pris connaissance du règlement de la Bibliothèque et je m’engage à le respecter.
Depois ainda encontro as seguintes informações em meio a milhares de outras:

A biblioteca Sainte-Geneviève tem a sua origem em 1624, na Abadia Sainte-Geneviève. Conserva mais de um milhão de volumes, e cerca de 15 mil títulos de periódicos franceses e estrangeiros, além de 4300 documentos manuscritos que datam do século IX ao XX. Inclusive, 600 manuscritos medievais, e a Bíblia de Manerius.
Localizada bem perto do Panthéon foi reconstruída pelo jovem arquiteto Henri Labrouste que consegue a aprovação para seu projeto em 1843. A primeira pedra foi colocada em 1844 e o local recebe os primeiros leitores em 1851.

Entre as curiosidades, que a biblioteca também guarda, estão algumas peças antigas e um conjunto de objetos etnográficos trazidos de explorações e inseridos aqui, em função da curiosidade que levantam por se encontrarem junto com objetos científicos: uma coleção não livresca na qual se vê, inclusive, a máscara mortuária de Henri IV, ou o calendário rúnico datado do séc. XVI.








Nota da autora:

Depois de quase cinco anos dessas anotações permanecerem em meus cadernos de viagem ou à margem de algum livro, decido organizar o texto e participar de um concurso literário. Participei mas não ganhei, e o concurso adiou tanto o resultado e sem dar satisfações respeitosas que pensei em desistir.
Esclareço que, acreditando que minha experiência na França tem algum interesse para o leitor de poesia contemporânea, apresento algumas dessas notas em meu blog.



Rio de Janeiro, 13 de fevereiro de 2010.

Anotações de viagem

Pesquisa na B. N. F.


Cheguei atrasada. Precisei fazer tudo novamente para receber os livros já separados. O atraso aqui, só é permitido até, no máximo, uma hora.
Às 11.45 hs entrei.
Hoje é dia 31 de março. Ainda faz frio.
Beaucoup!




Preciso escrever essa imensa Biblioteca plantada à beira do Sena, em Paris. Guardada por grandes escadas construídas com madeira vinda do Amazonas, segundo me contaram, os enormes prédios desta Biblioteca me confundem ao chegar aqui pela primeira vez. É que eles têm mais de uma entrada e precisei andar muito para alcançá-las corretamente, qualquer que seja a entrada a partir das reservas feitas pela internet.

Na primeira vez pensei estar em Nova York.
Escadas rolantes se debruçam sob o solo. Assombram.
As portas de vidro deixam entrar a luz do dia e os guardas, ali instalados, examinam as bolsas e mochilas posto que nas portas de entrada dessa instituição também estão as normas de sua segurança.
Depois, já inside, outras gigantes escadas rolantes, modernas e silenciosas, levam ao andar térreo descendo lentamente como se fora uma descida ao subterrâneo de um grande prédio colocado sob o ar, pois essa gigante biblioteca se estende também para baixo.

No primeiro dia fiz uma entrevista de apresentação na qual coloquei o meu interesse como pesquisadora: o poeta Francis Ponge. O meu trabalho no Brasil como poeta e doutoranda em Literatura Brasileira, em função do meu desejo de escrita, se fez presente.


Os corredores de tapetes vermelhos correm.
Ao lado paredes de vidro.
O silêncio ajuda a dar a este monumento
de livros
um espetáculo de obra de arte.
Nada na ville de Paris é tão contemporâneo quanto este gigantesco monumento – de vidros transparentes e escadas rolantes –, para além das escadarias de madeiras negras vindas da floresta do Amazonas.


***

Dos habitantes dos banlieues – espalhados ao redor de Paris – fiquei marcada pela expressão dura de olhos tensos.
Um estrangeiro está sempre em luta?


Percebo que fiquei sem resposta ao meu jeito de olhar por meses. Não fosse uma indiana, que me causou o milagre de um poema, eu não teria recebido no metrô sequer um sorriso.
Descer na estação do metrô lotada
perto do Beaubourg, quase ao lado do museu do Pompidou,
- aquele que começa do lado de fora e amplia a vida de Paris pelas lentes foscas dos vidros que nos favorecem admirar a cidade do alto das escadas – e,
receber o impacto da multidão que se move para pegar o próximo trem, girando (no detalhe: velhos e jovens que parecem atores de um filme em cena sem diálogo),
e assustada, perceber que vejo mais que o habitual nesses momentos mais tensos.




No sobe-e-desce dos metrôs
a partir das sombras
de inverno,
exaustão.
Conseguiria viver em Paris?

As pernas desacostumadas
a tanto vaivém
em escadas de intermináveis degraus,
(quase sempre sujos)
reclamam.
E as malas das pequenas viagens
seguras por cadeados imprestáveis e desnecessários
pesam demais.
Chegar nas estações a partir do R.E.R. parece fácil, mas não é.

Mais um dia!
E onde está a vida universitária sonhada?
Não consigo esconder as horas que correm...

Para uma brasileira, desacostumada aos hábitos parisienses, há muito sacrifício dentro da aventura.
Horários apertados. Guichês apressados.
Pagamentos em euro. Subir, entrar, se acomodar sem ruídos. Enfim, acariciar a paisagem que passa.
E quase não se mexer ao longo do trajeto do TGV. e/ou do R.E.R.

Rir...
jamais.



Nas padarias:
...et avec ceci?
Dentro dos ônibus onde (os franceses) são mais amigáveis (bem mais que nos metrôs e nos R.E.R.):
C’est pas grave!
E nos instantes acadêmicos dos seminários, quando então, sim, me sinto entre os meus pares:
Ça va?


Bonjour!

Etc.

Diante de uma xícara de café ou ao comprar o jornal diário, percebo o cansaço nas mãos de quem nos atende sempre rápido. Servir é, de fato, exaustivo. Reconheço o fato.

Anotei:
Aquele homem, talvez guardasse a esperança
de se confessar, sei lá.
Ajoelhado.
Permaneceu assim todo o tempo da celebração
na igreja
de Montparnasse.

quarta-feira, 10 de fevereiro de 2010

A Biblioteca da Cité Universitaire e os livros grátis.


Descobri de repente! Aliás, foi José quem descobriu. Hoje, em um dia do mês de junho, a biblioteca da Cité Universitaire abre as suas portas aos estudantes de todos os paises, que queiram pegar livros gratuitamente. Não é brincadeira não... os livros estavam lá para serem alcançados. Assim, alguns de meus livros têm o selo: Le Bouquin volant. Ou seja, o Livro móvel, ou algo próximo disso.
São livros destinados aos alunos estrangeiros e que não podem ser vendidos. Adquiri livros de poetas e de artistas, inclusive esse que agora me ajuda a construir parte da história de Montparnasse;
La vie quotidienne a Montparnasse de Jean-Paul Crespelle, editado em 1976 pela Libraire Hachette.



**

A literatura sai de nós pela nossa boca, ou seria melhor dizer pela nossa voz. E ela entra em nós por nossos olhos e ouvidos. A questão é complexa e envolve uma abertura do olhar ao mundo exterior. Mas não apenas.

Ponge se indaga: “o que fala quando eu falo?”
E afirma que a “afasia” fundou a sua obra.
No entanto, o que o obrigou a escrever foi o mutismo das coisas.
(Ponge considera que trabalhou fazendo violência à língua desde o interior). Movendo a língua, ele fez falar o que antes parecia morto. Assim, escreveu o que o rodeava e também as pinturas e esculturas que precisavam falar.
Deu voz às coisas do mundo e me deixou diante de um mundo vivo e saboroso.

Anotações

Durante les années noires,


em toda França,

a vida parou.

Mas as reuniões poéticas de Paul Fort em La Closerie des Lilas, assim como as representações dos caf’conc’ da rua da Gaité continuaram (foi o que li em La vie quotidienne à Montparnasse à la grande époque. 1905-1930.)

Era preciso distrair os que vinham por alguns dias do Inferno do Fronte.


Em Montparnasse, nos ateliers morria-se de frio.

Poucos foram os artistas estrangeiros que permaneceram por lá. A maioria dos marchands, que se interessava pelas obras desses artistas, deixou de comprá-las.

Todos pareciam aguardar.

Nesta atmosfera de miséria geral, os escritores e os artistas permaneceram recolhidos.

Conta-se que muitos artistas se alistaram, mesmo os estrangeiros.

Blaise Cendrais perdeu um braço na fazenda de Navarin durante um combate. E, em Montparnasse, muitos foram recusados pelo conselho de revisão em função do mau estado físico em que se encontravam. Diego Rivera em razão de suas varizes, Modigliani pela miséria física. Picasso foi um dos raros estrangeiros a não se engajar. Ele não fez a guerra como os outros.

No verão de 14, alguns artistas recusados pelo exército se camuflaram nos ateliers de l’Opéra, e outros foram trabalhar na fábrica de velas de automóvel.

Alguns operários, em número de trezentos, viviam da fabricação de aparelhos elétricos, de instrumentos de balística e de telescópios de submarinos.

Essa era a vida, mínima.

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2010

Francis Ponge

FRANCIS PONGE e sua mesa

Francis Ponge e sua mesa
ou: Do amor de um escritor por sua mesa
“Ó Mesa, meu consolo e minha consoladora, mesa que me
consola, onde eu me consolido”

Não será percorrendo as vias dos homens ilustres que encontraremos, na virada do século XIX na França, um poeta que nunca se reconheceu entre os surrealistas, poetas de vanguarda que passaram a ocupar, pouco tempo depois, a cena literária. Mas Francis Ponge, nascido na região do Languedoc, em 1899 mais precisamente, escreveu uma obra que é reconhecida como fundamental para a poesia de hoje. Seu trabalho é uma interrogação sobre a linguagem, e tem uma dimensão ética no sentido em que apresenta uma preocupação com o homem e com as coisas do mundo.
Ponge trabalhou com a letra de forma radical. Seus escritos abrem espaço para a palavra estabelecida em uma dimensão de objeto; objeto verbal. O que ele nomeou como objeu, que no Brasil foi traduzido por objogo , é um vocábulo que busca dizer o objeto e o jogo com a linguagem onde também está inserido algo da perda.
Constantemente sentado diante de sua mesa e escrevendo atento às raízes das palavras, buscando o que ele nomeou como “o mundo mudo” , ou melhor, pesquisando de forma delicada e insistente no dicionário Littré , em uma prática interminável com a língua, Ponge ao mesmo tempo em que escreve, desbrava novas possibilidades para os vocábulos que tomam lugar na página. O poeta e sua mesa passam a traduzir algo dessa experiência que se coloca como um não saber. Cito:
Velando desde o jantar de ontem à noite (O que estou dizendo?). Por assim dizer, não deixei minha cadeira de braços, tão penosa para o cóccix, com os joelhos mais altos do que a cabeça, os pés em cima da salamandra (...), só agora me sinto pronto pra molhar a pena na tinta, sem muito saber o que vou escrever (“L'eucalyptus”, 31 de agosto de 1943, 3 horas da manhã).


É da experiência que se trata nesse esforço contínuo de escrever. Como se estivesse detalhando um pouco de seu movimento, Ponge escreve e descreve a implicação do próprio corpo no corpo do texto. São inclusive os seus incômodos e dores que traduzem algo dessa tarefa. O que se observa, de fato, é que a obra pongiana dá um testemunho até mesmo irônico de seus esforços, já que a escrita é para ele uma obrigação de sempre escrever, até mesmo contra ela. Sabendo, de antemão, que “a máquina de escrever” (na época bastante utilizada) participa e trabalha para colocar na página as múltiplas tentativas da escrita, as rasuras e os erros.
No entanto, considera-se que as sílabas e as letras comparecem no ofício de escrever, impondo-se a partir das sonoridades e rimas (internas). Elas se apresentam em ritmo e em uma tensão que o texto comporta, que se estabelece inclusive na leitura, no manuscrito que vai se tornando uma tela de escrita. À semelhança com a pintura – na qual se destacam as várias camadas de tintas – nessa prática destaca-se também o que vai tomando forma e se juntando ao texto, com as letras escritas à máquina e as escritas à mão, nas muitas etapas do escrever.
A caneta tem ainda alguma coisa de seu sentido latino, esse prolongamento da mão que grava as palavras e os pensamentos lembra o buril que gravava as inscrições e as estelas (...) ‘Aqui eu mudo de pena em sua honra’ escreveu Ponge em ‘L’eucalyptus’. O manuscrito pode nesta ocasião tornar-se uma verdadeira tela escritural onde as palavras, as tonalidades da tinta, as formas e as qualidades do papel, as
cores também jogam com suas relações como os toques no trabalho do pintor.

São nesses momentos de passagem que o poeta invoca a invenção em sua materialidade. No detalhe desse fragmento citado, destacam-se as palavras de Ponge: “Ici je change de plume...” Exatamente aqui o poeta muda de caneta... e o tom da escrita saboreia essa mudança anunciada. Com um gesto, ele conforta o trabalho e pontua o exercício testemunhando-o.
Percebe-se o lugar dado à materialidade da língua. Um lugar de amor ao texto e às raízes das palavras em seu sentido latino, tanto quanto um lugar de matéria e, portanto, ao que é essencial e sólido, diríamos ainda que são o buril, a pena e a caneta que confirmam o esforço da mão que traça os caminhos assim como nas inscrições primeiras feitas na pedra.
Francis Ponge e sua mesa. Em um recorte deste seu momento de trabalho, cito-o: “Mesa, venha te colocar,.../ Lembres, mesa, em meu pulso esquerdo” (...) “Mesa, hoje venha me ajudar a te colocar em questão, à receber de ti tua lição”. Uma mesa a cada momento de escrita, diria ele depois, “uma mesa cada noite, continuada e corrigida cada manhã seguinte”.
No desenvolvimento dessa narrativa desenrola-se o que podemos nomear como a “bobina da memória sensível” , um “prazer que procura o desenrolar da bobina” , fato conhecido e nomeado por Freud. É desse fio que deslizam cenas antigas de momentos sob a mesa com lembranças interrompidas: uma noite com Helena (sua irmã), uma grande mesa de madeira branca, na cozinha, um momento no qual ele foi fotografado por seu pai. Datas diferentes passeiam de 1922/1923 a 1940, no final de uma temporada em Montmorency.
Recupero um aspecto do “jogo da bobina”, no qual nasce alguma distância possível entre a mãe e o bebê, conforme sabemos, e que é onde a criança experimenta algo da separação. A criança parece ver “no estupor da espera sobre o fundo da ausência materna”. É desse momento fundo de ausência, conforme Georges Didi-Huberman reconhece, que a criança olha o objeto concreto com o qual brinca – carretel, boneca, cubo ou lençol – e que está ali exposto ao olhar; um objeto ritmado. Na repetição inserida está a cena freudiana de “Além do princípio do prazer”. E reconhecemos, também, o jogo de linguagem que insere a criança no mundo como se fosse um espaço no qual, de verdade, se oferece um brincar com alguma distância entre ela (a criança) e seu brinquedo, supostamente no lugar da mãe, essa que até então era a referência primeira de vida para esse infans.

FRANCIS PONGE e sua mesa (continuação)

Ponge escreveu A Mesa durante sete anos, a partir de 1967. Parece-me que o poeta escreveu seu objeto, mesa, no ritmo que a “sua mesa” lhe impôs. Em 7 de junho de 1971 ele anotou:
Eis para que
é preciso começar
pois eu o sei
agora, por
experiência várias
vezes renovada:
é a madeira e sua
sonoridade que
surgem para mim
cada vez que
sonho outra vez à mesa.

Pode-se crer que Ponge organiza, nesse jogo com a mesa, algo primordial de seu trabalho: repetição e ritmo. Diremos que é nisso, nesse movimento, que buscamos conhecer um pouco mais a partir de seus versos, e onde encontramos o poeta sentado – trabalhando diante de sua mesa – essa que também lhe apóia o corpo e que lhe ensina algo da matéria, da madeira, das pernas firmes no chão, na distância mínima com o objeto que lhe sugere sonoridades na hora da escrita, nessa postura que lhe dá a diferença entre a verticalidade do corpo do homem e a horizontalidade da mesa, a qual comporta inclusive, a posição presente para a vida humana na hora da morte, mas não só. Um homem e sua mesa no ‘objeto-em-jogo’ se inserem. Percebe-se a forma como a mesa é afirmada, como aquilo que o ajuda a sonhar e que o instala, diariamente, na experiência com a escrita. O fato não é novo, mas se a obra implica a perda e disso algo resta, estamos no quadro antes reportado no jogo do Fort-Da (“Longe, ausente/ Aí, presente”). Pois, instalado no ritmo de escrever, o poeta no vai-e-vem da letra se compromete com algo recolhido do universo literário e, sobretudo, com a singularidade do gesto de um corpo habitado nesse ofício e carregando uma história.
A partir de uma mesa e sua materialidade, ali mesmo, onde ela se mostra para o corpo do poeta – no seu horizonte visível – ele escreve proemas, esboços, rascunhos. Na primeira sílaba da palavra table Ponge encontra a sonoridade da madeira, o som “em xeque” conforme ele diz: “ta”. Logo a seguir, a terminação muda da palavra lhe anuncia um aspecto presente em suas preocupações, pois o coloca diante do mundo mudo, com a letra não pronunciada, o “e” da sílaba final. Mas, ele reconhece, também, nessa experiência, algo do desejo que se impõe na relação presentificada com “a mesa” uma vez e outra vez.
E, nota-se a perseverança do escritor, digo, nisso que conseguimos perceber como da ordem da angústia, que para qualquer sujeito pode vir a operar um movimento, causa de desejo. Não é por acaso, que Ponge nomeia a sua mesa como ocupando um lugar de consoladora, assim como sua mãe o foi, ele diz: “(Eu vou à minha mesa), eu vou aí como à minha mãe, à minha consoladora”, p.69. Uma mesa de palavras pode-se bem perceber, observando também que na Idade Média “consoler” significa: réjouir, ou seja, se alegrar. Termino relembrando Lacan no Seminário 11: “o jogo do carretel é a resposta do sujeito àquilo que a ausência da mãe veio criar na fronteira de seu domínio – a borda do seu berço – isto é, um fosso em torno do qual ele nada mais tem a fazer senão o jogo do salto.”

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2010

Homenagem

A tradutora de Virgínia Woolf para o francês, a escritora Marguerite Yourcenar escreveu: "AS ONDAS é um livro com seis personagens, ou melhor, seis instrumentos musicais, pois consiste unicamente de monólogos interiores cujas curvas se sucedem, se entrecruzam, com a firmeza de um desenho que lembra A arte da Fuga, de Bach".
A narrativa, neste romance, incorpora pensamentos infantis, reflexões da juventude, e espaços de lentos solilóquios sobre a maturidade.

terça-feira, 2 de fevereiro de 2010

Uma leitura de As ondas de Virgínia Woolf

Somos parte das descobertas ao nos entregarmos no texto As ondas. Podemos ceder e até rir, deliciosamente, com as tantas artimanhas que a escrita favorece. Também podemos nos embrulhar nos cartões-postais enviados e, tal qual o personagem Percival, ficaremos esquecidos, sem noção do amor que nos foi dedicado. No entanto, se o texto de Virgínia autoriza essas descobertas inesquecíveis, deixa ver e remonta também aspectos do passado; o nosso tanto quanto o da autora. Sentimos uma espécie de torpor e experimentamos as palavras raras dessa escritora, à moda de Freud no texto “Escritores criativos e devaneios”, sabendo, aliás, que quando um escritor nos alcança dessa maneira não podemos recuar. Somos, enquanto leitores, aquilo que ele faz de nós. Nos comportamos como um objeto amado, sem conseguir escapar.