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sábado, 28 de maio de 2011

Convite para a leitura do livro ESTRANGEIRA

http://www.bibliofranca.org.br/ciclos-culturais/estrangeira/

Em Estrangeira, obra íntima e universal, Solange Rebuzzi partilha as descobertas poéticas, filosóficas e pessoais de sua viagem de reflexão sobre o processo da escrita, sobre a gênese da poesia e da arte – travessia que percorre por Paris, pelo Rio de Janeiro e pela Manaus de sua infância. Em primeiro de junho, a Mediateca da Maison de France recebe a autora para conversar sobre seu livro e sobre a incrível experiência pela qual passou.

Programação

quarta, 1 de junho de 2011 (às 18.30 hs)


UMA TRAVESSIA PELA ARTE

A mediateca da Maison de France, dentro do ciclo Mediateca em Letras, recebe a escritora Solange Rebuzzi para falar de estrangeira, seu mais recente livro. Nele, se o leitor a princípio se depara com um misto de diário de viagem, moleskine ou caderno de anotações, ao longo das páginas outras narrativas crescem e se mostram ao olhar: A crônica de Paris, com suas avenidas,histórias e habitantes; As descobertas de quem se debruça sobre a arte, poesia, e filosofia numa imersão intensa na atmosfera cultural francesa; A experiência de ser observada como estrangeira,imigrante numa terra que não é a sua.
Solange Rebuzzi nasceu no Rio de Janeiro. Psicanalista e doutora em Literatura Brasileira pela UFMG, é autora de Leblon, voz e chão e dos ensaios Leminski, guerreiro da linguagem (7Letras, 2003) e O idioma pedra de João Cabral (Perspectiva, 2010). A escritora também realizou estágio de doutorado na Sorbonne e atualmente é pós-doutoranda na UFF, traduzindo o poeta Francis Ponge.

sexta-feira, 20 de maio de 2011

Paris, 2005.



Poema da madrugada

1.
Perdida no metrô
ela marcha sem fronteiras
uma pressa sem
fronteiras
todos correm - correm
c'est par là - ah non - c'est
par ici
Ah, oui !

Todos têm pressa
uma pressa de todos os dias
todos os gestos
nos pés
poeira
outros povos
outros chãos
c'est par là
ah oui
mais non
c'est par ici

(um sobe-e-desce
não mais de ruas e avenidas
no metrô
todas
as línguas !)

2.
A mulher sorri
alimenta o filho-bebê-indiano
olhos de vazia Amêndoa

L'amande de Paul Celan
est là
dans ce moment au métro
et je suis là aussi
(com o olhar pequeno e marrom)

A mulher reconhece em mim a mulher
do dia anterior
- à mesma hora :
15:15
na estação
Cité Universitaire

Mas como posso seguí-la agora
que desceu de repente ?
Não saberei dizer o que faz
essa mulher e seu bebê
no trajeto do metrô
jusqu'à station St. Michel
Notre Dame

(Amande: fruit en forme d'oeil, plein de secret de la mort.
Fruit en forme de larme - a écrit la poètesse Martine Broda.)

Paris, 10 de março de 2005.

sábado, 14 de maio de 2011

Po&sie numéro 128-129

Tradução de Bernard Noël

Um passo em direção ao esquecimento

                                                    Bernard Noël



O esquecimento do qual falo não é o ato de esquecer.

Ele não é um buraco na memória

ou na vida,

nem mesmo uma falta,

nem uma falha do presente diante do passado.

Este esquecimento diz respeito ao futuro

pois ele é meu esquecimento:

aquele que come até a lembrança do nome.

Sabemos que a coisa já esquecida

absolutamente como esta que vai ser ou que será

são iguais no esquecimento.

Às vezes, uma sombra passa no corpo,

o atravessa e deixa um frio

retornando ao esquecimento.

Às vezes, não estou aqui inteiramente estando lá :

esta diferença é o pressentimento

do trabalho discreto do esquecimento.

A lembrança é fechada sobre ela mesma,

o esquecimento é todo o contrário ;

ele é sem limites.

A escrita esquece a vida,

a vida esquecerá a escrita :

o irremediável faz então sua entrada,

e é o avesso do absoluto.



- O que encontramos em toda parte?

- O que não tem forma.

- Mas o sem-forma não tem nome.

- Sim, o esquecimento !



O que esquecemos enterra o que sabemos.

O esquecimento faz com que o tempo onde eu não existia

seja idêntico àquele onde eu não existirei mais.

A lembrança desliza sobre o esquecimento

como o pássaro no ar.

Assim, muito rapidamente, toda verdade vai embora

em direção a seu esquecimento.





O passado é a substância do corpo :

esquece-se nele para carregar seu presente.

O que é nos faz esquecer aquilo que foi :

só haverá futuro.

Entre o esquecimento e o esquecido,

não há mais nada :

o esquecido faz deste nada seu lugar.

O que a palavra “esquecimento” não pode conter,

é o esquecimento.



Tradução: Solange Rebuzzi

(Poema publicado na Revista PO&SIE 128-129. Éditions Belin, 2009.)


Tempos difíceis

A “língua das bombas”



Hölderlin afirmou o “reviramento” do tempo e, assim, também afirmou “o tempo como reviramento”. Encontro, nesta afirmativa, uma razão para escrever e pensar algumas questões de nossa época.

Revirar é virar outra vez ou várias vezes. Remexer, revolver. Alterar, mudar o caminho estabelecido. E o “reviramento” comporta um movimento de mudança. Mudança profunda de uma situação ou de um estado de coisas.

De início, podemos constatar que a série de Catástrofes com as quais nos deparamos todos os dias parece se montar como uma estrutura. Diremos ainda que na estrutura de Catástrofe nenhum luto é possível. Se eu for admitir que seja preciso traduzir e ler a catástrofe e não apenas mostrá-la em noticiários televisivos ou em linhas jornalísticas, rapidamente escritas ou filmadas, diria, também, que é preciso buscar dizer este impossível a dizer. E não deixar calá-lo.

Retomar a psicanálise com Freud para pensar as questões do luto e o tempo que demarca a dor, e/ou retomar Hannah Arendt e refletir sobre o que nos resta após o horror de cada guerra? Grandes Guerras e pequeninas atrocidades diárias, introduzidas em nossas vidas, deixam ao homem um trabalho de luto a ser vivenciado.

A humanidade do homem precisa ser preservada neste cenário irascível. E é necessário resistir ainda que na contramão do que está sendo minuto a minuto devorado nas raízes de nossa língua materna. Ou seja, no que se perde a cada instante, nestas cenas que aceitam o horror e o padrão das catástrofes. Mas vamos nos limitar a constatar o que perdemos e na maneira como estamos lidando com tudo isso.

*



Na nomeada “língua das bombas”, ou das guerras ligeiras, e dos despedaçamentos de corpos encontramos uma carga ininterrupta de assassinatos atrozes.

Estamos vivendo dentro de um quadro muitas vezes perverso e tomado pelos excessos e horrores que nos colocam, enquanto cidadãos, como espectadores (em geral sujeitos que trabalham muito e têm pouco tempo para pensar). A atividade intelectual parece anestesiada, pois nenhum esforço é desejável. O melhor parece ser apertar um botão e se deixar levar pela imagem.

Neste estado de impotência, uma “impotência do ridículo” segundo o poeta francês Bernard Noël no texto “De l’impuissance?”, sofremos. Vivemos em uma espécie de impossibilidade e inércia.

Falarei neste texto, portanto, na língua morta; na língua perdida dos poetas.



1.

A língua dos poetas

é uma língua morta?



Mas o que está morto aí

é o que vive dentro de cada um de nós.



Recupero os gregos no canto da Ilíada (canto 23):

Aquiles, que era teimoso, queria vingar o amigo morto entregando o corpo do assassino aos cães. Mas os deuses interferiram. Os deuses se deram conta de que o luto não podia ser vivido na vingança, no excesso.

É preciso espaço para chorar os nossos mortos. E é preciso intervalo.



Escrevo:



“Língua das bombas” sem língua alguma

(apenas ruídos surdos...)

Em breve

falaremos como os mortos



Em qual língua falarás?



2.

Hannah, aquela que viveu na Guerra o despedaçamento de um Tempo, nasceu na Alemanha em 1906 em uma família judia e intelectualizada. Estudou em Berlim e refugiou-se mais adiante nos EUA, onde foi professora em Nova York. Leu Kant precocemente, aos 16 anos, e estudou latim e grego. Estudou também teologia, e escreveu poemas aos 17 anos que só ficaram conhecidos muito tempo depois.

A forma de pensar arendtiana desdobrada de seus estudos universitários e de suas relações de amizades, inclusive com Walter Benjamin, em leituras e discussões, dá ênfase “à efetividade da ação não violenta e ao poder visto não como força, mas sim como um recurso que deriva da criatividade da ação conjunta de homens livres.” (Celso Lafer, aluno de Arendt, em: Homens em tempos sombrios, p. 244.)

Retomemos estes princípios para pensar a vida!

Retomemos no olhar e no gesto.

Mãos de calos duros podem guardar mãos quentes. Podemos restituir a força antiga dos gestos que cuidam. Retomar a direção preferida. Cuidar dos homens, das crianças. Ensinar a ler, contar histórias. Rir.

Diariamente, inventada e reinventada, a nossa rotina precisa de cuidados.

Retomemos algum princípio humanitário: leituras, literatura. Um gesto. Um olhar.



Na língua das bombas

Nada.

Na língua materna

O eixo.

Na língua dos poetas

O princípio.

segunda-feira, 9 de maio de 2011

Jean-Louis Forain (1852-1931) : Desenhos


Nue au fauteuil (Johnson 48). Original Color lithograph, c. 1898-1902.  
Femme nue assise se peignant. Original color lithograph, c. 1898-1902. This lithograph was never editioned, and only a few impressions of this young woman seated and carefully brushing her hair were printed.

Jean-Louis Forain foi um dos mais importantes artistas da primeira década do século XX.
Frequentemente comparado a Rembrandt, o pintor e caricaturista viveu uma vida boêmia até ser descoberto por Degas, que o convidou, aos 26 anos, a participar de uma primeira exposição com os Impressionistas. Graças a Degas, ele consegue sair da obscuridade.

No link abaixo, imagens do Petit Palais com uma bonita exposição do artista.

domingo, 8 de maio de 2011

terça-feira, 3 de maio de 2011

Reflexões e crítica

Olho por olho, dente por dente

                                                                 

                                                                                                  Solange Rebuzzi


A humanidade, dita ocidental e democrática, parece ter recuado muitos passos em direção a um tempo de mundo que havia ficado para trás. Inventamos a democracia para depois destruí-la? O que é isso, minha gente?

Assisto completamente aturdida, tanto aos noticiários de TV como às declarações de políticos e comentadores da política, ao que vou chamar de um novo tempo da barbárie. Não encontro nos relatos explicativos para a forma como aconteceu a morte de Bin Laden, em um extermínio que deixa apenas os traços desta chacina no chão ensanguentado, uma lógica plausível que leve em conta alguma crítica. A racionalidade política e ética do homem moderno parece ter desaparecido ou estar em vias de desaparecimento.

Apenas entre os mais próximos, que conseguem traduzir algum mal estar com o gesto americano (mas que é dito só na intimidade), consigo ouvir alguma coisa interessante. Não há, em voz alta, nada que barre com reflexões críticas ou que procure pensar a barbárie de tal forma de execução. Ainda é cedo, posso pensar para me acalmar um pouco...

E, continuo acreditando que a humanidade do homem é forte e que merecemos explicações. Nada pode ser mais cruel no que diz respeito à vida humana, do que o desaparecimento do corpo de um morto sem vestígios. Já sabemos disso faz tempo. Na Segunda Grande Guerra, assistimos a forma desrespeitosa e assassina da exclusão de milhares de judeus.

Dito isso, devo afirmar que não fui inteiramente contra a “caça” que foi instalada no mundo contra Bin Laden. Mas sejamos claros, que se o homem – um único homem – ficou com a marca de uma tragédia assassina como a de 2001 em Nova York, só muita ingenuidade e crença na dualidade entre o bem e o mal pode considerar que o Mal estava em Bin Laden.

Sejamos adultos para ver e olhar bem firmemente a questão, que é bem maior que isso. Se as bolsas de valores oscilam, se o presidente Americano dá a notícia quase sorrindo, se os jornais do mundo se ocupam com a matéria convidando comentaristas e políticos para falarem sobre o fato, é que a questão é ampla e implica muito.

Estamos implicados, mesmo que seja sem o nosso desejo, na morte de um homem do Afeganistão, procurado vivo ou morto, e assassinado e jogado ao mar em um ato de vingança como a bíblia nos fala em tempos passados.

Atenção minha gente. Quem age assim respeita as leis humanas que vigoram junto com a ética?

Deixo a questão por aqui, pois há, felizmente, muitos homens que ainda podem pensar e discorrer sobre o tema.    



Rio de Janeiro, 3 de maio de 2011.