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sábado, 30 de abril de 2011

"La chèvre" / "A cabra" de Francis Ponge (fragmento)



Ces belles aux longs yeux, poilues comme des bêtes, belles à la fois et butées – ou, pour mieux dire, belzébuthées – quand elles bêlent, de quoi se plaignent-elles ? de quel tourment, quel tracas?

Comme les vieux célibataires elles aiment le papier-journal, le tabac.

Et sans doute faut-il parler de corde à propos de chèvres, et même – quels tiraillements ! quelle douce obstination saccadée! – de corde usée jusqu’à la corde, et peut-être de mèche de fouet.

Cette barbiche, cet accent grave...

Elles obsèdent les rochers.



Par une inflexion toute naturelle, psalmodiant dès lors quelque peu – et tirant nous aussi un peu trop sur la corde, peut-être, pour saisir l’occasion verbale par les cheveux – donnons, le menton haut, à entendre que chèvre, non loin de cheval, mais féminine à l’accent grave, n’en est qu’une modification modulée, qui ne cavale ni ne dévale mais grimpe plutôt, par sa dernière syllabe, ces roches abruptes, jusqu’à l’aire d’envol, au nid en suspension de la muette.


*****


Aquelas belas de olhos longos, peludas como animais, belas e ao mesmo tempo obstinadas – ou, melhor dizendo, belzebutadas[1]quando elas balem, de que se lamentam? de qual tormento, qual confusão?

Como os velhos celibatários elas amam o papel-jornal, o fumo.

E sem dúvida é preciso falar de corda a respeito de cabras, e até mesmo – quantos puxões! que doce obstinação aos solavancos! – de corda usada até o fim, e talvez da mecha do chicote.

Aquela barbicha, aquele acento grave...

Elas obsedam os rochedos.



Por uma inflexão natural, salmodiando desde então um pouco – e nós também esticando demais a corda, talvez, para agarrar a ocasião verbal pelos cabelos – damos, com o queixo erguido, a entender que chèvre/cabra, não longe de cheval/cavalo, mas feminina com o acento grave, não é dele senão uma modificação modulada, que não galopa nem resvala mas antes escala de preferência, pela última sílaba, as rochas abruptas, até a área de um vôo, ao ninho em suspensão da (letra) muda.[2]


[1] Para algumas imagens não se encontra equivalente em português. “Belzébuthées”, por exemplo, pode ser lido também como belzébuth + butées, ou seja, uma palavra valise que carrega mais de um significado. Optamos por manter a sonoridade e deixar o sentido vazio. Embora, saibamos que o poeta buscava algo próximo da palavra “endiabrada(s)”, ou melhor, belzebu + obstinadas.
[2] Em português, a escolha foi feita buscando manter o sentido no verso trabalhado pelo poeta graficamente. Onde podemos ler “ao ninho em suspensão da letra muda”, podemos ler também, no jogo da linguagem, um possível vôo da gaivota, que em francês se escreve mouette.  E, então, abrimos uma outra possibilidade de leitura no texto-objeu. Prioritariamente, damos lugar a vogal muda “e” da palavra chèvre, lembrando que chèvre comporta uma sílaba final na qual o r, (este r que fica no ar), precede o “e” suspenso. Enquanto leitores, nós nos sentimos favorecidos na compreensão de um aspecto do trabalho que o poeta experimentou na escrita destes versos. No Littré, encontramos: Muet, muette – “Termo da gramática, letra muda, toda letra que não se pronuncia”. Acesso em: 19.01.2008. No francêsmuette” pela sonoridade leva a “mouette”, ou seja, “mudaleva a “gaivota”, com a mudança de sentido da palavra se fazendo apenas com o acréscimo de uma letra. 

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