segunda-feira, 29 de março de 2010

LAURE LIMONGI
O azul da inclinação

O joelho está flexionado a fim de dispor o corpo na vertical da fechadura.
O corpo carrega a chave mas não deseja abrir, ainda.
A mão contém a chave acariciando-a enquanto o olho se abandona à tristeza. Enquanto
o olho claro perfura, a sobrancelha contra o metal gelado, examina sem sucesso, o olho no limite de sua percepção só poderá voltar à ação. Talvez.
A mão esquerda está posta aberta, contra a madeira da porta que é uma madeira lisa.
A parede do corredor olha a cena.
O cheiro conhecido dos cabelos seduziu e murmura com o movimento da cabeça sem saber muito bem se e o quê fazer.
Com um não-sei-quê de selvagem e perdido.
Com um não-sei-quê de já morto.
O vestido está amarrotado de tocar o solo, levando o peso da personagem leve de coração pesado.
O vestido chia da respiração ofegante da curiosidade e do medo.
A parede do corredor se emociona.

Há carroças e móveis, bordados e espelhos.
Casas, sofás, criados, louça de ouro e de prata e de vermeil.
Ele me desejou, eu, entre todas, depois de muitas.
Eu sabia que era a boca do lobo. Lobo azul. E me lancei ali.
Eu sabia que era o medo azul do qual eu morreria. E me lancei ali.

Mas aquilo, só a parede do corredor escutou. Sua tapeçaria estremeceu. Uma corrente de ar de lembranças e motivos se desdobraram. Circundam as portas. Correm de portal em portal em busca da saída. Mas o conto não existe mais, pois o malvado morre e somente as mulheres se sucedem. Já que as mulheres morrem e somente os malvados se sucedem. Enquanto que as irmãs conquistam o horizonte com o olhar distraído.

Ela, vestida e penteada, se chama Heloisa ou Eleonora ou Isaura ou Rosalinda ou Branca ou Judite. Mas, a irmã se chama sempre Ana. A grama é verde. E a barba é sempre azul.


Tradução: Solange Rebuzzi.
Fragmento do poema retirado da revista Action poètique. n.189, p. 73


Le bleu de l’inflexion
Laure Limongi

Le genou est fléchi afin de disposer le corps à la verticale de la serrure.Le corps porte la clef mais ne veut pas ouvrir, encore.La main tient la clef en la caressant tandis que l’œil ne broie que du noir. Tandis que l’œil clair perce, sourcil contre métal glacé, fouille sans succès, l’œil à la limite de sa perception ne pourra s’en remettre qu’à l’action. Peut-être.La main gauche est posée, à plat contre le bois de la porte qui est un bois lisse.Le mur du couloir regarde la scène.L’odeur savante des cheveux a séduit et bruisse du mouvement de la tête ne sachant trop si et quoi et que faire.Avec un je-ne-sais-quoi de sauvage et perdu.Avec un je-ne-sais-quoi de déjà mort.La robe est froissée de toucher le sol, portant le poids du personnage léger au cœur lourd.La robe crisse de la respiration haletante de la curiosité et de la peur.Le mur du couloir en est ému.

Il a des carrosses et des meubles, des broderies et des miroirs.
Des maisons, des sofas, des serviteurs, de la vaisselle d’or et d’argent et de vermeil.
Il m’a voulue, moi, entre toutes, après plusieurs.
Je savais que c’était la gueule du loup. Loup bleu. Et je m’y suis jetée.
Je savais que c’était la peur bleue dont je mourrai. Et je m’y suis jetée.

Mais cela, seul le mur du couloir l’a entendu. Sa tapisserie en a tremblé. Un
courant d’air de souvenirs et les motifs se sont dédoublés. Ils entourent les
portes. Ils courent de chambranle en chambranle à la recherche de la sortie. Mais
le conte n’en a pas puisque le méchant meurt et que les femmes se succèdent. Puisque les femmes meurent et que les méchants se succèdent. Tandis que les soeurs
matent l’horizon d’un oeil distrait.

Elle, en robe et coiffure, elle s’appele Héloïse ou Éléonore ou Isaure ou Rosalinde ou Blanche ou Judith. Mais la soeur s’appele toujours Anne. L’herbe
est verte. Et la barbe est toujours bleue.

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