sexta-feira, 26 de novembro de 2010

Matisse em sua mesa de trabalho (foto de Henri Cartier Bresson no livro: MATISSE. Escritos e reflexões sobre arte.)

                                                       Maravilhoso livro, inteiramente ilustrado  
                                                       com as pinturas, os desenhos e algumas fotos 
                                                       do pintor em cenas de intimidade!

Henri Matisse (Colagem escrita)

Walter Benjamin, leitor de Freud

(Seminário de Literatura e psicanálise na Escola Letra Freudiana em 19.04.2010)



                                                  O historiador deve assumir a tarefa
                                                             da interpretação dos sonhos.

                                                                           Walter Benjamin



Retomemos, hoje, algumas afirmações de Walter Benjamin.

Benjamin percebia que havia em funcionamento uma consciência em estado flutuante e sempre fragmentada, como se funcionasse entre o estado de vigília e o sonho.

Cada época, conforme ele acreditava, deveria ser percebida e estar em “sincronia” com os momentos da história. Porém, um dado acontecimento do passado só consegue ser legível no a posteriori quando, enfim, a humanidade esfregando os olhos percebe a imagem onírica como tal.

É, portanto, com o movimento de despertar do sonho, revirando os acontecimentos – como se fosse uma tentativa de sair do sonho – que Benjamin acreditava fazer a tarefa do historiador do século, como se estivesse interpretando sonhos.

O texto de Benjamin em seus estudos críticos é reconhecido como tendo um olhar voltado ao passado e, ao mesmo tempo, atento ao presente. É o presente que vai lhe interessar sobremaneira.

(...)



Hoje, vou retomar um importante sonho de Benjamin relatado em carta a Gretel Adorno, esposa de Theodor Adorno, em 12 de outubro de 1939. Este sonho nos interessa de diversas formas. Vamos tomá-lo em camadas, ou melhor, primeiro a partir da leitura de Derrida e, depois, com um significante destacado.

Em junho de 2008, aqui na Escola, eu já trouxe este sonho por considerar que ele é um marco e que nos ajuda, também, a perceber questões literárias. A fala de Benjamin, enquanto leitor do livro dos Sonhos de Freud, é uma bela contribuição à Psicanálise.

Benjamin escreveu à Gretel: “O sonho é o elemento mais acolhedor ao luto, à assombração, à espectralidade de todos os espíritos e ao retorno dos fantasmas.”

Vejamos que o aspecto temido nos sonhos está, aqui, destacado; o não saber, o assombrado, o que parece vir de outro mundo. O que podemos considerar como sendo da ordem do inconsciente – temido e desconhecido.

Benjamin se dirige à Gretel afirmando:

“Tive esta noite, deitado sobre a palha, um sonho de uma tal beleza que não resisto ao desejo de lhe contar (...)

É um sonho como os que eu tinha aos cinco anos e que são tecidos ao redor do tema “ler”.

O sonho de Benjamin, na leitura de Derrida, é um sonho em Francês, portanto, um relato feito em língua estrangeira (já que ele escrevia sempre em alemão).

Relembro que Derrida estava, neste momento, falando sobre “a possibilidade do impossível” ao receber o prêmio Adorno que, conforme sabemos, é um prêmio entregue a filósofos, escritores e homens do pensamento que no momento da premiação (como de praxe) fazem o discurso ao outro, nesse caso a Adorno.

Vou ler uma parte do discurso de Derrida: “Eu sonho. Eu sonambulei. Creio ter sonhado, para dar a entender a vocês a dimensão da minha gratidão diante do imenso privilégio” (...) etc,.

(Aqui foi feita a leitura do texto de Derrida com a tradução inédita efetuada por Claudia de Moraes Rego.)

Mais adiante, ele reitera que seu discurso vai dar lugar ao sonho de Benjamin, e que vai trabalhar com os “restos” deste sonho.

Comento com vocês agora, que nestas várias possibilidades que o sonho dá, enquanto narrativa, podemos ainda aprender algo sobre os sonhos: os sonhos escritos, os sonhos dos escritores.

Talvez, eles não só traduzam o desejo do sonhador, mas, também, consigam dar ao leitor uma experiência de leitura singular.

O sentido do sonho não é o que vai, prioritariamente nos importar. Mas, perceber que a letra – a “cifra”, pode também ensinar a ler. Essa redução que Lacan aproximou do número ( que também é letra cifrada) contém um mínimo pontual.

No caso de Benjamin, seria algo da marca? Seria algo de seu nome próprio como nos diz Derrida em sua leitura?

Seria a grafia, o desenho da letra, a caligrafia infantil, os primeiros momentos da mão de uma criança ao aprender as letras que também estavam sendo revividos por Benjamin neste sonho (para ele tão prazeroso)?

Para nós, seus leitores hoje, podemos recolher as riquezas de um sonho e a certeza de que ao escolher partilhá-lo com uma mulher, ele fez o seu endereçamento. Digo: escolheu escrever o relato de um sonho com mulheres, écharpes, letras, para uma mulher.

Um atravessamento da falta? Da falha? Da fenda?

Com a escrita em movimento, recolhemos para o nosso seminário algo singular neste sonho; a experiência de Benjamin com a falta.



Nota ou comentário final ainda no seminário:

Se eu fosse escolher algum significante marcado por Derrida neste discurso, escolheria: “fichu”, enquanto adjetivo; ferrado, fodido. Pois, Benjamin, um judeu, durante a guerra, com pouca chance de sobreviver, escolheu dizer isso em francês.

O sentido mais antigo da palavra carrega o mais grosseiro (conforme o dito/transcrito acima).

A écharpe/ fichu , enquanto substantivo, também tem o sentido de roupa de pontas, uma veste que cobre o corpo da mulher.

Benjamin disse no final desta carta: “je suis fichu”/ “eu estou ferrado”.

Com a psicanálise podemos pensar o deslizamento do significante. E, a importância de um sonho quando ele pode ser lido e/ou ouvido.



(Transcrição parcial de um seminário de Literatura e psicanálise)



***

Notas sobre as fotos abaixo:

1. Jovens ao sol, em foto feita na saída do Museu Pompidou.
2. Detalhe recolhido no bairro do Xème arrondissement.
3. Place des Voges, originalmente conhecida como Place Royale.
4. Parc Montsouris (exercícios na neve).
5. Bicicletas geladas no Vème arrondissement.
6. O lago do Parc Montsouris, ao sul de Paris.

domingo, 21 de novembro de 2010

quinta-feira, 18 de novembro de 2010

Quarto em Arles. Pinturas a óleo de Van Gogh . 1888 e 1889.


                                                  Dois momentos da mesma pintura de Van Gogh 
                                                  bastante conhecidos e analisados pelos críticos 
                                                  de arte (o segundo é o mais apreciado, e foi 
                                                  pintado na fase de seus delírios paranoicos).


Vincent van Gogh chegou em Arles, no Sul de França, no dia 21 de fevereiro de 1888. A cidade era um local que o impressionava pelas paisagens e onde esperava fundar uma colônia de artistas.
Com objetivo de decorar a sua casa em Arles (conhecida como A Casa Amarela, retratada em uma de suas obras), Van Gogh pintou a série de quadros comgirassóis, dos quais um se tornaria numa de suas obras mais conhecidas. Dos artistas que deixara em Paris, apenas Gauguin respondeu ao convite feito para se instalar em Arles. O Vinhedo Vermelho, único quadro vendido durante a sua vida, foi pintado nesta altura. Ele o vendeu por 400 francos. (este material acima foi retirado do Wikipédia)
ARLES, cidade do sul da França




Em outubro de 2010, a pequena Arles é povoada de folhas de outono.

Poucos, muito poucos turistas.

Frio e vento e algumas chuvas bem fortes.

A editora Actes Sud ocupa um belo espaço junto ao rio Rhône.

As pedras grandes, pequenas e mínimas dizem do homem e do trabalho dos homens. Operários refazem as ruínas romanas do Théâtre Antique. O chão guarda as ranhuras e os fragmentos deixados ao largo; cinzas do tempo.

Algumas mulheres tricotam roupas de bebê. Outras abrem janelas e portas de seus ateliês deixando ver as mãos que torcem ou pintam o barro.

Na feira, estirada do outro lado do rio, correm as distintas línguas pronunciadas em tom mais baixo. Não há alvoroço. Mesmo a ovelha, que serve de refúgio a um cidadão desempregado, não bale.

Van Gogh habitou por ali. Pintou, caminhou, comeu, dormiu. Sofreu.

Em 1888, pintou a tela que nomeou: Quarto em Arles.

O quarto da “casa amarela”, onde ele viveu nesta época, foi pintado mais de uma vez.

Posteriormente, a residência na qual Van Gogh dormiu e trabalhou tanto foi gravemente danificada por um bombardeio, em 25 de junho de 1944. E, depois, a casa foi demolida.

O que resta de uma demolição ?

O pó? Cascalhos ao vento?

(na superfície das pedras e do rio...

um resto)!





Rio de Janeiro, 18 de novembro de 2010.

sábado, 13 de novembro de 2010

La mémoire et la main de Edmond Jabès (Fata Morgana, 1987)

                                                         "Morremos de nossas próprias mãos."  

segunda-feira, 8 de novembro de 2010

Texto inédito.

A “língua das bombas”




Hölderlin afirmou o “reviramento” do tempo e, assim, também afirmou “o tempo como reviramento”. Encontro, nesta afirmativa, uma razão para escrever e pensar algumas questões de nossa época.

Revirar é virar outra vez ou várias vezes. Remexer, revolver. Alterar, mudar o caminho estabelecido. E o “reviramento” comporta um movimento de mudança. Mudança profunda de uma situação ou de um estado de coisas.

De início, podemos constatar que a série de Catástrofes com as quais nos deparamos todos os dias parece se montar como uma estrutura. Diremos ainda que na estrutura de Catástrofe nenhum luto é possível. Se eu for admitir que seja preciso traduzir e ler a catástrofe e não apenas mostrá-la em noticiários televisivos ou em linhas jornalísticas, rapidamente escritas ou filmadas, diria, também, que é preciso buscar dizer este impossível a dizer. E não deixar calá-lo.

Retomar a psicanálise com Freud para pensar as questões do luto e o tempo que demarca a dor, e/ou retomar Hannah Arendt e refletir sobre o que nos resta após o horror de cada guerra? Grandes Guerras e pequeninas atrocidades diárias, introduzidas em nossas vidas, deixam ao homem um trabalho de luto a ser vivenciado.

A humanidade do homem precisa ser preservada neste cenário irascível. E é necessário resistir ainda que na contramão do que está sendo minuto a minuto devorado nas raízes de nossa língua materna. Ou seja, no que se perde a cada instante, nestas cenas que aceitam o horror e o padrão das catástrofes. Mas vamos nos limitar a constatar o que perdemos e na maneira como estamos lidando com tudo isso.

*



Na nomeada “língua das bombas”, ou das guerras ligeiras, e dos despedaçamentos de corpos encontramos uma carga ininterrupta de assassinatos atrozes.

Estamos vivendo dentro de um quadro muitas vezes perverso e tomado pelos excessos e horrores que nos colocam, enquanto cidadãos, como espectadores (em geral sujeitos que trabalham muito e têm pouco tempo para pensar). A atividade intelectual parece anestesiada, pois nenhum esforço é desejável. O melhor parece ser apertar um botão e se deixar levar pela imagem.

Neste estado de impotência, uma “impotência do ridículo” segundo o poeta francês Bernard Noël no texto “De l’impuissance?”, sofremos. Vivemos em uma espécie de impossibilidade e inércia.

Falarei neste texto, portanto, na língua morta; na língua perdida dos poetas.



1.

A língua dos poetas

é uma língua morta?



Mas o que está morto aí

é o que vive dentro de cada um de nós.



Recupero os gregos no canto da Ilíada (canto 23):

Aquiles, que era teimoso, queria vingar o amigo morto entregando o corpo do assassino aos cães. Mas os deuses interferiram. Os deuses se deram conta de que o luto não podia ser vivido na vingança, no excesso.

É preciso espaço para chorar os nossos mortos. E é preciso intervalo.



Escrevo:



“Língua das bombas” sem língua alguma

(apenas ruídos surdos...)

Em breve

falaremos como os mortos



Em qual língua falarás?



2.

Hannah, aquela que viveu na Guerra o despedaçamento de um Tempo, nasceu na Alemanha em 1906 em uma família judia e intelectualizada. Estudou em Berlim e refugiou-se mais adiante nos EUA, onde foi professora em Nova York. Leu Kant precocemente, aos 16 anos, e estudou latim e grego. Estudou também teologia, e escreveu poemas aos 17 anos que só ficaram conhecidos muito tempo depois.

A forma de pensar arendtiana desdobrada de seus estudos universitários e de suas relações de amizades, inclusive com Walter Benjamin, em leituras e discussões, dá ênfase “à efetividade da ação não violenta e ao poder visto não como força, mas sim como um recurso que deriva da criatividade da ação conjunta de homens livres.” (Celso Lafer, aluno de Arendt, em: Homens em tempos sombrios, p. 244.)

Retomemos estes princípios para pensar a vida!

Retomemos no olhar e no gesto.

Mãos de calos duros podem guardar mãos quentes. Podemos restituir a força antiga dos gestos que cuidam. Retomar a direção preferida. Cuidar dos homens, das crianças. Ensinar a ler, contar histórias. Rir.

Diariamente, inventada e reinventada, a nossa rotina precisa de cuidados.

Retomemos algum princípio humanitário: leituras, literatura. Um gesto. Um olhar.



Na língua das bombas

Nada.

Na língua materna

O eixo.

Na língua dos poetas

O princípio.