sábado, 17 de setembro de 2011

Francis Ponge e o "objeu"

Ponge trabalhou com as palavras, teorizando sobre o objeu (objeto que se reporta a um fora “ob” – e ao mesmo tempo, de forma paradoxal, está inserido no jogo da linguagem). O conceito construído pelo poeta dá à palavra estatuto de objeto verbal. Objeto que trabalha com o movimento de letras no jogo da linguagem, na tensão na qual ele se constitui a partir de uma exterioridade nos obscuros domínios da palavra-coisa. Mas, os objetos não são as coisas, conforme nos explica Christian Prigent na orelha do livro Francis Ponge, o objeto em jogo, desmontando a idéia de que Ponge é o poeta dos objetos. Esclarece o ensaísta e estudioso da obra pongiana que “Ponge é o poeta da distância das coisas e de seu engendramento poético na linguagem mesma que sua distância força à estranheza.”[1] Na expressão do poeta, percebemos que umobjeu” é algo entre o objeto e o jogo, e apresenta-se no intervalo que a linguagem move.
Rememoremos: Francis Ponge nasceu em Montpellier (de uma família protestante, originária da região do Languedoc) na França, em 27 de março de 1899. Ele passa sua primeira infância em Avignon e, em 1909, entra no liceu de Caen onde terminará seus estudos secundários. Em 1916, começa o curso de preparação para Escola Normal Superior em Louis-le-Grand, depois continua seus estudos na Sorbonne e na faculdade de Direito em Paris. No cenário de sua escrita, com o processo de criação em marcha, o poeta estava sempre diante das letras do alfabeto, o dicionário Littré [2]; sobre a mesa e o seu caderno de notas.
Ele perseguiu, ao longo de sua vida de escritor, uma pesquisa pessoal que o inseriu no seio das questões filosóficas e literárias de sua época. De fato, o poeta movia ao escrever “o inventário do mundo e ‘a jogada de linguagem’”.[3]; O acento estava colocado na fabricação, e contrário à ideologia poética dominante. Ponge trabalhava pensando a poesia da língua, a poesia da poesia, reflexiva. Muitas vezes, dava declarações violentas contra a poesia mesmo, e jamais desejou fazer escola.  
Ponge se coloca diante de um novo “idioma” (como recurso poético), em uma ampla variedade de poesia de circunstância, na qual os objetos do cotidiano “estão cercados de abismo”,[4] ou seja, os objetos se mostram em potência de linguagem também obscura. Trata-se de uma “mise en abyme” de descrições, pois os objetos são descritos sem que se trate de descrição. E nessa dupla ou tripla obscuridade, o “objeto de palavras”, enfim petrificado, pode dar acesso ao fundo obscuro das coisas, sendo ele mesmo uma parte obscura.
Podemos pensar, a partir disso, por exemplo, a questão da língua. Na singularidade em que ela habita um escritor, isto é, na singularidade em que a assinatura do poeta surge no idioma de sua língua. No entanto, constatamos que Ponge vai nomear sua assinatura como contra-assinatura,[5] e vai defini-la como uma marca própria, algo como um acontecimento que irá marcar também a língua.
Em relação à questão do objeto na poética pongiana, lemos que a relação do homem com o objeto não é de todo somente de posse ou uso. Francis Ponge esclarece no texto “O objeto, é a poética”[6] que não é assim tão simples. Os objetos, certamente, “eles também são nosso chumbo na cabeça”.[7]. Diríamos, que os objetos são o que nos pesa na cabeça, fazendo-nos pensar.
Acompanhamos o poeta fazendo as relações entre o homem e as coisas. E nós precisamos reconhecer que: é necessário ao homem “um objeto, que o afete como seu complemento direto, imediatamente”.[8]. Podemos pensar que é preciso um objeto que nos afete sim. Algo que nos atinja diretamente. O poeta esclarece: “Trata-se da relação mais grave. (...) O artista, mais que qualquer outro homem, recebe essa carga, acusa o golpe.”[9]. Talvez, ainda possamos dizer que o poeta se mostra intenso na relação com as coisas e a responsabilidade com o mundo, e reconhece que o homem não tem o seu centro de gravidade nele mesmo. Priorizando as relações do homem com os objetos do mundo:  “objetos que nós reescolhíamos cada dia, e não como nosso meio, nosso ambiente; mas antes como nossos espectadores, nossos juizes; por não serem, certamente, nem dançarinos nem palhaços”,10. Ponge realça o lugar do objeto que objecta, que faz alguma mudança em nossas vidas.  
O objeto pongiano – manipulado de forma tal que as ligações formadas ao nível das raízes e das significações das palavras se montam pela multiplicação interior das relações – mostra-se de forma vertiginosa. O objeto não se deixa reduzir, conforme dito, poisEle faz objeção”.[11]. À maneira do objeu, ele entra no jogo da linguagem e abre sentidos vários. Dizendo de outra maneira, ele impede o pensamento de “ronronar”, obrigando-o a se transformar no contato das coisas. Ponge não pretende reproduzir o objeto, mas produzir um novo objeto, insistindo e trabalhando, e fazendo o leitor também trabalhar seu pensamento. Francis Ponge é um crítico: crítico do pensamento e da linguagem. Crítico estético e, também, crítico dele mesmo
No desdobramento de sua obra, o poeta vai oscilar entre uma espécie de fechamento e uma abertura, um inacabamento e uma perfeição na maneira como prossegue e insiste no trabalho. Essa hesitação, esse vaivém – de movimento e de inquietude na escrita – é o que vai caracterizá-lo, aos poucos, não como um “simples escritor”, segundo Jean-Marie Gleize, pois ele não era alguém que transcrevesse ou que traduzisse o que é e o que foi, mas se assemelhava a um requisitado,[12] um sujeito mobilizado por uma atividade que não tem verdadeiramente nome, que se parece com o que faz o cientista em pesquisa, e conquista um saber que não existe ainda.

Notas:


1. PRIGENT. Francis Ponge, o objeto em jogo. Orelha do livro de Leda Tenório da Motta. São Paulo: Iluminuras, 2000.
2. Dictionnaire de la langue française de Émile Littré. Dicionário etimológico que dá o radical da palavra, o cerne, a parte dura do vocábulo, presentificando o que nomeia pela sua força de contenção. MOTTA. Francis Ponge, o objeto em jogo. Op. cit, p. 34.
3. MOTTA. Francis Ponge: o objeto em jogo, p. 39.
4. MOTTA. Métodos. Rio de Janeiro: Imago Editora. 1997, p. 10.
5. Jacques Derrida trabalha esta noção no livro Signéponge.  DERRIDA. Signéponge. Paris: Éditions du Seuil, 1988.
6. No original: “L’objet, c’est la poétique”. A expressão é de Braque, no comentário pongiano do texto com esse título. PONGE. L’Atelier contemporain. Paris: Éditions Gallimard. 1977, p. 221.
7. No original: “ils sont aussi notre plomb dans la tête”. Expressão que traduz que é preciso pensar, é preciso ser sério. E significa que os objetos nos farão mais reflexivos. PONGE. L’Atelier Contemporain, p. 221.
8. No original: “un objet, qui l’affecte, comme son complément direct, aussitôt”. PONGE. L’Atelier Contemporain, p. 221.
9. No original: “Il s’agit du rapport le plus grave (...). L’artiste, plus que tout autre homme, en reçoit la charge, accuse le coup.” PONGE. L’Atelier Contemporain, p. 221-222.
10. No original: “Des objets que nous rechoisissions chaque jour, et non comme notre décor, notre cadre ; plutôt comme nos spectateurs, nos juges; pour n’en être, bien sûr, ni les danseurs ni les pitres.’’ PONGE. L’Atelier Contemporain, p. 224.  
11. No original: “Il objecte”. VECK; FARASSE. Guide d’un Petit Voyage dans l’oeuvre de Francis Ponge. Villeneuve d’Ascq (Nord) : Presses Universitaires du Septentrion. 1999, p. 49.
12. No original: “Requis”, que pode ser traduzido como alguém que demanda que indaga, e vem do verbo “requérir” que, no sentido literal, quer dizer pedir, solicitar, requerer.

Nenhum comentário:

Postar um comentário