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quarta-feira, 30 de março de 2011

Tradução de poemas (p/ espanhol)

                                                      para Raduan Nassar


la mano que yo
agarraba

no tenía verbo
no tenía alma
era un pájaro
muerto

se sostenía en el
milagro
de un cuerpo sumergido
en el sueño.

                                                           (De meu livro Pó de borboleta, 2003)


Germinación

Al principio, el rasgo.
Chorrea fuerza el agua
en lo verde
que brota.

Cuánto dura la permanencia?

                                                              (Do livro Canto de sombras, 1997)

terça-feira, 29 de março de 2011

Do livro "Pó de borboleta" (ed.7Letras, 2002)

Mulheres na janela

Em Tiradentes as horas do dia
suplicam uma prece
No entardecer mulheres se penteiam
em cores na janela

No alvorecer água quente na chaleira
e cheiro de café,
a hora de dormir é marcada no bordado
que se fecha ao colo

D. Antonia suspira seus longos cabelos brancos
ao pente que a filha não se cansa de puxar
Em fios uma história se lança
no aberto da janela
aberta todo dia
em pedaços

Ontem os cabelos de D. Antonia voaram
até as mãos de seu neto Pedro na calçada
e respiraram um cheiro
de meninice

Em Tiradentes as horas do dia
suplicam uma prece!

sábado, 26 de março de 2011

Barroco mineiro (Diamantina, Congonhas, Tiradentes, São João Del Rey)












Escrevo em 19 de agosto de 2014:
Quando o barroco grita suas cores e formas nos céus mineiros
ouvimos os sinos repicarem as luzes.
Imagine um anjo:
em Ouro Preto existem alguns na igreja Nossa Senhora do Carmo.
No século XVII, no Brasil, alguns anjos foram pintados com os cabelos encaracolados
e o olhar nem sempre infantil. 

quarta-feira, 23 de março de 2011

Lembranças de Lisboa

Calçadas de Lisboa




Pelas calçadas de Lisboa anda a língua portuguesa.

Do lado do mar – distinto de nosso mar – o ruído é manso.

A música das vozes planeja sua altura, e os bondes favorecem a visão de

dentro e de fora das almas que as janelas abrem ao dia.

Caminhar pelas ruas da cidade velha e encontrar refúgios: livrarias, cafés,

casas de pães e de doces. Igrejas velhas de histórias.



Olhar o desenho de um povo escrito nas escadas e nas pedras. Cidade

alta, cidade de homens navegadores.

Cidade ALTA, plena de ruídos

na língua familiar que me anima e consome.

Através de fotografias retorno aos dias de inverno no início de 2009.

No flash: três mulheres caminham...

Os passos distintos

calçadas estreitas

em branco e preto.

Na foto colorida

um tom vermelho

arrasta o olhar

pelos cantos portugueses

da cor que

agora me observa.

domingo, 20 de março de 2011

Poema de Herberto Helder

Eugénio de Andrade

O sal da língua

Escuta, escuta: tenho ainda
uma coisa a dizer.
Não é importante, eu sei, não vai
salvar o mundo, não mudará
a vida de ninguém - mas quem
é hoje capaz de salvar o mundo
ou apenas mudar o sentido
da vida de alguém?
Escuta-me, não te demoro.
É coisa pouca, como a chuvinha
que vem vindo devagar.
São três, quatro palavras, pouco
mais. Palavras que te quero confiar.
Para que não se extinga o seu lume,
o seu lume breve.
Palavras que muito amei,
que talvez ame ainda.
Elas são a casa, o sal da língua.

sexta-feira, 18 de março de 2011

LISBOA em detalhes (inverno de 2009)


        "As casas vieram de noite
         De manhã são casas
        À noite estendem os braços para o alto
        fumegam vão partir"

                
                                                                                                                                                                 
        Luiza Neto Jorge, poema "As casas", 4 versos da Primeira parte.
Livro 19 recantos e outros poemas. Organização de Jorge Fernandes da Silveira e Mauricio Matos.



         "Uma fenda na paisagem faz
             supor que a paisagem estalou
 e que por detrás dela
       há ainda outra paisagem."

Vasco Graça Moura. "Poemas com pessoas" in Poesia 1997- 2000.





quarta-feira, 16 de março de 2011

Depois da tragédia no Japão

Antes e depois de Fukushima






Eu vi na nuvem radioativa do Japão

a ganância de toda a humanidade.

Eu vi a fome dos homens

que negam a própria humanidade.

No olhar do povo japonês eu vi o vazio.

Vi algo conhecido de outros tempos de Guerra.



As catástrofes se somam.

Na nuvem negra caminha a morte silenciosa.

Na onda negra galopa o tremor de terra.

:

(terremoto, tsunamis, acidentes nucleares)



Faz frio nas imagens da c a t á s t r o f e.

Não há mais o verde. Onde estão os parques, as árvores?

Estamos todos instalados em Fukushima.



Relatórios falsos?

A mentira verbeja na sombra que se estende

sobretudo na Líbia de Kadafi.

Nossos olhos giram no circuito do horror.

É tarde. O solo escorre e os ruídos crescem.

Nestas linhas estão descalços

as crianças e os idosos.

Procuram leite e água.



As usinas nucleares não servem para nada.

Nem a ditadura,

nem a ditadura.



                                                                         Março de 2011.

terça-feira, 15 de março de 2011

80 anos de Augusto de Campos


Encontra-se na internet a revista MnemoZine. O número 4 é inteiramente dedicado a Augusto de Campos: www.cronopios.com.br/mnemozine/. Ali estão reunidos (poemas, depoimentos e traduções), e "o exemplar virtual de MnemoZine deve ser referência para as publicações literárias que se arriscam na rede eletrônica." Editada por Marcelo Tápia e Edson Cruz, ela se apresenta como um objeto multimídia interessantíssimo criado por Pipol.

Homenagens a Augusto de Campos (Transcrevo do Portal Literal. Matéria de 8.3.2011)

No site PORTAL LITERAL: http://portalliteral.terra.com.br/blogs/augusto-de-campos-80-3
augusto de campos - 80! (3)



A influência de Augusto de Campos atravessa o tempo. A pedido do Portal, escritores de diferentes gerações fizeram uma pequena homenagem ao poeta, que completa 80 anos.



VICTOR HERINGER (autor de Cidade impossível):



"Gastei uns bons meses desengastando Augusto de Haroldo, de Campos e vice-versa, na época em que os conheci. Sobraram-me, enfim, dois campos vastos irmãos campos, por virtude de plural e outras coisas. E meu primeiro fascínio foi mesmo o plural, um pouco desacreditado entre [nós,] os imberbes. Uma confraria de pênsero-artesãos, -ismo no nome que me contaram e tudo... Que falta faz um -ismo, e que maravilha é não tê-lo – isso Augusto me ensinou (e outras coisas[1]). O segundo fascínio: aglutinante aéreo, locução que pesquisei nos anais da construção civil e quer dizer “ligante para unir concreto, pedra, cravejamento, em contato com”. O resto em Augusto.



[!] Outras coisas: que negar, renegar, antirenegar é ofício do poeta, de novo; que no início é mesmo o verbo, de novo; que no pós-tudo dá pé, mas a água bate na altura do queixo – e continua a subir (in technicolor) – ainda bem".


RAMON MELLO (autor de Vinis mofados):

“A obra de Augusto de Campos chegou a minha vida através do ensino fundamental, quando eu estudava no Colégio Araruama, no interior do Rio de Janeiro. Fiquei muito impressionado com os poemas concretos. Ao entrar em contato com VIVA VAIA, poema em homenagem a Caetano Veloso, por exemplo, passei a entender o poema como um objeto plástico de domínio estético. A obra de Augusto de Campos, poemas e teorias, me trazem profunda reflexão sobre o fazer literário. No entanto, não o considero uma influência direta em minha produção poética”.


AUGUSTO DE GUIMARAENS CAVALCANTI (autor de Os tigres cravaram as garras no horizonte):

"Augusto sobrenada como fazem os novos satélites flutuando nos jovens oceanos sem bordas. Com seus 80 anos verbicovisuais, no extremo lógico em contraste com o vazio do céu. Verbicovisuais seríamos todos nas bordas dos tempos, orvalhados nos sempre rejuvenescidos olhos daquelas concreções em nossas abstrações, das retas sem beiras, de salas sem chuvas, dos ângulos sem precipícios, dos rios sem margens."


SOLANGE REBUZZI (autora de Leblon, voz e chão)

"AUGUSTO DE CAMPOS,
Poeta que inventa em dobras onde a voz se perdeu “ao som de areia”.
Parabéns pra você !
Agradeço a generosidade de suas inúmeras traduções, que é o lugar onde
mais me encontro em seu trabalho, especialmente em Óssip Mandelstam,
Gertrude Stein, Marina Tzvietáieva e Anna Akhmátova !

Sol e Sono

A asa em renda
voa ao redor do Sol:
palavras
...................

O poeta passa
Alimenta o mundo

no seio de sua r e s p i r a ç ã o


Com afeto,
Solange Rebuzzi

Rio de Janeiro. Verão de 2011".

terça-feira, 8 de março de 2011

Dia Internacional da Mulher: poemas, leituras e fotos da poeta russa Ahha Axmatoba

Dentre as declarações de Akhmatova, encontro uma que define muito bem a natureza da amizade que ela manteve com o artista plático e escultor italiano, que tão bem a retratou, Amedeo Modigliani:
"Com chuva (em Paris chove muito) Modigliani andava com um guarda-chuva preto, enorme e muito velho. Às vezes sentávamo-nos debaixo desse guarda-chuva num banco debaixo do Jardim de Luxemburgo, sob a tépida chuva estival, ao nosso lado dormitava le vieux palais à l'italienne,  e recitávamos juntos o Verlaine que sabíamos bem de cor, contentes por nos lembrarmos os dois dos mesmos versos."
(p.60 do livro Prosas Escolhidas e Poema sem herói. Relógio D'Água. 2001.)


Amedeo Modigliani

Textos de Akhmatova (em russo)



Anna nasceu nos arredores de Odessa em 11 de junho de 1889 (no mesmo ano em que nasceu Charles Chaplin e a Torre Eiffel). Aos onze anos escreveu a primeira poesia. Casou-se com o poeta Nikolai Stepánovitch Gumiliov em 1910. (Lua-de-mel em Paris). Em 1912 nasceu o filho Lev e o primeiro livro Anoitecer. Em 1913 publicou Rosário. Separou-se de Gumiliov em 1916 e foi morar em Petrogrado. Casou-se com V.K. Chileiko no ano seguinte e publicou Bando branco (poemas). Em 1921 seu ex-marido foi condenado por subversão e fuzilado. Publicou Tanchagem e Pertinho do coração (no mesmo período) e logo a seguir Anno Domini MCMXXI. Os anos seguintes foram difíceis e Anna não publicou nada.
Entre 1934 e 1936 são presos, o terceiro marido N.N. Púnin e o amigo e poeta Mandelstam. A partir de 1940 até sua morte em 5 de março de 1966 Anna escreve, lê poemas e apelos na radio, exerce uma vida patriótica, regressa a Leningrado de onde partira durante a Segunda Guerra Mundial
Publica Coragem, Seleção de Poemas, e Poemas. Nas duas décadas seguinte, ela escreveu, publicou e foi reconhecida no estrangeiro com o prémio Etna-Taormina (1964). Sai em 1965 o livro A corrida do Tempo (1905-1965).  Dados recolhidos no livro Anna Akhmátova. Prosas Escolhidas e Poema sem Herói.

Poema traduzido por Christian Mouze. Alidades, 1995.

segunda-feira, 7 de março de 2011

Homenagem a Anna Akhmatova

Rio de Janeiro, verão de 2011.

No silêncio da manhã. Sem blocos por toda parte. Sem helicópteros no ar. UFA!
Os bêbados em ziguezague circulam, pricipalmente, pela Av. Ataulfo de Paiva, no final do Leblon e nas redondezas. Circulam como almas penadas. 

O Rio antigo de Noel Rosa

sexta-feira, 4 de março de 2011

Livro das areias (inédito)

10.


O calor arrepia com seu sopro quente.

Estico os dedos dos pés no chão frio do meu quarto.



Não é bem essa sensação que me acompanha logo depois do contato, mas a lembrança, nada encobridora, de um momento vivido em outra época: o corpo molhado de água de sal. A água de coco escorrendo pelos lábios e o beijo frio do mar. Não era verão.



O que havia naquele tempo nas areias da praia em frente ao Arpoador, além do vento nordeste que zoava em meus cabelos, era um tema que mais parecia saído das folhas do jornal. Circulava pelas areias.



Algo de novo no biquíni que se mostrava ainda menor, e deixava ver mais e mais?
Década de 70.

quarta-feira, 2 de março de 2011

Livro das areias (inédito)

11.




A caminhada e um mergulho.

Percorro uma foto em duas cores. Um corpo leve. Saído do frio.

A nudez não tem eixo.

O corpo sim. Esse pode se dividir em partes e ser visualizado ao poucos.

A nudez embaça. Incorpora emoções e o olhar padece de algum mal que nos conforta com o que vê, e, é apenas isso.

Um detalhe pode ser o centro de uma imagem, uma só imagem.

O corpo de lado comparece em ângulos. Os joelhos dobrados qual folha de papel e bem perto da janela compõem a cena. A janela verde, aquela que se abre ao lado do mar e perto da pracinha logo acima da rua de barro, deixa ver o vento sujo de poeira.