fotos de arquivo

quinta-feira, 30 de dezembro de 2010

Bourdelle et l'érotisme grec. 100 épigrammes grecques. Paris: Les édition du temps, 1976.

Desenhos de Antoine Bourdelle feitos em 1919.
" A arte antiga purificava, divinizava a beleza humana". Michel Dufet

terça-feira, 28 de dezembro de 2010

Rodin et la couleur


   
"Notre oeil est comme notre âme/ il saisit toutes les nuances". Rodin (Extrait de la transcription manuscrite, en 1913, d'un cahier de Rodin.). Nota retirada do livro Rodin et la couleur. Musée de l'Annonciade. Éditions Snoeck, 2010.

Ainda inédito

1.


Em ângulo reto, o corpo?

De quem?

Nos desenhos de Rodin as formas são redondas, suaves, embaçadas.



As de Matisse - alcançadas em sessões longas e cansativas diante de modelos que, às vezes, parecem tristes - são permeadas de dobras e bordados. Bordados russos.


(Mas um corpo em ângulo reto mais parece o fruto de um desenho animado.)


Na sala ao lado, as vozes e os risos contam da gente que trafega em passos rápidos pelas ruas de onde partem os sons que entram pelas janelas altas contando as horas.

Está quente, bem quente. E úmido.

Alguns tomam água. Outros preferem o vinho. Há algumas passas secas e castanhas em vasilhas abertas. O cheiro das frutas secas anuncia que a comida será servida, mais tarde, na mesa longa de madeira da sala principal.

sábado, 25 de dezembro de 2010

Gradiva (Outros fragmentos)

3.


Contemplo o céu verão nas noites de lua e vejo com as retinas abertas a obscuridade de toda uma época.

As constelações tão nítidas quanto distantes passam diante de mim. Não consigo contar as estrelas. O presente brilho caminha aos poucos levando junto os sonhos.




5.


Quando eu me pergunto se o tecido de algodão antigo pesava mais que o nosso, de uso diário, não encontro dúvida na resposta para um grande sim. As mulheres envoltas em panos, na Grécia antiga,

mantinham com o chão uma proximidade tão natural como hoje assistimos na nudez em destaque. E o corpo carregava em dobras o pouco que se expunha nas muitas pontas do algodão. Em geral de cor clara, mas insisto que as cores areia e laranja também apareciam com alguma frequência assim como os tons de azul e verde.


Sobre o azul e o verde das paredes desbotadas pelo vento e pelas águas, nesta frequência, entre o espaço e o tempo, percorro lenta as pupilas.

Há e ainda haverá, por algum tempo, os sulcos com as marcas dos dedos que pintaram as paredes de Pompéia. Um pequeno retoque aqui, um arranhão mais forte do outro lado e bem perto daquela grande porta em arco.

São os homens em seus traços que retornam com seus hábitos e manias.





(Naquela Pompéia de quase 80 anos d.C. havia muita festa e muita música. A brisa soprava quente.)

domingo, 19 de dezembro de 2010

Lendo a poeta portuguesa Ana Hatherly

video Leitura na revista hispano-portuguesa Espacio /  Espaço Escrito. Badajoz, 2005/2006.

video

sábado, 18 de dezembro de 2010

Dados biográficos

René Char nasceu sete anos antes da Primeira Guerra Mundial, e morreu um pouco antes da queda do muro de Berlim. Dizem que teve uma juventude agitada e se uniu ao grupo dos surrealistas em 1929. Ficou amigo de Paul Éluard e Picasso mas se afastou do surrealismo aos poucos. Foi poeta, ensaista e crítico de arte. Em 1941 entrou na clandestinidade, e se ligou a Resistência armada da França depois de ter lutado na Alsácia. Participou da Resistência quando a maior parte das pessoas se abatia. Acreditava-se invencível:

"Ah! eu te peço que acredite que os que ficam sob os meus cuidados não estão ameaçados (paraquedistas e espiões) e estarão menos ainda nos próximos dias." (P.25 de René Char)

Ele lutou como um leão, e com a "Liberação" renunciou a uma vida política. Publicou: Seuls demeurent (1945) e Le Poème pulvérisé (1947). Tornou-se amigo de Albert Camus, George Braque, e Nicolas de Staël. Sua obra foi traduzida em mais de trinta línguas. Acreditava que o poema era uma obra imortal que  "passaria à posteridade".
Em 1978 deixou Paris e foi viver próximo a Isle-sur-la Sorgue onde morreu em 1988.

René Char traduzido por Augusto Contador Borges

DE RELANCE                                               ENTRAPERÇUE


Semeio de meus dedos,                                 Je sème de mes mains.
Planto com os rins;                                        Je plante avec mes reins;
A chuva fina é muda.                                     Muette est la pluie fine.

Numa senda estreita,                                     Dans un sentier étroit
Escrevo meu segredo.                                   J'écris ma confidence.
Meia-noite só há uma.                                   N'est pas minuit qui veut.

 O eco é meu vizinho,                                    L'écho est mon voisin,
 A bruma minha seqüência.                            La brume est ma suivante.


                                                                     Chants de la Balandrane, 1977.

René Char. (1907-1988)


                                                                           Les yeux seuls
                                                                           sont encore capables
                                                                           de pousser un cri.
                                        





                        Feuillets d'Hypnos. Oeuvres complètes. Paris: Gallimard, 1983.

sexta-feira, 17 de dezembro de 2010

René Char. "Le Trousseau de Moulin Premier." (publicado com a autorização da Biblioteca Jacques Doucet)


Album unique, qui mêle cartes postales anciennes de L'Isle-sur-Sórgue et poèmes, ce Trousseau de Moulin Premier confectionné par René Char en 1937 porte les traces d'événements extérieurs et intimes. (...) Offert par René Char en juin 1937 à Greta Knutson, ce Trousseau de Moulin Premier augure de leur passion, révélée dans le poème lyrique et impétueux " Le Visage nuptial", qui paraîtra en décembre 1938. (Marie-Claude Char, juillet 2009)

quinta-feira, 16 de dezembro de 2010

Inédito

A Gradiva de Jensen, retomada por Freud, seduzirá também André Breton, Salvador Dali, Roland Barthes e outros.



Ela caminha pelas areias, entre as pedras da cidade.


Parece estar distante, mas os olhar fixa um jovem homem do outro lado da calçada. Os corpos se aproximam sem pressa. Não há ninguém por perto, apenas um cachorro dorme encostado na pedra logo na saída do grande teatro do outro lado da rua.

Se pudéssemos descrever alguma coisa mais, seria o barulho da água que corre mas que não está visível.

Os corpos agora se tocam rapidamente.


Freud e Rodin colecionaram fragmentos da antiguidade persa, egípcia e grega com grande paixão. Freud em Viena e Rodin em Paris. Todos dois começaram suas coleções em 1890.
O fragmento da antiguidade nos fala uma língua a ser decodificada. Ele traz o arcaico em traços, sinais, impressões. Rodin parece preferir as formas da natureza. E Freud observa os fragmentos, como o de Gradiva, que carregam na imagem algo do arcaico da humanidade

segunda-feira, 13 de dezembro de 2010

A Gradiva (do latim: "aquela que avança")

Texto inédito.

2.


A personagem pode ser uma jovem mulher que caminha seu passo, qual a Gradiva, fantaisie pompeïenne de Wilhelm Jensen, a jovem que caminhava em Pompéia em 79 d.C.

Não havia tempo de pensar no corpo. Havia o corpo. Havia tempo.

Meus pés, agora um pouco distanciados do chão, procuram outro ângulo.

Deslizo na cadeira com as mãos, já mais cansadas dessas teclas, que pedem tempo.



Os pés de Gradiva não se cansam.


Ela desliza suas vestes pelas ruas de Pompéia. Está descalça. Os dedos da mão esquerda são visíveis de unhas cortadas. A perna esquerda dá o tamanho do passo, um pouco apressado, no movimento que mostra um corpo de mulher.



A moda da época diz algo do comportamento das mulheres. Os cabelos também estão cobertos no algodão grosso que percorre o corpo todo.

O corpo, um corpo leve que avança antes da erupção do vulcão.

sexta-feira, 10 de dezembro de 2010

Transcrição de minha coluna "Nas dobras da língua", em 2007, no site Cronópios.

12/6/2007 18:13:00


Janela e chão

                       Por Solange Rebuzzi


1.
Uma janela –
de longe não consigo vê-la direito –
uma certa luz enviesada a-
vança e corre entre a madeira azul e o mar


Tenho a visão do vidro fosco
um clarinete procura a voz do
concerto de Mozart
(bem tênue o movimento das notas)


No olhar
uma paisagem néon
acende no chão o fogo da arma
A luz apaga o último
dom da noite
(não vejo mais nada
... silêncio)


2.
A cama ou o leito de um verde limão escorre quente nas costas com a roupa que estivera dependurada no varal durante o vento da manhã. Uma rapidez pouco usual confunde luzes e texturas. À esquerda, na cômoda alta, um copo de água respira após um gole sorvido no cansaço. A mão sem peso nem densidade esquece o corpo


3.
e a cidade começava seus ruídos na madrugada do Leblon. É muito tarde ou ainda não?
Na rua passa um caminhão de lixo. A sombra dos olhos protege o preto e o branco dos restos, na distância sem cheiro e sem horizonte.

A solidão é nua? e a página em branco diante da linha negra?


4.
Rio de Janeiro, 2 de junho de 2007.
No JB (Caderno Cidade p. A13) li em negrito:
“Muito pior que em Israel”

quarta-feira, 8 de dezembro de 2010

Anotações (fragmento inédito)

"São João da Cruz diz que é preciso achar a noite escura - como potência do não - ver as trevas, e olhar a noite.
A poesia é isso."

Palavras de Giorgio Agamben em 07.02.2005 na Sorbonne.

Diamantina: céu e cores (Sete fotografias de José Eduardo Barros)





quarta-feira, 1 de dezembro de 2010

Transcrição de um pedaço de uma carta de Matisse enviada a Pierre Bonnard, 7 de novembro de 1940.

"Ainda bem que o trabalho está lhe correndo bem. Quanto a mim, não consigo terminar, recomeço incessantemente. Terminei uma figura adormecida iniciada em janeiro há um ano, após quarenta sessões, e estou com uma natureza-morta que não está terminada e já conta com umas trinta sessões, e desde meu retorno a Nice trabalho diariamente. É verdade que nossa preocupação constante prejudica o trabalho inconsciente que normalmente nos ocupa quando não estamos diante do cavalete. Mas uma vez, é preciso esperar."

O sonho (1940)

"O pintor escolhe sua cor na intensidade e profundidade que lhe convém, assim como o músico escolhe o timbre e a intensidade de seus instrumentos. A cor não comanda o desenho, ela se harmoniza com ele." Comentário de Matisse, recolhido em livro por Maria Luz. XXe Siècle, publicado em jan. de 1952.