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sábado, 14 de maio de 2011

Tradução de Bernard Noël

Um passo em direção ao esquecimento

                                                    Bernard Noël



O esquecimento do qual falo não é o ato de esquecer.

Ele não é um buraco na memória

ou na vida,

nem mesmo uma falta,

nem uma falha do presente diante do passado.

Este esquecimento diz respeito ao futuro

pois ele é meu esquecimento:

aquele que come até a lembrança do nome.

Sabemos que a coisa já esquecida

absolutamente como esta que vai ser ou que será

são iguais no esquecimento.

Às vezes, uma sombra passa no corpo,

o atravessa e deixa um frio

retornando ao esquecimento.

Às vezes, não estou aqui inteiramente estando lá :

esta diferença é o pressentimento

do trabalho discreto do esquecimento.

A lembrança é fechada sobre ela mesma,

o esquecimento é todo o contrário ;

ele é sem limites.

A escrita esquece a vida,

a vida esquecerá a escrita :

o irremediável faz então sua entrada,

e é o avesso do absoluto.



- O que encontramos em toda parte?

- O que não tem forma.

- Mas o sem-forma não tem nome.

- Sim, o esquecimento !



O que esquecemos enterra o que sabemos.

O esquecimento faz com que o tempo onde eu não existia

seja idêntico àquele onde eu não existirei mais.

A lembrança desliza sobre o esquecimento

como o pássaro no ar.

Assim, muito rapidamente, toda verdade vai embora

em direção a seu esquecimento.





O passado é a substância do corpo :

esquece-se nele para carregar seu presente.

O que é nos faz esquecer aquilo que foi :

só haverá futuro.

Entre o esquecimento e o esquecido,

não há mais nada :

o esquecido faz deste nada seu lugar.

O que a palavra “esquecimento” não pode conter,

é o esquecimento.



Tradução: Solange Rebuzzi

(Poema publicado na Revista PO&SIE 128-129. Éditions Belin, 2009.)


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