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domingo, 14 de fevereiro de 2010

Texto inédito - Biblioteca Saint-Geneviève

Notas tomadas em 25.07.05 na Bibliothèque Sainte-Geneviève


A porta diante de mim possui o número 13 bem no meio do portal.
Preciso fazer esforço para conseguir me concentrar. Leio novamente Meschonnic. Estalo os dedos. Procuro me ausentar um pouco da força escópica que sinto em direção às paredes rodeadas de livros.

No alto da colina Sainte Geneviève, a biblioteca oferece alguns vestígios de leitores antigos, com transcrições, inclusive, nas paredes da entrada. A história conta que houve uma abadia aqui, lá pelos anos VI d. C.
Li e não lembro onde, que o abade principal, na época da Revolução Francesa, conseguiu proteger a abadia-biblioteca das invasões e destruições que aconteciam na cidade (feitas por inúmeros saqueadores). O local que já foi um lugar que recebeu muitos viajantes, e os alimentou durante suas passagens por Paris, continuou respeitado sempre. Nunca foi incendiado ou danificado.


Sento-me na cadeira de número 313, porque a de número 311 está ocupada. O jovem que está ali me diz, tranqüilamente, que não é preciso ocupar o lugar correto reservado pelo computador, que nos é apresentado logo na entrada (diferentemente da Biblioteca Nacional da França, com sua formalidade perfeita).
Et, ça va!

Eu procuro escutar a leitura
(encontro os olhos de José
no outro lado da longa e baixa mesa de madeira).
A luz atravessa os vidros altos da biblioteca.
Rendo-me, finalmente.

Poèsie sans réponse, Henri Meschonnic, ed. Gallimard, 1978.
p.18:
«Le poème est une pratique du singulier.
C’est le je qui est l’universel, qui fait le discours de l’impersonnel, vers le on d’avant et d’après le jeu.»

O capítulo é denso: «La situation d’un langage poétique»
Anoto traduzindo:
A poesia escapa ao verbo ser, ela é a própria figura da linguagem. Leio com vagar...


P.S: Na hora de sair lembro-me: J’ai pris connaissance du règlement de la Bibliothèque et je m’engage à le respecter.
Depois ainda encontro as seguintes informações em meio a milhares de outras:

A biblioteca Sainte-Geneviève tem a sua origem em 1624, na Abadia Sainte-Geneviève. Conserva mais de um milhão de volumes, e cerca de 15 mil títulos de periódicos franceses e estrangeiros, além de 4300 documentos manuscritos que datam do século IX ao XX. Inclusive, 600 manuscritos medievais, e a Bíblia de Manerius.
Localizada bem perto do Panthéon foi reconstruída pelo jovem arquiteto Henri Labrouste que consegue a aprovação para seu projeto em 1843. A primeira pedra foi colocada em 1844 e o local recebe os primeiros leitores em 1851.

Entre as curiosidades, que a biblioteca também guarda, estão algumas peças antigas e um conjunto de objetos etnográficos trazidos de explorações e inseridos aqui, em função da curiosidade que levantam por se encontrarem junto com objetos científicos: uma coleção não livresca na qual se vê, inclusive, a máscara mortuária de Henri IV, ou o calendário rúnico datado do séc. XVI.








Nota da autora:

Depois de quase cinco anos dessas anotações permanecerem em meus cadernos de viagem ou à margem de algum livro, decido organizar o texto e participar de um concurso literário. Participei mas não ganhei, e o concurso adiou tanto o resultado e sem dar satisfações respeitosas que pensei em desistir.
Esclareço que, acreditando que minha experiência na França tem algum interesse para o leitor de poesia contemporânea, apresento algumas dessas notas em meu blog.



Rio de Janeiro, 13 de fevereiro de 2010.

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