segunda-feira, 26 de julho de 2010

Mais um poema inédito

A carta

(A carta acompanha a viagem, assim como as palavras passeiam em nossos ouvidos desde há muito definidos a partir das coisas ouvidas em meio aos ruídos.)


A carta enviada
na ausência de uma pessoa querida
tem a proporção da falta?

Onde a árvore dorme ao vento
as folhas escrevem
em verde raro (claro ou escuro)
no tronco duro e sólido.

Tem a proporção da falta,
uma carta?
Consegue dizer da ausência?

Uma mulher angustiada
:
a língua escreve a garganta quente
e procura dominar
rios e chuvas.
Mas, a palavra e seus ruídos
- e teclas e dedos duros –
satisfazem a silhueta de um dia
sem memória.

Qual a proporção de uma falta?
Vestida de pedra
ou inundada de águas claras
uma mulher caminha seus dias.
Uma vez mais...
A chuva.
A terra escorregadia da ladeira.
Algumas nuvens cobrem o céu.
E, de lado, voltada um pouco mais para frente
ela se mostra encoberta pelo dia que passará.
A carta
A mulher
Uma vez mais...
O vestido
A lã
A linha
O sangue
A nuvem
O papel
(dentro do envelope está vestido).

Rio, inverno de 2010.

quinta-feira, 22 de julho de 2010

Iberê Camargo e seus escritos

Iberê Camargo:
mínima nota sobre Gaveta dos guardados


Fotos em p/b abrem o livro e mostram o artista em obra.
Repentem-se as fotos. Repetem-se os gestos de Iberê:
Cigarro na mão esquerda. Palheta na mão direita.
(Nunca ao mesmo tempo).

Conversa e escrita. Escuta.
Transcrevo pedaços do texto:
“Entendo que a vida é uma caminhada. Os ciclistas de meus quadros são caminhantes, no fundo, sem meta. São seres desnorteados.” P.31

“Os motivos de meus quadros são visões do cotidiano, que transporto para o mundo das lembranças sob a inspiração da fantasia.” P.81

Um esboço autobiográfico conclui o impressionante livro, editado pela CosacNaify em 2009.
“A verdadeira pintura não é uma narrativa de fatos, mas o próprio fato.” P. 136.
“ Meus personagens são elementos de linguagem, cujo significado está no contexto da obra.” P. 137

sábado, 17 de julho de 2010

Visite a Fundação Iberê Camargo: http://www.iberecamargo.org.br

Se você gosta de acompanhar jornais, revistas e sites e quer saber o que tem sido publicado por eles sobre a Fundação Iberê Camargo, basta acessar a seção Matérias Publicadas, dentro da área de imprensa do site.

Lá, você pode ver reportagens nacionais e internacionais sobre a instituição, a sede, as exposições e as atividades que vem sendo realizadas nos últimos quatro anos. Além disso, é possível buscar por veículo, por data e por palavras-chave, caso você esteja procurando uma matéria ou um assunto específico.


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© Copyright Fundação Iberê Camargo AG2

sábado, 10 de julho de 2010

Homenagem

O neto de Sigmund Freud, Lucian Freud, é hoje reconhecido como um importante pintor que retrata "a carne" da vida em sua complexidade. No cenário de seu ateliê, em temas recorrentes, estão um sofá, uma cama de ferro, uma pia, seu cão, paredes manchadas de tinta... e corpos.
Lucian nasceu em Berlim em 1922, mas mudou-se para Londres em 1934 buscando, junto com sua família, escapar das perseguições nazistas.
Aos 88 anos é um pintor que retrata gordos ou magros, estranhos corpos, como se fossem carne em decomposição.

Lucian Freud, o pintor de nosso século



Lucien Freud um grande pintor de nosso tempo!

Expressou o real do corpo sem pudor, e a força
de seu traço radicaliza o sofrimento humano,
tanto quanto expõe as dobras da nossa existência.


terça-feira, 6 de julho de 2010

Livro das areias

14.
No Tarumã quase não havia praias.
O ‘Banho’ (como se costumava dizer) pertencia aos índios da tribo dos Tucanos, e ficava bastante afastado da cidade. Longe.
Era o passeio do final de semana nos dias de sol.


Quase sempre encoberto pelas águas cheias, o rio Tarumã dava nome ao local e era escuro como o rio Negro. Na beira, bem na beirinha, as areias brancas deixavam ver o fundo e a cor das águas clareava, deixando um tom amarelo surgir. Eu gostava de olhar os meus pés, ali, dentro das águas mornas desse rio-igarapé.

De maiô inteiro, minha mãe passeia de mãos atadas com meu irmão que ainda é muito pequeno. Foto em preto e branco.
Minha irmã e eu seguimos nosso pai. Às vezes, era preciso atravessar de canoa, e, outras vezes, resolvíamos nadar. Segurávamos o ombro de meu pai. Eu o segurava de leve, buscando boiar.
No outro lado do rio moravam os índios da família Laureano. Ou seja, eram todos da tribo dos Tucanos, e por ali habitavam já há alguns anos.
Os homens de uma cor avermelhada e marrom eram muito queimados do sol. As mulheres me pareciam amarelas, sempre um pouco sujas, da rotina diária. Em geral carregavam os filhos enrolados no corpo, na frente ou de lado.


Essa família, com muitos e fartos filhos, morava em uma maloca redonda que, de longe, parecia quadrada. Ainda sinto o cheiro da palha seca no telhado e da terra viva molhada nos pés, em dias de chuva de verão.
O chão batido segurava as estacas. Grossas. Elas fincavam a vida daquela família ao redor. Digo isso porque eles ali nasciam, pescavam, se banhavam, amavam e morriam. Não sei dizer se algum deles foi estudar por perto. Acho que sim. Foram nomeados como uma tribo civilizada. Dois dos filhos do Seu Laureano foram batizados por meus pais, recebendo nomes cristãos. Lembro-me bem da Maria. Mínima. E minha mãe dizia que eu também havia nascido do tamanho de uma caixa de sapatos.

sábado, 3 de julho de 2010

Acordei limpa da suavidade do sono. Sem personagens na cabeça, as primeiras horas do dia precisam ser respeitadas.
Gosto do vocabulário que estou encontrando ao traduzir. Não sei nada da "langue d'oc" (língua falada ao sul da França, língua òc, língua do "sim"), mas sei quantas vezes Molly Bloom disse sim para Leopold, no texto Ulisses de James Joyce.

O escritor irlandês James Joyce



                                           Joyce, que foi tão estudado por Lacan, está traduzido no Brasil por mais de um tradutor. Bernardina Silveira que o traduziu em Ulisses além de Um retrato do artista quando jovem, por exemplo, dedica a ele inúmeras homenagens com leituras em voz alta em ocasiões especiais. Declarou: "... os inventos do Joyce são transparentes e sempre lindamente sonoros, parecem palavras que já deveriam estar na língua há muito tempo"…