sexta-feira, 19 de março de 2010

Homenagem

Um pouco de Hélène Bessette
(a partir da Biographie de Julien Doussinault, ed. Léo Scheer)



A principal característica de estilo de Hélène Bessette consiste em romper o ritmo da frase poética e se conciliar não com a métrica, mas com a “beleza convulsiva”; a mesma afirmada por André Breton. É isto que o ritmo coloca especialmente em evidência com angústia, mas também com alguma incoerência, e que pode levar o leitor tanto ao riso quanto às lágrimas.
Na angústia, conforme está afirmada por Freud, é o afeto que está em questão. E no processo de escrita de Bessette, a angústia instalada em seus personagens se dá a ver nas crises de choro ou na explosão de desespero e, até mesmo, nas tentativas de suicídio. A escritora repete a mesma cena múltiplas vezes. Ela evoca da mesma forma as lembranças já vividas em séries que se repetem.
Mas, em alguns de seus romances os personagens adultos não se remetem ao passado – como no livro Suit Suisse – e nada da vida passada ou do infantil transparece na história, exceto pelas fontes referidas à obsessão escatológica. Traduzo livremente:

Assim meu quartinho poético fica vizinho aos walters. Perdão. Aos toaletes.
Nova teoria do Romance moderno: nunca colocar o ponto final em uma obra sem ter reservado um poema pequeno ou grande pouco importa (ao gosto do autor) nos walters. Perdão. Nos toaletes.


A angústia parece ficar escondida do leitor.
O fim, que nunca é afirmado e nem escrito em seus livros, está declarado na idéia presente em Lili pleure: “o verbo terminar existe assim como o verbo começar para as guerras e para o resto”.
Seus personagens podem até se dar conta de que viveram a história de um romance, mas também se apresentam ligados às angústias dos homens que conhecem de antemão que a vida irá, um dia, terminar.
Hélène escreveu os seus romances em versos. Os livros foram publicados na França pela editora Gallimard, nas décadas de 50 e 60, e deixaram de ser publicados em 1973. Agora, estão sendo reeditados pela editora Léo Scheer. Contam que, em seus últimos 27 anos de vida, ela circulou recitando versos de Aragon sem que ninguém se importasse, “ora lúcida, ora desesperada, diríamos que ela ri. Diríamos que ela chora.
Diríamos, de fato, que ela morre.”

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