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domingo, 14 de fevereiro de 2010

Anotações de viagem

Pesquisa na B. N. F.


Cheguei atrasada. Precisei fazer tudo novamente para receber os livros já separados. O atraso aqui, só é permitido até, no máximo, uma hora.
Às 11.45 hs entrei.
Hoje é dia 31 de março. Ainda faz frio.
Beaucoup!




Preciso escrever essa imensa Biblioteca plantada à beira do Sena, em Paris. Guardada por grandes escadas construídas com madeira vinda do Amazonas, segundo me contaram, os enormes prédios desta Biblioteca me confundem ao chegar aqui pela primeira vez. É que eles têm mais de uma entrada e precisei andar muito para alcançá-las corretamente, qualquer que seja a entrada a partir das reservas feitas pela internet.

Na primeira vez pensei estar em Nova York.
Escadas rolantes se debruçam sob o solo. Assombram.
As portas de vidro deixam entrar a luz do dia e os guardas, ali instalados, examinam as bolsas e mochilas posto que nas portas de entrada dessa instituição também estão as normas de sua segurança.
Depois, já inside, outras gigantes escadas rolantes, modernas e silenciosas, levam ao andar térreo descendo lentamente como se fora uma descida ao subterrâneo de um grande prédio colocado sob o ar, pois essa gigante biblioteca se estende também para baixo.

No primeiro dia fiz uma entrevista de apresentação na qual coloquei o meu interesse como pesquisadora: o poeta Francis Ponge. O meu trabalho no Brasil como poeta e doutoranda em Literatura Brasileira, em função do meu desejo de escrita, se fez presente.


Os corredores de tapetes vermelhos correm.
Ao lado paredes de vidro.
O silêncio ajuda a dar a este monumento
de livros
um espetáculo de obra de arte.
Nada na ville de Paris é tão contemporâneo quanto este gigantesco monumento – de vidros transparentes e escadas rolantes –, para além das escadarias de madeiras negras vindas da floresta do Amazonas.


***

Dos habitantes dos banlieues – espalhados ao redor de Paris – fiquei marcada pela expressão dura de olhos tensos.
Um estrangeiro está sempre em luta?


Percebo que fiquei sem resposta ao meu jeito de olhar por meses. Não fosse uma indiana, que me causou o milagre de um poema, eu não teria recebido no metrô sequer um sorriso.
Descer na estação do metrô lotada
perto do Beaubourg, quase ao lado do museu do Pompidou,
- aquele que começa do lado de fora e amplia a vida de Paris pelas lentes foscas dos vidros que nos favorecem admirar a cidade do alto das escadas – e,
receber o impacto da multidão que se move para pegar o próximo trem, girando (no detalhe: velhos e jovens que parecem atores de um filme em cena sem diálogo),
e assustada, perceber que vejo mais que o habitual nesses momentos mais tensos.




No sobe-e-desce dos metrôs
a partir das sombras
de inverno,
exaustão.
Conseguiria viver em Paris?

As pernas desacostumadas
a tanto vaivém
em escadas de intermináveis degraus,
(quase sempre sujos)
reclamam.
E as malas das pequenas viagens
seguras por cadeados imprestáveis e desnecessários
pesam demais.
Chegar nas estações a partir do R.E.R. parece fácil, mas não é.

Mais um dia!
E onde está a vida universitária sonhada?
Não consigo esconder as horas que correm...

Para uma brasileira, desacostumada aos hábitos parisienses, há muito sacrifício dentro da aventura.
Horários apertados. Guichês apressados.
Pagamentos em euro. Subir, entrar, se acomodar sem ruídos. Enfim, acariciar a paisagem que passa.
E quase não se mexer ao longo do trajeto do TGV. e/ou do R.E.R.

Rir...
jamais.



Nas padarias:
...et avec ceci?
Dentro dos ônibus onde (os franceses) são mais amigáveis (bem mais que nos metrôs e nos R.E.R.):
C’est pas grave!
E nos instantes acadêmicos dos seminários, quando então, sim, me sinto entre os meus pares:
Ça va?


Bonjour!

Etc.

Diante de uma xícara de café ou ao comprar o jornal diário, percebo o cansaço nas mãos de quem nos atende sempre rápido. Servir é, de fato, exaustivo. Reconheço o fato.

Anotei:
Aquele homem, talvez guardasse a esperança
de se confessar, sei lá.
Ajoelhado.
Permaneceu assim todo o tempo da celebração
na igreja
de Montparnasse.

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