fotos de arquivo

quinta-feira, 25 de março de 2010

Laure Limongi Rio/São Paulo


Encontrei Laure Limongi pela primeira vez, dentro da Mediateca da Maison de France do Rio de Janeiro, um pouco antes do encontro Café Letrado – poesia & arte que coordeno ao lado de José Eduardo Barros.
Encontrei-a, pela segunda vez, para um café e um passeio no Instituto Moreira Salles. Desta vez, conversamos sobre muitas coisas deste momento crítico do mundo: violências nas cidades e periferias do Rio e de Paris, Excessos em tudo ao redor (de ruídos, de carros, de celulares – aliás, onde vamos colocá-los depois? –, de lixo, etc,.)
Nós duas descobrimos alguns detalhes nas imagens das fotos antigas de um Rio de Janeiro em preto e branco, a partir do olhar do fotógrafo Augusto Malta. Fotos que expostas revelam as influências francesas, que a cidade do Rio de Janeiro sofreu nos primeiros tempos de seu crescimento, no inicio do século XX. Rimos das mulheres, pequeninas, nas imagens das fotografias e, tão vestidas – com saias sobre saias – chapéus e babados. Acompanhadas de seus digníssimos Senhores trajados de paletós, coletes, polainas, chapéus e bengalas. Observamos com curiosidade o traçado das grandes avenidas, que nasciam pelas mãos dos operários.
No café desse Instituto de Arte, observamos o chão em tons vermelho vivo, e os espaços transpassados pela luz do final do dia. Tocamos em alguns livros na mini livraria. Laure Limongi olhou a edição dos belos Cadernos e os elogiou. Interessou-se por Hilda Hilst. Fiz questão de contar algumas cenas da história de Hilda, poeta exilada em sua própria chácara, Casa do Sol, nas proximidades de Campinas, São Paulo. Pediu-me que lhe contasse algo sobre a obra de Mário de Andrade. Discorri sobre as inúmeras correspondências com os escritores de seu tempo: Manuel Bandeira, Carlos Drummond de Andrade, o jovem Fernando Sabino, e tantos outros. Ela me disse que compraria um de seus livros, Macunaíma talvez, pois como compreende bem o espanhol, e já conhece algumas palavras em português, quer tentar lê-lo. Ficou intrigada com o herói sem nenhum caráter!
Encontrei Laure Limongi pela terceira vez em S.Paulo, dentro da elegante livraria Martins Fontes, na Avenida Paulista. Dessa vez, participei de uma entrevista para o Portal Cronópios, juntamente com Edson Cruz & Pipol, com a tradução simultânea de Sonia Goldfeder que organizou o café literário do qual compartilhei também depois.
Laure Limongi nasceu em Bastia, na Córsega. Estudou piano durante 12 anos. Fez aulas de canto. Hoje compõe e canta com o grupo Molypop. Em breve, sairá o seu livro-CD RALBUM na coleção Laureli. Quando foi para a cidade de Marseille, conviveu com Jean-Marie Gleize e muitos outros. Depois, em Paris, freqüentou a Universidade da Sorbonne e escreveu sobre Denis Roche e Emmanuel Hocquard.
Denis Roche é um importante poeta que influenciou e ainda influencia muitos escritores. Ele se dedica à fotografia, tendo deixado de escrever poemas. Emmanuel Hocquard é um poeta que dá lugar à leitura e ao livro, afirmando que quem escreve tem “um ouvido no rumor do mundo e um ouvido no rumor dos livros” (Des Nuages et des Brouillards,1985).
Atualmente, Laure continua morando em Paris, e confidenciou a mim e a José Eduardo que os primeiros tempos nesta cidade foram duros. A escritora desenvolve um trabalho na editora Léo Scheer organizando coleções, e gosta do que faz. Escreve em seu blog ROUGELARSENROSE, principalmente crítica literária sobre os escritores e artistas contemporâneos, seus pares, assim como textos mais pessoais.


Confira o trecho inicial de texto lido por Laure Limongi, nos encontros no Rio e em São Paulo. A tradução feita por Solange Rebuzzi também foi lida nas ocasiões.

Le bleu de l’inflexion

Le genou est fléchi afin de disposer le corps à la verticale de la serrure.
Le corps porte la clef mais ne veut pas ouvrir, encore.
La main tient la clef en la caressant tandis que l’œil ne broie que du noir. Tandis que l’œil clair perce, sourcil contre métal glacé, fouille sans succès, l’œil à la limite de sa perception ne pourra s’en remettre qu’à l’action. Peut-être.
La main gauche est posée, à plat contre le bois de la porte qui est un bois lisse.
Le mur du couloir regarde la scène.
L’odeur savante des cheveux a séduit et bruisse du mouvement de la tête ne sachant trop si et quoi et que faire.
Avec un je-ne-sais-quoi de sauvage et perdu.
Avec un je-ne-sais-quoi de déjà mort.
La robe est froissée de toucher le sol, portant le poids du personnage léger au cœur lourd.
La robe crisse de la respiration haletante de la curiosité et de la peur.
Le mur du couloir en est ému.


O azul da inclinação

O joelho está flexionado a fim de dispor o corpo na vertical da fechadura.
O corpo carrega a chave mas não deseja abrir, ainda.
A mão contém a chave acariciando-a enquanto o olho se abandona à tristeza. Enquanto o olho claro perfura, a sobrancelha contra o metal gelado, examina sem sucesso, o olho no limite de sua percepção só poderá voltar à ação. Talvez.
A mão esquerda está posta aberta, contra a madeira da porta que é uma madeira lisa.
A parede do corredor olha a cena.
O cheiro conhecido dos cabelos seduziu e murmura com o movimento da cabeça sem saber muito se e o quê e que fazer.
Com um eu-não-sei-quê de selvagem e perdido.
Com um eu-não-sei-quê de já morto.
O vestido está amarrotado de tocar o solo, levando o peso da personagem leve de coração pesado.
O vestido chia da respiração ofegante da curiosidade e do medo.
A parede do corredor se emociona.


(Tradução: Solange Rebuzzi. Retirado da revista Action poètique. n.189, p. 73).
Rio de Janeiro, 24 de abril de 2008.








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