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quinta-feira, 4 de fevereiro de 2010

FRANCIS PONGE e sua mesa (continuação)

Ponge escreveu A Mesa durante sete anos, a partir de 1967. Parece-me que o poeta escreveu seu objeto, mesa, no ritmo que a “sua mesa” lhe impôs. Em 7 de junho de 1971 ele anotou:
Eis para que
é preciso começar
pois eu o sei
agora, por
experiência várias
vezes renovada:
é a madeira e sua
sonoridade que
surgem para mim
cada vez que
sonho outra vez à mesa.

Pode-se crer que Ponge organiza, nesse jogo com a mesa, algo primordial de seu trabalho: repetição e ritmo. Diremos que é nisso, nesse movimento, que buscamos conhecer um pouco mais a partir de seus versos, e onde encontramos o poeta sentado – trabalhando diante de sua mesa – essa que também lhe apóia o corpo e que lhe ensina algo da matéria, da madeira, das pernas firmes no chão, na distância mínima com o objeto que lhe sugere sonoridades na hora da escrita, nessa postura que lhe dá a diferença entre a verticalidade do corpo do homem e a horizontalidade da mesa, a qual comporta inclusive, a posição presente para a vida humana na hora da morte, mas não só. Um homem e sua mesa no ‘objeto-em-jogo’ se inserem. Percebe-se a forma como a mesa é afirmada, como aquilo que o ajuda a sonhar e que o instala, diariamente, na experiência com a escrita. O fato não é novo, mas se a obra implica a perda e disso algo resta, estamos no quadro antes reportado no jogo do Fort-Da (“Longe, ausente/ Aí, presente”). Pois, instalado no ritmo de escrever, o poeta no vai-e-vem da letra se compromete com algo recolhido do universo literário e, sobretudo, com a singularidade do gesto de um corpo habitado nesse ofício e carregando uma história.
A partir de uma mesa e sua materialidade, ali mesmo, onde ela se mostra para o corpo do poeta – no seu horizonte visível – ele escreve proemas, esboços, rascunhos. Na primeira sílaba da palavra table Ponge encontra a sonoridade da madeira, o som “em xeque” conforme ele diz: “ta”. Logo a seguir, a terminação muda da palavra lhe anuncia um aspecto presente em suas preocupações, pois o coloca diante do mundo mudo, com a letra não pronunciada, o “e” da sílaba final. Mas, ele reconhece, também, nessa experiência, algo do desejo que se impõe na relação presentificada com “a mesa” uma vez e outra vez.
E, nota-se a perseverança do escritor, digo, nisso que conseguimos perceber como da ordem da angústia, que para qualquer sujeito pode vir a operar um movimento, causa de desejo. Não é por acaso, que Ponge nomeia a sua mesa como ocupando um lugar de consoladora, assim como sua mãe o foi, ele diz: “(Eu vou à minha mesa), eu vou aí como à minha mãe, à minha consoladora”, p.69. Uma mesa de palavras pode-se bem perceber, observando também que na Idade Média “consoler” significa: réjouir, ou seja, se alegrar. Termino relembrando Lacan no Seminário 11: “o jogo do carretel é a resposta do sujeito àquilo que a ausência da mãe veio criar na fronteira de seu domínio – a borda do seu berço – isto é, um fosso em torno do qual ele nada mais tem a fazer senão o jogo do salto.”

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