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quinta-feira, 14 de outubro de 2010

João Cabral, a letra e o silêncio

Consideremos, hoje, o poema “Os Três Mal Amados” que vai nos servir de suporte na reflexão de algumas questões. Mais precisamente a questão da letra, e do “impossível” que aqui se enlaça com a questão do amor: o amor como impossível.


O poema que foi escrito, em 1943, glosando estrofe de Carlos Drummond de Andrade no poema “Quadrilha”: “João amava Teresa que amava Raimundo que amava Maria que amava Joaquim que amava Lili...” se apresenta em três vozes distintas em um certo monólogo sobre o amor, ou melhor com as trinta e três falas poéticas que, em movimentos de aproximação e recuo, confirmam a impossibilidade da relação – ou, a ‘não relação sexual’.

Quanto à técnica, encontramos a simultaneidade e a repetição dos versos cabralinos, na forma como ele gosta e costuma desdobrar a linguagem descritiva na sua lógica de composição. Revelando que a repetição se faz cada vez de forma nova, e que os “mesmos sintagmas dispostos em ordens diferentes” podem extrair informações novas no texto.

O poema de João Cabral serve de base para vários tipos de figuração da amada: “Maria era uma praia que eu freqüentava certas manhãs”, ou uma árvore, um jornal, um livro e até uma folha em branco, pois os muitos pedaços de planos se movem, e os versos enunciativos ligam termos, montam e desmontam a lógica da repetição com desdobramentos e cortes inesperados.

Os movimentos, portanto, (de repetição e recuo) no trabalho realizado nestes versos em prosa, suavizam um poeta racional e subordinado ao concreto, porque podemos lê-lo inclusive como “poeta da negação do vazio, da rasura”. Maria Andresen de Souza Tavares no texto “João Cabral de Melo Neto: da fome das coisas que nas facas se sente ou serventia de idéias fixas” defende que esta poesia trabalha e contorna as palavras, e é uma poesia que se concentra nas palavras como objeto de trabalho; daí que o objeto do trabalho (a “coisa”) ora pode aparecer apenas e emergir da palavra trabalhada, ora pode aparecer e “ter-se perdido deixando no seu lugar vazio esse trabalho sem fim”. Na escrita cabralina, as coisas com as suas estranhezas são mostradas por sucessivos ângulos em “construção elíptica ou oblíqua” .
O poema “Os Três Mal Amados” – inserido em Serial – se mostra obedecendo a uma série de “quadros” que convidam ao olhar. Um olhar crítico que o poeta orienta por “um fazer lúcido”, embora aqui, inclusive, ele exercite dizer “determinadas coisas de certo modo a outrem, isto é, na linguagem como fala.”

Ouçamos:
“João:
Posso dizer dessa moça ao meu lado que é a mesma Teresa que durante todo o dia de hoje, por efeito do gás do sonho, senti pegada a mim?”
Ainda com João:
“Donde me veio a idéia de que Teresa talvez participe de um universo privado, fechado em minha lembrança?"

No caso específico deste poema, a experiência dos personagens se dá “sobre um quase nada”, sublinha Luiz Costa Lima no texto “João Cabral: poeta crítico”. O pequeno livro realiza a “absoluta prosificação dos personagens,” em cujas vozes ouvimos inúmeras perguntas sem respostas.
“O amor, intransitivo, limita-se em Joaquim a corroê-lo”, e segue devorando tudo. Lembramos que a pergunta de Agatão, no Banquete de Platão, pode ser rememorada: “o amor é amor de alguma coisa ou de nada?” Esta pergunta, segundo Lacan, se faz no plano da interrogação do significante. No entanto, ele nos esclarece que “o amor é amor com relação a alguma coisa”. Em Raimundo, onde Maria é também a página em branco, percebemos que a interrogação que transita nos versos parece afastar qualquer possibilidade conclusiva (o que nos orienta a pensar no apagamento de verdades afirmativas). Quando se trata do amor, Platão já nos ensinou que isso escapa ao saber! No entanto, se resta algo a concluir, resta como resto mesmo. Diríamos que por encontrar-se na ordem da exceção, pois é um dos únicos poemas que não obedecem às formas fixas, “Os Três Mal Amados” passeia sua ignorância sobre as coisas do amor e desdobra, nos três personagens, um apagamento do “eu” lírico apresentando-nos o “ele” desdobrável, múltiplo, nas vozes masculinas de João, Joaquim e Raimundo:
“Joaquim:
O amor comeu na estante todos os meus livros de poesia. Comeu em meus livros de prosa as citações em versos. Comeu no dicionário as palavras que poderiam se juntar em versos.”

O poeta sustenta, nestes versos, a questão do amor – do amor como impossível. Isso que Lacan nomeou com a expressão: “amar é dar o que não se tem”. E permanece, portanto, na zona de um “não saber”, onde devemos permanecer para falar do amor. 

A escrita cabralina, neste texto, abre nas palavras de Raimundo - em Maria - uma mulher desejada ao extremo. E a faz deslizar qual um significante, ao longo do texto poético, por diferentes lugares até chegar ao livro, lugar de susto e silêncio:
“Raimundo:
Maria era também um livro: susto de que estamos certos, susto que praticar, com que fazer os exercícios que nos permitirão entender a voz de uma cadeira, de uma cômoda; susto cuidadosamente oculto, como qualquer animal venenoso,”

ela é ainda parte do aprendizado com a letra, na qual pode estar oculto também o “veneno”, enquanto phármakon, diríamos com Platão; remédio ou veneno, no duplo sentido.

Teresa, com quem o personagem João diz: “ainda me parece sentir o mar do sonho que inundou meu quarto”, convive entre sonhos, desejos e lembranças. Maria e Teresa são mulheres que podem ser contadas uma a uma, e nos levam por trilhas habitadas no caminho de procura do amor; que pergunta e nada responde.

Tendo aprendido a resistência da cabra, e o silêncio que “imóvel fala”, João Cabral exercita em seus versos o que Adorno nomeou de “linguagem situada abaixo do mais desamparado dos homens”, pois linguagem muda, linguagem de morto. Linguagem que toca o silêncio como uma pedra de espera – esperando - e parecendo reconhecer no seu escrito os traços que se movem “na dolorosa atitude de luta contra o hábito”: uma luta aguda e continuada.

O poeta João Cabral compõe neste poema em prosa um texto insatisfeito. Em entrevista a Marta Peixoto ele teria dito que o valor artístico deste poema não o satisfez completamente.

Considerado poeta-crítico, João Cabral reflete sobre a linguagem poética, e deseja o ato poético reduzido a ato intransitivo mesmo. À maneira de Miró que não pinta quadros, pois “Miró pinta”, Cabral, escreve! Desta forma experimenta, em gesto solitário, a letra e o silêncio!
Diferente de poeta-editor, poeta-engenheiro, como costuma ser nomeado, ou poeta-das-coisas, João Cabral, simplesmente poeta, assina uma obra que constrói ao longo de uma vida, como se o seu objeto fosse algo em suspensão, a ser feito um a um, no esforço continuado do trabalho com a letra.

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