quinta-feira, 4 de fevereiro de 2010

FRANCIS PONGE e sua mesa

Francis Ponge e sua mesa
ou: Do amor de um escritor por sua mesa
“Ó Mesa, meu consolo e minha consoladora, mesa que me
consola, onde eu me consolido”

Não será percorrendo as vias dos homens ilustres que encontraremos, na virada do século XIX na França, um poeta que nunca se reconheceu entre os surrealistas, poetas de vanguarda que passaram a ocupar, pouco tempo depois, a cena literária. Mas Francis Ponge, nascido na região do Languedoc, em 1899 mais precisamente, escreveu uma obra que é reconhecida como fundamental para a poesia de hoje. Seu trabalho é uma interrogação sobre a linguagem, e tem uma dimensão ética no sentido em que apresenta uma preocupação com o homem e com as coisas do mundo.
Ponge trabalhou com a letra de forma radical. Seus escritos abrem espaço para a palavra estabelecida em uma dimensão de objeto; objeto verbal. O que ele nomeou como objeu, que no Brasil foi traduzido por objogo , é um vocábulo que busca dizer o objeto e o jogo com a linguagem onde também está inserido algo da perda.
Constantemente sentado diante de sua mesa e escrevendo atento às raízes das palavras, buscando o que ele nomeou como “o mundo mudo” , ou melhor, pesquisando de forma delicada e insistente no dicionário Littré , em uma prática interminável com a língua, Ponge ao mesmo tempo em que escreve, desbrava novas possibilidades para os vocábulos que tomam lugar na página. O poeta e sua mesa passam a traduzir algo dessa experiência que se coloca como um não saber. Cito:
Velando desde o jantar de ontem à noite (O que estou dizendo?). Por assim dizer, não deixei minha cadeira de braços, tão penosa para o cóccix, com os joelhos mais altos do que a cabeça, os pés em cima da salamandra (...), só agora me sinto pronto pra molhar a pena na tinta, sem muito saber o que vou escrever (“L'eucalyptus”, 31 de agosto de 1943, 3 horas da manhã).


É da experiência que se trata nesse esforço contínuo de escrever. Como se estivesse detalhando um pouco de seu movimento, Ponge escreve e descreve a implicação do próprio corpo no corpo do texto. São inclusive os seus incômodos e dores que traduzem algo dessa tarefa. O que se observa, de fato, é que a obra pongiana dá um testemunho até mesmo irônico de seus esforços, já que a escrita é para ele uma obrigação de sempre escrever, até mesmo contra ela. Sabendo, de antemão, que “a máquina de escrever” (na época bastante utilizada) participa e trabalha para colocar na página as múltiplas tentativas da escrita, as rasuras e os erros.
No entanto, considera-se que as sílabas e as letras comparecem no ofício de escrever, impondo-se a partir das sonoridades e rimas (internas). Elas se apresentam em ritmo e em uma tensão que o texto comporta, que se estabelece inclusive na leitura, no manuscrito que vai se tornando uma tela de escrita. À semelhança com a pintura – na qual se destacam as várias camadas de tintas – nessa prática destaca-se também o que vai tomando forma e se juntando ao texto, com as letras escritas à máquina e as escritas à mão, nas muitas etapas do escrever.
A caneta tem ainda alguma coisa de seu sentido latino, esse prolongamento da mão que grava as palavras e os pensamentos lembra o buril que gravava as inscrições e as estelas (...) ‘Aqui eu mudo de pena em sua honra’ escreveu Ponge em ‘L’eucalyptus’. O manuscrito pode nesta ocasião tornar-se uma verdadeira tela escritural onde as palavras, as tonalidades da tinta, as formas e as qualidades do papel, as
cores também jogam com suas relações como os toques no trabalho do pintor.

São nesses momentos de passagem que o poeta invoca a invenção em sua materialidade. No detalhe desse fragmento citado, destacam-se as palavras de Ponge: “Ici je change de plume...” Exatamente aqui o poeta muda de caneta... e o tom da escrita saboreia essa mudança anunciada. Com um gesto, ele conforta o trabalho e pontua o exercício testemunhando-o.
Percebe-se o lugar dado à materialidade da língua. Um lugar de amor ao texto e às raízes das palavras em seu sentido latino, tanto quanto um lugar de matéria e, portanto, ao que é essencial e sólido, diríamos ainda que são o buril, a pena e a caneta que confirmam o esforço da mão que traça os caminhos assim como nas inscrições primeiras feitas na pedra.
Francis Ponge e sua mesa. Em um recorte deste seu momento de trabalho, cito-o: “Mesa, venha te colocar,.../ Lembres, mesa, em meu pulso esquerdo” (...) “Mesa, hoje venha me ajudar a te colocar em questão, à receber de ti tua lição”. Uma mesa a cada momento de escrita, diria ele depois, “uma mesa cada noite, continuada e corrigida cada manhã seguinte”.
No desenvolvimento dessa narrativa desenrola-se o que podemos nomear como a “bobina da memória sensível” , um “prazer que procura o desenrolar da bobina” , fato conhecido e nomeado por Freud. É desse fio que deslizam cenas antigas de momentos sob a mesa com lembranças interrompidas: uma noite com Helena (sua irmã), uma grande mesa de madeira branca, na cozinha, um momento no qual ele foi fotografado por seu pai. Datas diferentes passeiam de 1922/1923 a 1940, no final de uma temporada em Montmorency.
Recupero um aspecto do “jogo da bobina”, no qual nasce alguma distância possível entre a mãe e o bebê, conforme sabemos, e que é onde a criança experimenta algo da separação. A criança parece ver “no estupor da espera sobre o fundo da ausência materna”. É desse momento fundo de ausência, conforme Georges Didi-Huberman reconhece, que a criança olha o objeto concreto com o qual brinca – carretel, boneca, cubo ou lençol – e que está ali exposto ao olhar; um objeto ritmado. Na repetição inserida está a cena freudiana de “Além do princípio do prazer”. E reconhecemos, também, o jogo de linguagem que insere a criança no mundo como se fosse um espaço no qual, de verdade, se oferece um brincar com alguma distância entre ela (a criança) e seu brinquedo, supostamente no lugar da mãe, essa que até então era a referência primeira de vida para esse infans.

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