terça-feira, 30 de março de 2010

Poema para uma gata


Aos animais é dada a morte bem cedo.
Aos gatos que escovamos e observamos os olhos se fecharem, aos cães, pequeninos, os que carregamos como a um filho, damos banho, alimento, proteção.
Na vida, os bichos nos acompanham. Gemem, comem. Dormem. E nos observam. Andam junto ao assoalho. Conhecem os cheiros, as sombras.
Os olhos vazam nossos ossos. Saboreiam intimidades.

Duque gostava das torradas que meu pai lhe lançava todas as tardes.
Coringa corria solto nas noites quentes de Manaus até a casa silenciar.

Quando um animal morre, enterra-se.
Na escrita um pêlo se instala.
E na história da Gata Mostarda, que escovávamos quase todos os dias,
um cão de raça pequenina e amiga surge rente ao chão.
Sentada no Limbo a observar de bem longe, ela bebe em silêncio nossos segredos íntimos.

Quando somos gata, não somos cão.

Os olhos vazam nossos olhos.
Gemem. Comem. Dormem. Perseguem cheiros.
Quando somos cão, não somos gata.

segunda-feira, 29 de março de 2010

A gata Mostarda


LAURE LIMONGI
O azul da inclinação

O joelho está flexionado a fim de dispor o corpo na vertical da fechadura.
O corpo carrega a chave mas não deseja abrir, ainda.
A mão contém a chave acariciando-a enquanto o olho se abandona à tristeza. Enquanto
o olho claro perfura, a sobrancelha contra o metal gelado, examina sem sucesso, o olho no limite de sua percepção só poderá voltar à ação. Talvez.
A mão esquerda está posta aberta, contra a madeira da porta que é uma madeira lisa.
A parede do corredor olha a cena.
O cheiro conhecido dos cabelos seduziu e murmura com o movimento da cabeça sem saber muito bem se e o quê fazer.
Com um não-sei-quê de selvagem e perdido.
Com um não-sei-quê de já morto.
O vestido está amarrotado de tocar o solo, levando o peso da personagem leve de coração pesado.
O vestido chia da respiração ofegante da curiosidade e do medo.
A parede do corredor se emociona.

Há carroças e móveis, bordados e espelhos.
Casas, sofás, criados, louça de ouro e de prata e de vermeil.
Ele me desejou, eu, entre todas, depois de muitas.
Eu sabia que era a boca do lobo. Lobo azul. E me lancei ali.
Eu sabia que era o medo azul do qual eu morreria. E me lancei ali.

Mas aquilo, só a parede do corredor escutou. Sua tapeçaria estremeceu. Uma corrente de ar de lembranças e motivos se desdobraram. Circundam as portas. Correm de portal em portal em busca da saída. Mas o conto não existe mais, pois o malvado morre e somente as mulheres se sucedem. Já que as mulheres morrem e somente os malvados se sucedem. Enquanto que as irmãs conquistam o horizonte com o olhar distraído.

Ela, vestida e penteada, se chama Heloisa ou Eleonora ou Isaura ou Rosalinda ou Branca ou Judite. Mas, a irmã se chama sempre Ana. A grama é verde. E a barba é sempre azul.


Tradução: Solange Rebuzzi.
Fragmento do poema retirado da revista Action poètique. n.189, p. 73


Le bleu de l’inflexion
Laure Limongi

Le genou est fléchi afin de disposer le corps à la verticale de la serrure.Le corps porte la clef mais ne veut pas ouvrir, encore.La main tient la clef en la caressant tandis que l’œil ne broie que du noir. Tandis que l’œil clair perce, sourcil contre métal glacé, fouille sans succès, l’œil à la limite de sa perception ne pourra s’en remettre qu’à l’action. Peut-être.La main gauche est posée, à plat contre le bois de la porte qui est un bois lisse.Le mur du couloir regarde la scène.L’odeur savante des cheveux a séduit et bruisse du mouvement de la tête ne sachant trop si et quoi et que faire.Avec un je-ne-sais-quoi de sauvage et perdu.Avec un je-ne-sais-quoi de déjà mort.La robe est froissée de toucher le sol, portant le poids du personnage léger au cœur lourd.La robe crisse de la respiration haletante de la curiosité et de la peur.Le mur du couloir en est ému.

Il a des carrosses et des meubles, des broderies et des miroirs.
Des maisons, des sofas, des serviteurs, de la vaisselle d’or et d’argent et de vermeil.
Il m’a voulue, moi, entre toutes, après plusieurs.
Je savais que c’était la gueule du loup. Loup bleu. Et je m’y suis jetée.
Je savais que c’était la peur bleue dont je mourrai. Et je m’y suis jetée.

Mais cela, seul le mur du couloir l’a entendu. Sa tapisserie en a tremblé. Un
courant d’air de souvenirs et les motifs se sont dédoublés. Ils entourent les
portes. Ils courent de chambranle en chambranle à la recherche de la sortie. Mais
le conte n’en a pas puisque le méchant meurt et que les femmes se succèdent. Puisque les femmes meurent et que les méchants se succèdent. Tandis que les soeurs
matent l’horizon d’un oeil distrait.

Elle, en robe et coiffure, elle s’appele Héloïse ou Éléonore ou Isaure ou Rosalinde ou Blanche ou Judith. Mais la soeur s’appele toujours Anne. L’herbe
est verte. Et la barbe est toujours bleue.

quinta-feira, 25 de março de 2010

Laure Limongi Rio/São Paulo


Encontrei Laure Limongi pela primeira vez, dentro da Mediateca da Maison de France do Rio de Janeiro, um pouco antes do encontro Café Letrado – poesia & arte que coordeno ao lado de José Eduardo Barros.
Encontrei-a, pela segunda vez, para um café e um passeio no Instituto Moreira Salles. Desta vez, conversamos sobre muitas coisas deste momento crítico do mundo: violências nas cidades e periferias do Rio e de Paris, Excessos em tudo ao redor (de ruídos, de carros, de celulares – aliás, onde vamos colocá-los depois? –, de lixo, etc,.)
Nós duas descobrimos alguns detalhes nas imagens das fotos antigas de um Rio de Janeiro em preto e branco, a partir do olhar do fotógrafo Augusto Malta. Fotos que expostas revelam as influências francesas, que a cidade do Rio de Janeiro sofreu nos primeiros tempos de seu crescimento, no inicio do século XX. Rimos das mulheres, pequeninas, nas imagens das fotografias e, tão vestidas – com saias sobre saias – chapéus e babados. Acompanhadas de seus digníssimos Senhores trajados de paletós, coletes, polainas, chapéus e bengalas. Observamos com curiosidade o traçado das grandes avenidas, que nasciam pelas mãos dos operários.
No café desse Instituto de Arte, observamos o chão em tons vermelho vivo, e os espaços transpassados pela luz do final do dia. Tocamos em alguns livros na mini livraria. Laure Limongi olhou a edição dos belos Cadernos e os elogiou. Interessou-se por Hilda Hilst. Fiz questão de contar algumas cenas da história de Hilda, poeta exilada em sua própria chácara, Casa do Sol, nas proximidades de Campinas, São Paulo. Pediu-me que lhe contasse algo sobre a obra de Mário de Andrade. Discorri sobre as inúmeras correspondências com os escritores de seu tempo: Manuel Bandeira, Carlos Drummond de Andrade, o jovem Fernando Sabino, e tantos outros. Ela me disse que compraria um de seus livros, Macunaíma talvez, pois como compreende bem o espanhol, e já conhece algumas palavras em português, quer tentar lê-lo. Ficou intrigada com o herói sem nenhum caráter!
Encontrei Laure Limongi pela terceira vez em S.Paulo, dentro da elegante livraria Martins Fontes, na Avenida Paulista. Dessa vez, participei de uma entrevista para o Portal Cronópios, juntamente com Edson Cruz & Pipol, com a tradução simultânea de Sonia Goldfeder que organizou o café literário do qual compartilhei também depois.
Laure Limongi nasceu em Bastia, na Córsega. Estudou piano durante 12 anos. Fez aulas de canto. Hoje compõe e canta com o grupo Molypop. Em breve, sairá o seu livro-CD RALBUM na coleção Laureli. Quando foi para a cidade de Marseille, conviveu com Jean-Marie Gleize e muitos outros. Depois, em Paris, freqüentou a Universidade da Sorbonne e escreveu sobre Denis Roche e Emmanuel Hocquard.
Denis Roche é um importante poeta que influenciou e ainda influencia muitos escritores. Ele se dedica à fotografia, tendo deixado de escrever poemas. Emmanuel Hocquard é um poeta que dá lugar à leitura e ao livro, afirmando que quem escreve tem “um ouvido no rumor do mundo e um ouvido no rumor dos livros” (Des Nuages et des Brouillards,1985).
Atualmente, Laure continua morando em Paris, e confidenciou a mim e a José Eduardo que os primeiros tempos nesta cidade foram duros. A escritora desenvolve um trabalho na editora Léo Scheer organizando coleções, e gosta do que faz. Escreve em seu blog ROUGELARSENROSE, principalmente crítica literária sobre os escritores e artistas contemporâneos, seus pares, assim como textos mais pessoais.


Confira o trecho inicial de texto lido por Laure Limongi, nos encontros no Rio e em São Paulo. A tradução feita por Solange Rebuzzi também foi lida nas ocasiões.

Le bleu de l’inflexion

Le genou est fléchi afin de disposer le corps à la verticale de la serrure.
Le corps porte la clef mais ne veut pas ouvrir, encore.
La main tient la clef en la caressant tandis que l’œil ne broie que du noir. Tandis que l’œil clair perce, sourcil contre métal glacé, fouille sans succès, l’œil à la limite de sa perception ne pourra s’en remettre qu’à l’action. Peut-être.
La main gauche est posée, à plat contre le bois de la porte qui est un bois lisse.
Le mur du couloir regarde la scène.
L’odeur savante des cheveux a séduit et bruisse du mouvement de la tête ne sachant trop si et quoi et que faire.
Avec un je-ne-sais-quoi de sauvage et perdu.
Avec un je-ne-sais-quoi de déjà mort.
La robe est froissée de toucher le sol, portant le poids du personnage léger au cœur lourd.
La robe crisse de la respiration haletante de la curiosité et de la peur.
Le mur du couloir en est ému.


O azul da inclinação

O joelho está flexionado a fim de dispor o corpo na vertical da fechadura.
O corpo carrega a chave mas não deseja abrir, ainda.
A mão contém a chave acariciando-a enquanto o olho se abandona à tristeza. Enquanto o olho claro perfura, a sobrancelha contra o metal gelado, examina sem sucesso, o olho no limite de sua percepção só poderá voltar à ação. Talvez.
A mão esquerda está posta aberta, contra a madeira da porta que é uma madeira lisa.
A parede do corredor olha a cena.
O cheiro conhecido dos cabelos seduziu e murmura com o movimento da cabeça sem saber muito se e o quê e que fazer.
Com um eu-não-sei-quê de selvagem e perdido.
Com um eu-não-sei-quê de já morto.
O vestido está amarrotado de tocar o solo, levando o peso da personagem leve de coração pesado.
O vestido chia da respiração ofegante da curiosidade e do medo.
A parede do corredor se emociona.


(Tradução: Solange Rebuzzi. Retirado da revista Action poètique. n.189, p. 73).
Rio de Janeiro, 24 de abril de 2008.








sexta-feira, 19 de março de 2010

Homenagem

Um pouco de Hélène Bessette
(a partir da Biographie de Julien Doussinault, ed. Léo Scheer)



A principal característica de estilo de Hélène Bessette consiste em romper o ritmo da frase poética e se conciliar não com a métrica, mas com a “beleza convulsiva”; a mesma afirmada por André Breton. É isto que o ritmo coloca especialmente em evidência com angústia, mas também com alguma incoerência, e que pode levar o leitor tanto ao riso quanto às lágrimas.
Na angústia, conforme está afirmada por Freud, é o afeto que está em questão. E no processo de escrita de Bessette, a angústia instalada em seus personagens se dá a ver nas crises de choro ou na explosão de desespero e, até mesmo, nas tentativas de suicídio. A escritora repete a mesma cena múltiplas vezes. Ela evoca da mesma forma as lembranças já vividas em séries que se repetem.
Mas, em alguns de seus romances os personagens adultos não se remetem ao passado – como no livro Suit Suisse – e nada da vida passada ou do infantil transparece na história, exceto pelas fontes referidas à obsessão escatológica. Traduzo livremente:

Assim meu quartinho poético fica vizinho aos walters. Perdão. Aos toaletes.
Nova teoria do Romance moderno: nunca colocar o ponto final em uma obra sem ter reservado um poema pequeno ou grande pouco importa (ao gosto do autor) nos walters. Perdão. Nos toaletes.


A angústia parece ficar escondida do leitor.
O fim, que nunca é afirmado e nem escrito em seus livros, está declarado na idéia presente em Lili pleure: “o verbo terminar existe assim como o verbo começar para as guerras e para o resto”.
Seus personagens podem até se dar conta de que viveram a história de um romance, mas também se apresentam ligados às angústias dos homens que conhecem de antemão que a vida irá, um dia, terminar.
Hélène escreveu os seus romances em versos. Os livros foram publicados na França pela editora Gallimard, nas décadas de 50 e 60, e deixaram de ser publicados em 1973. Agora, estão sendo reeditados pela editora Léo Scheer. Contam que, em seus últimos 27 anos de vida, ela circulou recitando versos de Aragon sem que ninguém se importasse, “ora lúcida, ora desesperada, diríamos que ela ri. Diríamos que ela chora.
Diríamos, de fato, que ela morre.”

Hélène Bessette


segunda-feira, 8 de março de 2010

De onde tal destino?


1.
Essa menina não esconde as lágrimas.
Essa menina não reclama.
O corpo da menina não geme.
A foto da menina de trancinhas
- laços vermelhos -
deixa ver a fome da menina.

Estamos longe das crianças da África?



2.
Carnaval na cidade do Rio de Janeiro.
Fantasias. Meninos e meninas alimentam as fantasias.
A menina perdeu um sapato na avenida.
A mulher deixou o leque sob a mesa do bar.

Serpentinas voam. Dançam no contraste do gesto. O casal amoroso não se solta. O ventre da mulher inchado. Saltita.
Um homem barbudo. Suado. Fotografa ângulos que ninguém vê.

O poema se apressa.
Incorpora as sobras:
o sol no fim da linha
em pedaços pontuados de cores.

A reconciliação de um instante
e uma tempestade no horizonte
chegam mais perto
(em mim permanece
o alvoroço do gesto de um moleque de rua).

sábado, 6 de março de 2010

Escritos em obra

13.
Acomoda-se de forma bem sutil a palavra.
A carne viva, na cor predileta de Matisse, mostra-se em dias alternados e perfura a vida da lembrança.
As sombras correm.
Escorrem por debaixo das veredas e das portas fechadas.

O rumor noturno chega para os insones e castiga mais as pernas que os braços. Instala-se como uma veste triste que não me deixa mentir. Invade os pensamentos e permanece fora da luz.