quinta-feira, 24 de junho de 2010

Inverno no Rio de Janeiro

Estou quase dormindo? Não. Creio que não.
Mas quando você tiver a minha idade, caro(a) leitor(a), verá que o mundo está habitado de coisas estranhas. Felizmente, não só de coisas estranhas.
Devo dizer que se construo um monólogo neste dia que anuncia um inverno carioca, não estarei longe do frio que senti em alguns outros momentos de minha vida. Em Mauá, na década de oitenta, eu costumava andar pela casa carregando um saco de água quente, bem próximo ao corpo, para aquecer as minhas faltas.
Na década de sessenta, em seu final, eu morava em Washington e vivia perto do sonho americano, no qual confesso nunca ter conseguido entrar. O frio e a neve me acompanharam durante mais de três meses.
Costumo dizer que fiquei com o gosto gelado de um pisão que levei em N.Y, em uma avenida qualquer, pois, de fato, o meu dedão direito e a meia de lã ensanguentada refletiram um frio a menos 20 e os pés completamente adormecidos dentro de uma bota de couro negra.
O frio no Rio, hoje, pede mais que agasalhos. Pede meias, cachecol...

Estarei querendo dormir?
Não, não creio.
Ganhei de presente o livro A Viagem de Virginia Woolf. De imediato li que demorou nove anos até que este seu primeiro romance pudesse emergir. Não conheço a vida de Virgínia em detalhes, mas sei que ela reescreveu este livro sete vezes. E é impressionante a demora em publicá-lo.
A mesma espera e dor que fizeram com que a escritora francesa Hélène Bessette chegasse a trabalhar como empregada doméstica durante alguns anos. Ela viveu algum tempo na Suíça.
Na Suiça. Não romântica.
Na Suíça dos chocolates negros e das vacas e dos queijos.
Na Suíça do século XX.

Os livros seguram o calor das mãos. Guardam o calor de nossos corpos.
Não estou querendo dormir. Quero escrever.
Na França – em Lyon – senti um frio inesperado. Abril de 2005.
FRIO branco.
Vento. Pétalas-flor voando nas esquinas. Ruas cheias.
O poeta Jean-Marie Gleize usava um cachecol negro. Tomamos café.
Mais de uma vez tomamos café. Havia muitas vozes ao redor, mas recordo que almoçamos no restaurante da universidade uma comida natural que me esquentou por algumas horas. Havia grãos. Muitos grãos.
Hoje, sinto um frio que não é carioca!



Inverno de 2010.

domingo, 13 de junho de 2010

O idioma pedra de João Cabral

O poeta João Cabral de Melo Neto construiu, ao longo de sua obra, uma poética mineral. São versos, metrificados ou não, que contam muito da vida do Nordeste com seu povo e seus hábitos. A sua linguagem – aqui nomeada “idioma pedra”, alimentada na memória de uma infância vivida em meio às canas e às usinas de açúcar, em Recife, com a seca e a fome dando direção à mão que escreve – traduz um Brasil singular. Alguns de seus poemas como “Morte e Vida Severina”, considerado um Auto de Natal pernambucano, e “O Cão Sem Plumas” ou “O Rio”, empreendem uma viagem na escrita que nos levam a querer ler poesia brasileira, pois o aprendizado se dá com as narrativas de costumes e de geografias várias. Tal empreitada avança com as palavras de pedra, caroço, osso, faca, deserto, entre outras, para identificar na língua um “escrever em nordestino”. O poeta...(leia mais na página da editora Perspectiva)