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domingo, 15 de agosto de 2010

Carta sem endereço (material inédito)



Escrevo aos mortos da família?

Um tio de olhos claros
avesso a largar o cigarro.
E foi tudo bem rápido no estilo
das escapadas que ele costumava dar
até a esquina para fumar escondido!
Fumava muito.
Um soldado foi morto no domingo
ao usar um explosivo
em um lugar onde muita gente passa todos os dias
no sul daquela cidade. Onde mesmo?

A minha avó cozinhava
em panelas separadas para cada filho
(em quatro fogões esquentava o amor).
Com biscoitos de nata, de cerveja ou nas broas de milho (pequeninas)
suspirava aos netos com os guardados no armário da sala
cheios de açúcar-cristal.

O jovem negro me olhou nos olhos enquanto
passava ao lado do carro.
A vida nem sempre é trágica.
Mas parece que as pessoas, cada vez mais, gostam de usar armas.
Nas linhas desta suposta carta
na falta da infância sem lugar
ainda tenho fome
de escrever cartas.
O correio continua chegando regularmente
e diferente de outros tempos
agora
escorrega em baixo da porta da sala
(o que não mais me é entregue em mãos).

No portrait alguns homens da família.
Alguns ainda gostam de assoviar.
E os que insistem em fazer a guerra são pessoas como nós (você me diria).

Fazer a guerra. Atirar de repente.
As pessoas ficam hostis. Civis ou não. Terroristas.
Somos todos muito semelhantes.
Eu vi na TV a mãe da mulher que usou um explosivo
acalentar a vingança da filha que vingava o marido morto.

Rio, 15 de agosto de 2010.

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