terça-feira, 6 de julho de 2010

Livro das areias

14.
No Tarumã quase não havia praias.
O ‘Banho’ (como se costumava dizer) pertencia aos índios da tribo dos Tucanos, e ficava bastante afastado da cidade. Longe.
Era o passeio do final de semana nos dias de sol.


Quase sempre encoberto pelas águas cheias, o rio Tarumã dava nome ao local e era escuro como o rio Negro. Na beira, bem na beirinha, as areias brancas deixavam ver o fundo e a cor das águas clareava, deixando um tom amarelo surgir. Eu gostava de olhar os meus pés, ali, dentro das águas mornas desse rio-igarapé.

De maiô inteiro, minha mãe passeia de mãos atadas com meu irmão que ainda é muito pequeno. Foto em preto e branco.
Minha irmã e eu seguimos nosso pai. Às vezes, era preciso atravessar de canoa, e, outras vezes, resolvíamos nadar. Segurávamos o ombro de meu pai. Eu o segurava de leve, buscando boiar.
No outro lado do rio moravam os índios da família Laureano. Ou seja, eram todos da tribo dos Tucanos, e por ali habitavam já há alguns anos.
Os homens de uma cor avermelhada e marrom eram muito queimados do sol. As mulheres me pareciam amarelas, sempre um pouco sujas, da rotina diária. Em geral carregavam os filhos enrolados no corpo, na frente ou de lado.


Essa família, com muitos e fartos filhos, morava em uma maloca redonda que, de longe, parecia quadrada. Ainda sinto o cheiro da palha seca no telhado e da terra viva molhada nos pés, em dias de chuva de verão.
O chão batido segurava as estacas. Grossas. Elas fincavam a vida daquela família ao redor. Digo isso porque eles ali nasciam, pescavam, se banhavam, amavam e morriam. Não sei dizer se algum deles foi estudar por perto. Acho que sim. Foram nomeados como uma tribo civilizada. Dois dos filhos do Seu Laureano foram batizados por meus pais, recebendo nomes cristãos. Lembro-me bem da Maria. Mínima. E minha mãe dizia que eu também havia nascido do tamanho de uma caixa de sapatos.

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