fotos de arquivo

sábado, 30 de outubro de 2010

Sábado em Arles

O dia amanhece diante de monumentos romanos.
Não assombra.
Recolho do livro Abecedaire des Arlesiens de Michéa  Jacobi, na letra "h" (hommes/ homens):
A praça do Forum se chamava praça dos Homens.
Nos dias de Marché/ Mercado (como hoje), os negócios acontecem na vertical. Na verdadeira posição da humanidade.

Chove. Chove muito e não há relâmpagos.
O vento sopra nos canais da arquitetura dos ouvidos.

O museu Réattu cobra 7 euros a entrada.
Os desenhos de Picasso colorem as brancas paredes.
O rio Rhône mexe os vidros do olhar.
Na sala do segundo andar repousa uma pintura de Antoine Raspal:
quatro mulheres sentadas costuram vestidos de cor
o fio e a agulha
seguram as mãos

ao lado:
dois longos vestidos drapeados e brancos
penduram a obra de Christian Lacroix.

De onde vem a luz?



Nota sobre as fotos abaixo:
1. porta da igreja Saint-Trophine da praça do Forum. (portal romano)
2. rua sem saída na ville de Arles.
3. detalhe de um fragmento romano.
4. fragmentos romanos do Theâtre Antique.

quarta-feira, 27 de outubro de 2010

Em 27 de outubro de 2010

Sentada no café  Aux Folies (XXème), com o jornal diante dos olhos:
entre o momento parisiense com as reinvindicações sociais em curso e
as eleições presidenciais no Brasil do próximo domingo
constato que a economia "come" a vida dos homens.

Há, neste momento, um estado de insatisfação geral.
Aqui, em cartazes irônicos, os jovens perguntam à Carla Bruni-Sarkozy
"como é beijar um homem no poder"?
A frase carregada de ingenuidade também trabalha no desmonte da imagem presidencial francesa.
Sarkozy é Poder. Sarkozy quer Poder.

A economia "come' tudo.
A França me parece dividida.
As votações no Senado constatam a divisão.

Vivemos um momento de mundo dividido.



Nota
Fotos abaixo mostram:
1.Pequena manifestação em frente ao Pantheon
2.O céu de outono na Île de Saint-Louis.
3.Cena de rua (ao lado da Catedral de Notre-Dame)
4.Entrada do Museu do Louvre (poucos turistas)

domingo, 17 de outubro de 2010

quinta-feira, 14 de outubro de 2010

João Cabral, a letra e o silêncio

Consideremos, hoje, o poema “Os Três Mal Amados” que vai nos servir de suporte na reflexão de algumas questões. Mais precisamente a questão da letra, e do “impossível” que aqui se enlaça com a questão do amor: o amor como impossível.


O poema que foi escrito, em 1943, glosando estrofe de Carlos Drummond de Andrade no poema “Quadrilha”: “João amava Teresa que amava Raimundo que amava Maria que amava Joaquim que amava Lili...” se apresenta em três vozes distintas em um certo monólogo sobre o amor, ou melhor com as trinta e três falas poéticas que, em movimentos de aproximação e recuo, confirmam a impossibilidade da relação – ou, a ‘não relação sexual’.

Quanto à técnica, encontramos a simultaneidade e a repetição dos versos cabralinos, na forma como ele gosta e costuma desdobrar a linguagem descritiva na sua lógica de composição. Revelando que a repetição se faz cada vez de forma nova, e que os “mesmos sintagmas dispostos em ordens diferentes” podem extrair informações novas no texto.

O poema de João Cabral serve de base para vários tipos de figuração da amada: “Maria era uma praia que eu freqüentava certas manhãs”, ou uma árvore, um jornal, um livro e até uma folha em branco, pois os muitos pedaços de planos se movem, e os versos enunciativos ligam termos, montam e desmontam a lógica da repetição com desdobramentos e cortes inesperados.

Os movimentos, portanto, (de repetição e recuo) no trabalho realizado nestes versos em prosa, suavizam um poeta racional e subordinado ao concreto, porque podemos lê-lo inclusive como “poeta da negação do vazio, da rasura”. Maria Andresen de Souza Tavares no texto “João Cabral de Melo Neto: da fome das coisas que nas facas se sente ou serventia de idéias fixas” defende que esta poesia trabalha e contorna as palavras, e é uma poesia que se concentra nas palavras como objeto de trabalho; daí que o objeto do trabalho (a “coisa”) ora pode aparecer apenas e emergir da palavra trabalhada, ora pode aparecer e “ter-se perdido deixando no seu lugar vazio esse trabalho sem fim”. Na escrita cabralina, as coisas com as suas estranhezas são mostradas por sucessivos ângulos em “construção elíptica ou oblíqua” .
O poema “Os Três Mal Amados” – inserido em Serial – se mostra obedecendo a uma série de “quadros” que convidam ao olhar. Um olhar crítico que o poeta orienta por “um fazer lúcido”, embora aqui, inclusive, ele exercite dizer “determinadas coisas de certo modo a outrem, isto é, na linguagem como fala.”

Ouçamos:
“João:
Posso dizer dessa moça ao meu lado que é a mesma Teresa que durante todo o dia de hoje, por efeito do gás do sonho, senti pegada a mim?”
Ainda com João:
“Donde me veio a idéia de que Teresa talvez participe de um universo privado, fechado em minha lembrança?"

No caso específico deste poema, a experiência dos personagens se dá “sobre um quase nada”, sublinha Luiz Costa Lima no texto “João Cabral: poeta crítico”. O pequeno livro realiza a “absoluta prosificação dos personagens,” em cujas vozes ouvimos inúmeras perguntas sem respostas.
“O amor, intransitivo, limita-se em Joaquim a corroê-lo”, e segue devorando tudo. Lembramos que a pergunta de Agatão, no Banquete de Platão, pode ser rememorada: “o amor é amor de alguma coisa ou de nada?” Esta pergunta, segundo Lacan, se faz no plano da interrogação do significante. No entanto, ele nos esclarece que “o amor é amor com relação a alguma coisa”. Em Raimundo, onde Maria é também a página em branco, percebemos que a interrogação que transita nos versos parece afastar qualquer possibilidade conclusiva (o que nos orienta a pensar no apagamento de verdades afirmativas). Quando se trata do amor, Platão já nos ensinou que isso escapa ao saber! No entanto, se resta algo a concluir, resta como resto mesmo. Diríamos que por encontrar-se na ordem da exceção, pois é um dos únicos poemas que não obedecem às formas fixas, “Os Três Mal Amados” passeia sua ignorância sobre as coisas do amor e desdobra, nos três personagens, um apagamento do “eu” lírico apresentando-nos o “ele” desdobrável, múltiplo, nas vozes masculinas de João, Joaquim e Raimundo:
“Joaquim:
O amor comeu na estante todos os meus livros de poesia. Comeu em meus livros de prosa as citações em versos. Comeu no dicionário as palavras que poderiam se juntar em versos.”

O poeta sustenta, nestes versos, a questão do amor – do amor como impossível. Isso que Lacan nomeou com a expressão: “amar é dar o que não se tem”. E permanece, portanto, na zona de um “não saber”, onde devemos permanecer para falar do amor. 

A escrita cabralina, neste texto, abre nas palavras de Raimundo - em Maria - uma mulher desejada ao extremo. E a faz deslizar qual um significante, ao longo do texto poético, por diferentes lugares até chegar ao livro, lugar de susto e silêncio:
“Raimundo:
Maria era também um livro: susto de que estamos certos, susto que praticar, com que fazer os exercícios que nos permitirão entender a voz de uma cadeira, de uma cômoda; susto cuidadosamente oculto, como qualquer animal venenoso,”

ela é ainda parte do aprendizado com a letra, na qual pode estar oculto também o “veneno”, enquanto phármakon, diríamos com Platão; remédio ou veneno, no duplo sentido.

Teresa, com quem o personagem João diz: “ainda me parece sentir o mar do sonho que inundou meu quarto”, convive entre sonhos, desejos e lembranças. Maria e Teresa são mulheres que podem ser contadas uma a uma, e nos levam por trilhas habitadas no caminho de procura do amor; que pergunta e nada responde.

Tendo aprendido a resistência da cabra, e o silêncio que “imóvel fala”, João Cabral exercita em seus versos o que Adorno nomeou de “linguagem situada abaixo do mais desamparado dos homens”, pois linguagem muda, linguagem de morto. Linguagem que toca o silêncio como uma pedra de espera – esperando - e parecendo reconhecer no seu escrito os traços que se movem “na dolorosa atitude de luta contra o hábito”: uma luta aguda e continuada.

O poeta João Cabral compõe neste poema em prosa um texto insatisfeito. Em entrevista a Marta Peixoto ele teria dito que o valor artístico deste poema não o satisfez completamente.

Considerado poeta-crítico, João Cabral reflete sobre a linguagem poética, e deseja o ato poético reduzido a ato intransitivo mesmo. À maneira de Miró que não pinta quadros, pois “Miró pinta”, Cabral, escreve! Desta forma experimenta, em gesto solitário, a letra e o silêncio!
Diferente de poeta-editor, poeta-engenheiro, como costuma ser nomeado, ou poeta-das-coisas, João Cabral, simplesmente poeta, assina uma obra que constrói ao longo de uma vida, como se o seu objeto fosse algo em suspensão, a ser feito um a um, no esforço continuado do trabalho com a letra.

O poeta pernambucano João Cabral de Melo Neto

terça-feira, 12 de outubro de 2010

Biografia de Ana Hatherly

Poeta, romancista, ensaísta e tradutora, Ana Hatherly iniciou a carreira literária em 1958.
Tendo sido um dos principais elementos do grupo de Poesia Experimental nos anos 60 e 70, o seu trabalho está representado nas mais importantes Antologias e Histórias da Literatura Contemporânea de Portugal, Brasil, Espanha, Inglaterra, Alemanha, Estados Unidos, Dinamarca, Suécia, Holanda, e República Checa.
É também autora de várias traduções para português de obras inglesas, francesas, italianas e espanholas.
Durante as últimas duas décadas, tem-se dedicado ao estudo da literatura portuguesa e espanhola do "Siglo d'Oro", tendo publicado vários ensaios e comunicações sobre o tema em várias das mais conceituadas publicações literárias de Portugal e do estrangeiro.
Licenciada pela Universidade de Lisboa e Doutorada em Literaturas Hispânicas pela Universidade de Berkeley (U.S.A.), é actualmente Professora Catedrática de Literatura Portuguesa na Universidade Nova de Lisboa e Presidente do Instituto de Estudos Portugueses da mesma Universidade. É ainda membro da Direcção do PEN Club, de que já foi Presidente.
Referenciada, a nível poético, como um dos nomes mais importantes das vanguardas portuguesas da segunda metade do século, a sua poesia reúne fortes tendências barroquizantes e visuais que a têm já levado a um apagamento de fronteiras entre expressão poética e intervenção plástica. É esse o caso, por exemplo, de Mapas da Imaginação e da Memória (1973), bem como das várias exposições que incluem desenho, pintura e colagem, realizadas em galerias e centros de exposições, como o Centro de Arte Moderna da Fundação Calouste Gulbenkian, Museu do Chiado e Fundação da Casa de Serralves, para além das participações na Bienal de Veneza e Bienal de S. Paulo (Brasil).

fonte: Ministério da Cultura e Instituto Português do Livro e da Leitura

Do livro Um calculador de improbabilidades

o poema é
                   para ver-se
                           ler-se
                           (às vezes ouvir-se)


mas
sobretudo
                  advinhar-se

o poeta é
                 uma sombra
                 um perfil
                 um desaparecimento

mas
sobretudo

    a despedida mão feita poema

A poeta portuguesa Ana Hatherly

terça-feira, 5 de outubro de 2010

Fragmento amoroso

(Eles não eram um só. Nunca pretenderam ser.)




Na horizontal e fora do crepúsculo

Ela inventou um homem belo

e simples também.




- Queres?

- Algo?


O que sobe de teus lábios nunca consigo alcançar...

Estás sentado longe

e em teus pés vejo mistério.

Algo liricamente anotado

em meu olhar se acende a cada vez que chegas perto.



Estás guardado

e na dimensão da música que escutas

nasce pelas paredes da casa

um tom que conhece o mar, o rio e as plantas dos jardins

por onde também circulam os segredos mais antigos.

(Uma textura na pele, uma ranhura e um laço que não é feito apenas ao acaso).



Havia nesta dimensão do amor

um registro suave e denso.

Havia e ainda há um agradecimento.

segunda-feira, 4 de outubro de 2010

Fragmento

O olhar
... e o mar guardaram das ondas o movimento. Talvez, até mesmo um mistério. Aqui, ali. Por onde elas marchavam ou se enrolavam com a areia, as ondas que nunca desfaleciam, apagavam-se na praia.


O rapaz pegou a carta, e rasgou o envelope no qual a carta havia chegado. Não mostrava sequer um vinco no rosto sério.


Ela aguardava alguma palavra. Esperou em vão. Em meio ao vento que dobrava a pele do papel, ela leu quase tudo ou pensou ler.



O mar – metade vento – respingou azul e regurgitou algo do branco sem remorso.

O homem, agora de costas, baixou os olhos. Um resto de papel pardo ainda permanecia ali. Imóvel.