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sábado, 14 de maio de 2011

Tempos difíceis

A “língua das bombas”



Hölderlin afirmou o “reviramento” do tempo e, assim, também afirmou “o tempo como reviramento”. Encontro, nesta afirmativa, uma razão para escrever e pensar algumas questões de nossa época.

Revirar é virar outra vez ou várias vezes. Remexer, revolver. Alterar, mudar o caminho estabelecido. E o “reviramento” comporta um movimento de mudança. Mudança profunda de uma situação ou de um estado de coisas.

De início, podemos constatar que a série de Catástrofes com as quais nos deparamos todos os dias parece se montar como uma estrutura. Diremos ainda que na estrutura de Catástrofe nenhum luto é possível. Se eu for admitir que seja preciso traduzir e ler a catástrofe e não apenas mostrá-la em noticiários televisivos ou em linhas jornalísticas, rapidamente escritas ou filmadas, diria, também, que é preciso buscar dizer este impossível a dizer. E não deixar calá-lo.

Retomar a psicanálise com Freud para pensar as questões do luto e o tempo que demarca a dor, e/ou retomar Hannah Arendt e refletir sobre o que nos resta após o horror de cada guerra? Grandes Guerras e pequeninas atrocidades diárias, introduzidas em nossas vidas, deixam ao homem um trabalho de luto a ser vivenciado.

A humanidade do homem precisa ser preservada neste cenário irascível. E é necessário resistir ainda que na contramão do que está sendo minuto a minuto devorado nas raízes de nossa língua materna. Ou seja, no que se perde a cada instante, nestas cenas que aceitam o horror e o padrão das catástrofes. Mas vamos nos limitar a constatar o que perdemos e na maneira como estamos lidando com tudo isso.

*



Na nomeada “língua das bombas”, ou das guerras ligeiras, e dos despedaçamentos de corpos encontramos uma carga ininterrupta de assassinatos atrozes.

Estamos vivendo dentro de um quadro muitas vezes perverso e tomado pelos excessos e horrores que nos colocam, enquanto cidadãos, como espectadores (em geral sujeitos que trabalham muito e têm pouco tempo para pensar). A atividade intelectual parece anestesiada, pois nenhum esforço é desejável. O melhor parece ser apertar um botão e se deixar levar pela imagem.

Neste estado de impotência, uma “impotência do ridículo” segundo o poeta francês Bernard Noël no texto “De l’impuissance?”, sofremos. Vivemos em uma espécie de impossibilidade e inércia.

Falarei neste texto, portanto, na língua morta; na língua perdida dos poetas.



1.

A língua dos poetas

é uma língua morta?



Mas o que está morto aí

é o que vive dentro de cada um de nós.



Recupero os gregos no canto da Ilíada (canto 23):

Aquiles, que era teimoso, queria vingar o amigo morto entregando o corpo do assassino aos cães. Mas os deuses interferiram. Os deuses se deram conta de que o luto não podia ser vivido na vingança, no excesso.

É preciso espaço para chorar os nossos mortos. E é preciso intervalo.



Escrevo:



“Língua das bombas” sem língua alguma

(apenas ruídos surdos...)

Em breve

falaremos como os mortos



Em qual língua falarás?



2.

Hannah, aquela que viveu na Guerra o despedaçamento de um Tempo, nasceu na Alemanha em 1906 em uma família judia e intelectualizada. Estudou em Berlim e refugiou-se mais adiante nos EUA, onde foi professora em Nova York. Leu Kant precocemente, aos 16 anos, e estudou latim e grego. Estudou também teologia, e escreveu poemas aos 17 anos que só ficaram conhecidos muito tempo depois.

A forma de pensar arendtiana desdobrada de seus estudos universitários e de suas relações de amizades, inclusive com Walter Benjamin, em leituras e discussões, dá ênfase “à efetividade da ação não violenta e ao poder visto não como força, mas sim como um recurso que deriva da criatividade da ação conjunta de homens livres.” (Celso Lafer, aluno de Arendt, em: Homens em tempos sombrios, p. 244.)

Retomemos estes princípios para pensar a vida!

Retomemos no olhar e no gesto.

Mãos de calos duros podem guardar mãos quentes. Podemos restituir a força antiga dos gestos que cuidam. Retomar a direção preferida. Cuidar dos homens, das crianças. Ensinar a ler, contar histórias. Rir.

Diariamente, inventada e reinventada, a nossa rotina precisa de cuidados.

Retomemos algum princípio humanitário: leituras, literatura. Um gesto. Um olhar.



Na língua das bombas

Nada.

Na língua materna

O eixo.

Na língua dos poetas

O princípio.

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