sábado, 24 de setembro de 2011

Manuel Bandeira

Nota antecipada:
Durante o primeiro ano de meu Mestrado na Puc-Rio, em 2000, escrevi sobre Manuel Bandeira para o curso do Prof. Gilberto Mendonça Teles. Transcrevo parte deste texto tímido, para os leitores de poesia que queiram vivenciar comigo a alegria de, ao ler Bandeira, iniciar alguma reflexão sobre sua escrita. 
(Peço desculpas por não conseguir arrumar melhor o texto com as notas). 

A experimentação criadora
     Na poética de Manuel Bandeira, a intertextualidade é presença. Tanto no livro Estrela da Manhã quanto em Mafuá do malungo, Bandeira experimenta o que a modernidade apresentava como lei fundamental: a construção e desconstrução concomitantes, o movimento complexo de afirmação/negação simultâneas de um texto ou outro, onde a experimentação do poeta se firmava. E logo na primeira quadrinha do livro Estrela da manhã lemos:
Atirei um céu aberto
Na janela do meu bem:
Caí na Lapa – um deserto...
- Pará, capital Belém!...

     O que se cruza, no espaço intertextual do poema, pode ser lido com o ponto de vista da sintática, observando-se o jogo das construções verbal e nominal, ao que se juntam os fonemas.
   No código etnológico, que trata da origem das palavras, podemos ficar com as lembranças de nossa própria infância. De uma trova popular à outra, a primeira que recordamos é tão antiga que permanece sem autor:
“ Atirei o pau no gato
Mas o gato não morreu
Dona Chica admirou-se
Do berro que o gato deu.”*

   Sílvio Romero, citado por Mendonça Teles em Retórica do silêncio, registra outras variantes que fazem parte do folclore Ibérico. Em uma delas encontramos a canção popular conhecida de brincadeiras infantis:
“Atirei um limão verde
Lá na torre de Belém
Deu no ouro, deu na prata
Deu no peito de meu bem”.

   Os muitos códigos só vêm confirmar o intertextual. Do ponto de vista da lírica (código lírico), o processo de contradição se apresenta de imediato, pois como pensar o primeiro verso, no qual o poeta afirma que atirou um céu aberto. E ainda, o lugar lírico “dos dois primeiros versos de Bandeira se contrapõe aos lugares geográficos, como Lapa, Pará e Belém.”21 O que estaria também sendo lembrado, nos versos do poeta, podemos associar ao que Roland Barthes chama de “uma recordação circular.”22  Recordação de um amor de juventude? Com certeza, construção de uma poética e de um autor na viagem da escrita.
     Percebemos nos dois primeiros livros do poeta, Cinza das horas (1917) e Carnaval (1919), uma escrita marcada na “feição parnasiano-simbolista.”  Na semana de Arte Moderna constatamos outro início em sua poética, comprovado não apenas no que lemos em sua poesia, mas também no que está publicado na correspondência com Mário de Andrade. “Aí se guarda a memória que traduz momentos de uma escrita nascente. As cartas de Bandeira em diálogo de criação literária com Mário de Andrade, poeta-chave do modernismo de 22, nos apresenta o artesão da palavra lendo e ouvindo outro poeta-artesão de nossa língua.”23
     Quando em 1921, Bandeira conheceu Mário de Andrade, considerou sua poesia de “um ruim esquisito”. Mas, no entanto reconheceu a força do poeta ao ouvi-lo lendo “Paulicéia Desvairada”. Foi com a submissão à crítica do trabalho poético de um com o outro, e cremos que na “dupla corrente de juízos que tanto serviu à depuração de nosso versos” como nos conta Bandeira, que podemos ver a contribuição de Mário na recolha dos “pequeninos nadas” de Bandeira. Nesta troca epistolar que durou de 1922 até a morte de Mário, as diferenças irreconciliáveis faziam parte. Bandeira, conforme já foi dito anteriormente, considerava certos aspectos da escrita marioandradiana como afetação mas, confessava-se seduzido pela musicalidade de Mário.
     Quando Bandeira diz, em Itinerário, que :
(...) “o verso verdadeiramente livre foi para mim uma conquista difícil”25, ele denuncia sua transição, marcando mesmo a dificuldade com o novo. Nessa troca, com os poetas modernistas, na revista Klaxon publicou o poema “Bonheur lyrique”. Rememora Bandeira: “me vi associado a uma geração que, em verdade, não era minha”(...) pois, “ todos aqueles rapazes eram em media uns dez anos mais moços do que eu”.26
     Em 1924 apareceu o Ritmo Dissoluto causando discordância. O poeta afirma que “são poesias sem ritmo de espécie alguma, mais do que ritmo dissoluto”.27  E mais adiante: “Há neste livro não sei o quê de morno”.28 Bandeira rompia com as regras? Livro de transição nas palavras do próprio autor. Nele existem as rimas toantes misturadas aos versos rimados e versos brancos (versos decassílabos, metrificados e sem rima). E segue o poeta contando, rememorando que “nos vinte e quatro poemas que perfazem o Ritmo Dissoluto oito foram escritos na Mosela, em Petrópolis.”29 Dois deles são especiais para o poeta: “ Noite morta” e “Berimbau”, que foram musicados por Jaime Ovalle.
       A transformação do poeta foi vivida lentamente. Bandeira foi encontrando nas palavras, em meio ao que lhe chegava do cotidiano, as rupturas da Semana de Arte Moderna. A maturidade poética foi assim sendo construída. Gilberto M. Teles nos diz deste tempo, que a partir do título do livro, o “ritmo” poético se encontrava dissolvido na nova estética. A imagem de um novo “saindo de dentro do velho” confirmava a transformação.        

   O poema “Inspiração” por exemplo, abre-se em versos decassílabos. Com “um título já batido apresenta-nos na semântica, o novo.”31  
     Essa transformação de Bandeira marca-se mais claramente a partir da morte de seu pai, que ocorreu em 1920. E Bandeira foi morar só na rua do Curvelo, hoje Dias de Barros. Ele nos conta:
“A Rua do Curvelo ensinou-me muitas coisas. Couto foi avisada testemunha disso e sabe que o elemento de humildade cotidiano, que começou desde então a se fazer sentir em minha poesia não resultava de nenhuma intenção modernista.”32
Anos depois o mesmo amigo, o Couto, comentaria no discurso que o recebeu na posse da Academia Brasileira de Letras:
“ (...) o morro do Curvelo, em seu devido  tempo, trouxe-vos aquilo que a leitura dos grandes livros da humanidade não pode substituir: a rua.”33
     Manuel Bandeira ratifica nos dizendo que foi com “a morte de meu pai e a minha residência no morro do Curvelo de 1920 a 1933, que amadureceu o poeta em mim.(...) Não sei se exagero dizendo que foi na rua do Curvelo que reaprendi os caminhos da infância.”34
Aqui com certeza, a referência à emoção experimentada nas descobertas infantis, onde a rua fazia parte do cotidiano. Neste momento também, foi com o amigo Ribeiro Couto que Bandeira encontrou os poetas da nova geração literária – tanto no Rio, quanto em S. Paulo.

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