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sábado, 21 de agosto de 2010

Fragmento do livro do poeta Fourcade traduzido

Dominique Fourcade no livro Citizen Do, edições P.O.L. (2008).

Post-Scriptum

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Citizen Do não é um livro, digo, mas a reunião de textos, e só percebi que podia haver aí uma razão para reuni-los depois de tê-los escrito. As circunstâncias da vida (ou seria isso os encontros próprios à escrita? um texto chamou por outro?) me fizeram escrever, sucessivamente, sobre um primogênito que me foi muito caro, um primogênito ‘mal morto’ se fosse disso (“a marcha dos mortos mal mortos”) – depois, muito rápido em direção a uma neta, nós a imaginamos, facilmente, adoravel e vulneravelmente viva. Ao final, eu inundava em uma luz mosqueada. Dappled ligth. E não me foi preciso muito tempo para compreender que Char poderia ser lido como uma narrativa para Saskia, enquanto que Chansons et systèmes pour Saskia eram para escutar como canções para René Char. Mas sabemos bem que esta razão é factícia, e mesmo ardilosa, pois não se escreve sobre ninguém, e para ninguém – somente para si.

Há uma grande tempestade esta noite, uma eletricidade horrível está no ar, todo mundo necessita de proteção, o cachorro, a menina, o escritor, o povo, os mortos. Como proteção, a escrita não tem nenhum seguro. Mas embalar uns e outros, o cachorro inclusive, ela pode fazê-lo. (pgs. 16 e 17)

sexta-feira, 20 de agosto de 2010

Dominique Fourcade nasceu em Paris em 1938. É poeta e crítico de arte. Escreveu muitos livros de poesia. Com o primeiro deles, Épreuves du Pouvoir (1961), confirmou a certeza de querer viver da escrita, embora também gostasse muito de futebol e rugby. Mas com a publicação de Ciel pas d'angle (1983), considerado um trabalho importante, viu-se lançado no vazio, fora das formas conhecidas. Citizen Do (2008) é seu último livro publicado, e contém o prefácio para o catálogo da exposição do Centenário do poeta René Char, na Biblioteca nacional da França, e um conjunto de canções para Saskia, sua neta. Segundo o autor, algumas páginas do livro trazem o início de sua vida literária que convive com outros momentos de seu caminho.

O poeta Dominique Fourcade

domingo, 15 de agosto de 2010

Carta sem endereço (material inédito)



Escrevo aos mortos da família?

Um tio de olhos claros
avesso a largar o cigarro.
E foi tudo bem rápido no estilo
das escapadas que ele costumava dar
até a esquina para fumar escondido!
Fumava muito.
Um soldado foi morto no domingo
ao usar um explosivo
em um lugar onde muita gente passa todos os dias
no sul daquela cidade. Onde mesmo?

A minha avó cozinhava
em panelas separadas para cada filho
(em quatro fogões esquentava o amor).
Com biscoitos de nata, de cerveja ou nas broas de milho (pequeninas)
suspirava aos netos com os guardados no armário da sala
cheios de açúcar-cristal.

O jovem negro me olhou nos olhos enquanto
passava ao lado do carro.
A vida nem sempre é trágica.
Mas parece que as pessoas, cada vez mais, gostam de usar armas.
Nas linhas desta suposta carta
na falta da infância sem lugar
ainda tenho fome
de escrever cartas.
O correio continua chegando regularmente
e diferente de outros tempos
agora
escorrega em baixo da porta da sala
(o que não mais me é entregue em mãos).

No portrait alguns homens da família.
Alguns ainda gostam de assoviar.
E os que insistem em fazer a guerra são pessoas como nós (você me diria).

Fazer a guerra. Atirar de repente.
As pessoas ficam hostis. Civis ou não. Terroristas.
Somos todos muito semelhantes.
Eu vi na TV a mãe da mulher que usou um explosivo
acalentar a vingança da filha que vingava o marido morto.

Rio, 15 de agosto de 2010.

quarta-feira, 4 de agosto de 2010

Homenagem a meu avô, Augusto

Dois poemas de Augusto Estellita Lins

PEQUENAS COISAS

Pequenas coisas que tão pouco falam -
um gesto, o calor duma perfídia,
um tal perfume, aquele aí sufocado
e no que alcança ver, muita estranheza.

No vórtice do sonho, de repente
um vir à tona, lúcido, retoma
o fio da razão, logo mergulha
de novo o outro em mim, eu no vapor.

Falar de amor, só louco já varrido,
pobre coitado no desvão da vida
ou eu, manga bichada de quintal.

Calçada, a rua do amor tem, sarjeta,
redes de esgoto, encanamentos, postes:
num deles, uma lâmpada queimada.


NO BANCO DO JARDIM

No banco do jardim público - existia
um jardim. A velha tricotando. Lia o
jornal o aposentado. O bebê vagia
no carrinho azul. Onde um jardim havia

Hoje é garagem, mil carros o ocupam.
Tudo é poeira e óleo, nenhum bebê chupa
o dedo. O aposentado, olha-se na lupa do
tempo: no alazão, a noiva na garupa.

Ainda há feiticeiras em cada roca
fiando o fio da morte. Dá-me em troca
de uma gota d'água, pedalar minha broca
que corrói o fígado e um tango toca.

Viver é ficar. Não há morte na treva
que não se apaga. De mim nada me leva.


Augusto Emílio Estelita Lins
Dados Biográficos:

Nasceu no Recife, capital do Estado de Pernambuco, em 13/05/1892 , filho de Pedro Estellita Carneiro Lins e Francisca Sampaio Lins.
Primeiros estudos em casa com os pais. Estudos secundários: Ginásio Pernambucano (Recife) e Ginásio Santa Catarina (Florianópolis). Curso superior na Escola de Ciências Jurídicas e Sociais do Rio de Janeiro e na Faculdade Livre de Direito do Rio de Janeiro, formando-se em Direito em 1915.Transferiu-se para o Espírito Santo em 1916. Integrou o Tribunal Eleitoral do Espírito Santo de 1945 a 1952. Professor de Direito Constitucional e Administrativo na Faculdade de Direito do Espírito Santo. Membro do Instituto Histórico e Geográfico do Espírito Santo e da Academia Espírito-santense de Letras, onde ocupou a cadeira n. 13 , cujo patrono é José Marcelino Pereira Vasconcellos. Também é patrono da cadeira n. 37, da Academia Cachoeirense de Letras. Pertenceu à Associação de Juristas, à Associação Espírito-santense de Imprensa, à Arcádia Espírito-santense de que foi fundador e 1º presidente, ao Instituto Espírito-santense de História, Geografia e Arte Religiosa. Colaborador em diversos jornais e revistas do país, entre outros: O Dia e Almanaque Catarinense (Florianópolis) Jornal de Cantagalo e Diário Fluminense ( Rio de Janeiro) Gazeta do Triângulo ( Minas Gerais), Fon-fon, O Malho, Rio Ilustrado, Revista da Semana, Época, O Jornal do Brasil, Revista Acadêmica, A Luta, Terra Livre, no Rio de Janeiro, O Município, O Cachoeirano, de Cachoeiro de Itapemirim, Vida Capixaba, O Estado, Canaã, A Gazeta, em Vitória. Em sua homenagem, a Prefeitura Municipal de Vitória deu seu nome a uma rua do bairro Jardim de Camburí. Faleceu em Vitória, no Estado do Espírito Santo, em 30/12/1982