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segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011

Benedito Nunes morre em Belém do Pará

crítico e filósofo Benedito Nunes, autor de "Clave do Poético", vencedor do prêmio Machado de Assis 2010
Nascido em Belém em 21 de novembro de 1929, Benedito José Viana da Costa Nunes foi um dos fundadores da Faculdade de Filosofia do Pará, posteriormente incorporada à Faculdade Federal do Pará.

Por "A Clave do Poético", Nunes recebeu o prêmio Jabuti na categoria crítica literária, em 2010. No mesmo ano, ganhou o prêmio Machado de Assis da Academia Brasileira de Letras, pelo conjunto da obra.
Em 1989, publicou "O Drama da Linguagem - Uma Leitura de Clarice Lispector", um ensaio literário sobre a escritora.

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Muito obrigada pela importãncia e generosidade de sua obra!

Cidade de Arles no sul da França em alguns cliks





domingo, 27 de fevereiro de 2011

Moacyr Scliar faleceu em Porto Alegre - R.S.




Nascido em Porto Alegre e formado em medicina, o escritor e colunista da Folha publicou mais de 70 livros entre diversos gêneros literários: romance, crônica, conto, literatura infantil e ensaio.

Sua obra tem forte influência da literatura fantástica e da tradição judaica.
Integrante da Academia Brasileira de Letras desde 2003, Scliar já recebeu prêmios Jabuti, uma das mais prestigiadas premiações literárias do país, em 1988, 1993, 2000 e 2009.
Entre suas obras mais importantes destacam-se os livros 'A Guerra no Bom Fim', 'O Centauro no Jardim', 'O Exército de um Homem Só' e 'Max e os Felinos'.



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"Acredito, sim, em inspiração, não como uma coisa que vem de fora, que "baixa" no escritor, mas simplesmente como o resultado de uma peculiar introspecção que permite ao escritor acessar histórias que já se encontram em embrião no seu próprio inconsciente e que costumam aparecer sob outras formas — o sonho, por exemplo. Mas só inspiração não é suficiente".

sexta-feira, 25 de fevereiro de 2011

Frans Krajcberg (publicado no Portal Cronópios em 11/09/2005 em minha coluna "Nas dobras da língua")

                         Comment faire crier une sculpture comme une voix?
                                                                                     Krajcberg




Inspirado pelas formas atormentadas das árvores e dos animais ressequidos, tantas vezes observadas no detalhe das florestas queimadas, Krajcberg sustenta a força de uma estética singular.

Quando em 1980 ele começou a esculpir com as madeiras queimadas encontradas e recolhidas na floresta amazônica, atingiu o ponto principal de sua obra. O trabalho, desde então, supõe um desdobramento de gestos.

As criações das cores a partir de pigmentos recolhidos da terra, das pedras coloridas e do manganês no Pico do Itabirito em Minas Gerais, perto de Cata Branca (muito rico em minerais de ferro), são fundamentais em seu trabalho, tanto quanto as madeiras que ele reaproveita após as queimadas na Amazônia e na Bahia, e os elementos naturais retirados dos mangues.

Sobre sua história, conta-se que de 1958 até meados da década de sessenta, ele circulou com freqüência no quartier de Montparnasse. Um bairro de Paris que abrigou inúmeros artistas durante o século XX, e que foi um quartier escolhido por muitos para viver e trabalhar. Os trabalhos de Krajcberg, desta época, são impressões en rochers, e telas de terras e de pedras.

Entre os artistas que por lá transitaram também estão Pablo Picasso, Marc Chagall e Alberto Giacometti. Antes ainda, o escultor Antoine Bourdelle e Ossip Zadkine. O pintor Modigliani com suas histórias de alcoolismo escandalizou o bairro. O escritor surrealista André Breton, Gertrud Stein e Ezra Pound também viveram por lá. Além de muitos outros escritores (alguns com passagens meteóricas como é o caso do russo Maiakovski e da bailarina Izadora Duncan). Montparnasse conta um pouco da história dos homens que viveram e trabalharam em Paris, desde o início do século vinte.

Na vila de número 21, na avenue du Maine, encontramos hoje o Espace Krajcberg. Lá estão os trabalhos deste artista em uma mostra definitiva. São obras que apresentam parte do seu percurso. Soubemos que L´Espace Krajcberg também pretende ser um local para estudo e consulta de livros de arte. E ainda um lugar de reflexão sobre questões da arte e do meio ambiente.


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Krajcberg tomou conhecimento que perdera toda sua família nos campos de concentração nazistas, depois da Segunda Grande Guerra. Apesar de possuir amigos na França, e de ter adotado Paris como sua cidade cultural, ele decidiu partir rumo ao Brasil, terra ensolarada, onde desejava desenvolver sua arte e reconstruir-se em um outro tempo: une seconde vie.

Mas, foi no ateliê desta pequena vila da avenue du Maine, que ele iniciou o desdobramento de sua obra. Lá plantou sementes de criação e linguagens originais. Dividiu-se, então, trabalhando entre o Brasil e a França, construindo aos poucos uma obra-manifesto com cores, formas e texturas da floresta.

Podemos imaginá-lo nesta época circulando – em silêncio – entre as folhagens e flores que na primavera quase escondem a entrada do Chemin de Montparnasse. A caixa de correspondência mantém seu nome inscrito. E as histórias são contadas boca a boca: “Ele morava bem ali, aquela porta era sua casa, durante os anos 60. Era ali que trabalhava. Às vezes, ainda circula por aqui”.

Alguém já disse que a natureza é seu colorido ateliê. Definitivamente, as paredes não o contém. Viajando o Brasil, desde Minas Gerais até o Amazonas, atravessando rios e matas, respirando o cheiro da chuva, passando por Nova Viçosa na Bahia, onde hoje reside, ele recolhe materiais e idéias para futuros trabalhos. Sejam eles com fotografias, filmes, esculturas, pinturas ou obras gráficas.

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Durante o verão de 2005 são inúmeras as esculturas-árvores Krajcberg espalhadas no Parque de Bagatelle em Paris. Eu contei vinte e sete esculturas na alameda principal, e quatro instalações de muitos troncos colocadas sobre a grama, próximas ao Trianon, no Bois de Bologne.

Árvores-asas, árvores-raízes. Produtos das queimadas e absorvidas na arte, que as transforma em peças singulares. Na linguagem que passa por este trabalho, um grito agudo ou grave - como num texto literário - abre caminho.


árvores retorcidas negras rubras
raízes invertidas
ninhos de pássaros supostos
casas de marimbondos vazias
colméias de abelhas imaginárias

as mãos de Krajcberg
t r a n s p o r t a m
árvores - almas
destituídas pelas queimadas
árvores - poemas
portadoras de um grito
de estranheza

Nas árvores-poemas de Frans Krajcberg o nosso olhar repousa sem destino. A força do real confere à sua obra um lugar único, en abîme, a maneira do poeta Francis Ponge que trabalhou com as coisas e os objetos do mundo vegetal fazendo-os falar. São diálogos interrompidos com a natureza muda e suas raízes. Eu diria que são conversas infinitas, pois que se apresentam em forma de fragmento, sem começo nem fim específico. Buscando nas raízes “o mundo mudo” o lugar do homem se encontra como “ser abandonado”.

Os trabalhos das árvores-raízes de Krajcberg, suas esculturas, estão impregnados de poesia. Parecem dizer ao homem do homem. E sobre a urgência de vida, neste espaço negro das queimadas de nossa Floresta Amazônica, principalmente.

Impossível não se sentir tocado diante da força de tal gesto de criação. Um senhor de 84 anos – de origem polonesa – habitante de nossa terra por escolha (naturalizado brasileiro em 1957), faz com a responsabilidade de sua obra, dia a dia, um gesto pela vida. Ou melhor, como ele mesmo nos diz: um GRITO!




    Parc de Bagatelle (fotos de José Eduardo Barros, 2005)




domingo, 20 de fevereiro de 2011

FORA BERLUSCONI

Com o direito de herança que meu nome carrega, junto a minha voz a de outras tantas Mulheres na Itália:

Fora Berlusconi!
Fora Berlusconi!
FORA!!!

sábado, 19 de fevereiro de 2011

Inédito

Um corpo que cai





Rio de Janeiro:

Calor escaldante.

Um corpo. Muitos.

Areias.

Em todo verão a graça e a harmonia ocupam um lugar

De coisa bem preciosa.


A polícia cai.

Rigorosas amputações.

Necessárias.

As favelas mudam ?



Cairo:

Inverno. Cobertores na Praça Tahrir.

Muitos corpos. Força.

Camelos. Espadas.

A política cai.



Tunis:

Jovens para todos os lados.

Celulares a bordo.

O que de fato cai a partir das imagens

Impostas ao mundo pelos jovens da Tunísia ?



Paris:

Repercutiram muito mal

as férias da Madame das Relações Exteriores.

M. Sarkô finge que não vê.

Cairá?

Cairão?



Amazonas:

Quantas árvores caem a cada minuto do dia?

No verde ininterrupto

Somam-se as horas

Das cheias dos rios do Amazonas

Diminuídas das temporadas de pesca.






                                                      Rio de Janeiro, 17/02/2011.


                            Foto feita por Rafael Caldas em 2009 na maior cheia do Amazonas. (Hotel Tropical.)

domingo, 13 de fevereiro de 2011

SONG OF THE STRANGER - Edmond Jabès

I'm looking for
a man I don't know,
who's never been more myself
than since I started to look for him.
Does he have my eyes, my hands
and all those thoughts like
flotsam of time?
Season of a thousand wrecks,
the sea no longer a sea,
but an icy watery grave.
Yet farther on, who knows how it goes on?
A little girl sings backwards
and nightly reigns over trees
a shepherdess among her sheep.
Let us wrench thirst from the grain
of salt no drink can quench.
Along with the stones,
a whole world eats its hearts out, being
from nowhere, like me.



From the Book to the Book. University Press of New England. Hanover, 1991.
Do livro francês Je batis ma demeure em tradução feita pela poeta alemã, naturalizada norte-americana, Rosmarie Waldrop.

sábado, 12 de fevereiro de 2011

Homenagem ao povo do Egito: Edmond Jabès

TERRENO VAGO...



Terreno vago, página obsedada.



Uma morada é uma longa insônia

No caminho encapuzado das minas.



Os meus dias são dias de raízes,

São jugo de amor celebrado.



O céu está sempre por atravessar e

O terraço por nutrir de noites novas.



De meu vagar o luto forma

Enclave no clarão opaco das paredes.



A terra embebe-se em

Vãs visões de viagem.



(tradução: Mário Laranjeira)

sexta-feira, 4 de fevereiro de 2011

Poema novo

Une manifestante anti-Moubarak AFP


As pedras do Egito




Da cidade do Cairo ouvi os tiros dos fuzis.

Vi os rostos ensanguentados envolvidos

Em algodão. E os rostos sorridentes

Em um mar assustador.

As pedras das calçadas transfiguradas

De um colorido humano nasceu a força.

Suados na esperança o povo pede mais

Days of liberty and
Justice for all.



Homens e mulheres buscam a "utopia realista"?

E na fé consentem que seja a hora.



Sofridos os rostos expostos na praça

Não desistem.

As pedras das calçadas transfiguradas.







(Escrito em 04.02.2011, no final da manhã.)

Jacques Courcil - La Traite, poème d'Edouard Glissant


Homenagem ao poeta Edouard Glissant que faleceu ontem