sábado, 28 de janeiro de 2012

Poema da praia

Da praia em ângulos
nada retos
passa-se a Freud
e seu divã
O intervalo
                   não é dito
nem os dias contados nos dedos
No horizonte  ____________  o sujeito
                   as ondas planas e perdidas
nossos pés em movimento...
a língua
                o corpo
                a letra


A praia em ângulos
tudo vê
                pouco sussura
nada diz
(do verbo dizer:
                            eu digo
                            tu dizes   
                            ele/ela diz)


Ao longe no vento
nuvens   nuvens   fumaça
o azul e o cinza
tristezas embaçadas
No quadro do verso
- fora da linha –
espaço e tempo:
                             r e s p i r o
a visão do azul
em pedaços

Rio de Janeiro: Posto 6 em ângulos distintos






domingo, 22 de janeiro de 2012

sábado, 14 de janeiro de 2012

Homenagem ao povo da Tunísia: a poeta Fadhila Chebbi

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Biographie[modifier]

Fille d'Ahmed Ben Brahim Chebbi, Fadhila est la cousine du poète Abou el Kacem Chebbi. Professeur d'arabe durant plus de trente ans, elle se consacre à la littérature dès 19881. Son premier recueil s'intitule Odeurs de terre. Première poétesse à sortir de la métrique classique2, elle reçoit en 1998 le prix Zoubeida B'chir pour la création littéraire en langue arabe ainsi qu'en 20093 pour son recueilBourouk El Mata4. Elle a également reçu un prix littéraire espagnol5.
Elle a écrit dans plusieurs genres comme la poésie, le roman, la nouvelle et les livres pour enfants5. Elle a notamment écrit Parfums de terre et de colèreLes Jardins géométriques ou Le Poète, le monde et la rose1. Les notions majeurs que l'on retrouvent dans sa poésie sont la métaphore mystique, la dialectique du vide et de la matière et la relation à l'univers6.



Traduzo livremente algumas informações sobre a poeta tunisiana Fadhila Chebbi:
Filha de Ahmed Ben Brahim Chebbi, Fadhila é prima do poeta Abou el Kacem Chebbi. Professora de árabe durante mais de trinta anos, ela se dedica à literatura desde 1988. Seu primeiro trabalho se intitula Odeurs de terre / Odores de terra. Primeira poeta a sair da métrica clássica, recebe em 1998 o prêmio Zoubeida B'chir por sua obra em árabe, assim como em 2009 pela reunião de poemas Bourouk El Mata. Igualmente recebeu um prêmio literário espanhol.
Escreveu em vários gêneros tais como poesia, romance, novela e livros para crianças. Escreveu, especialmente, Parfums de terre et de colère / Perfumes de terra e de cóleraLes Jardins géométriques/ Jardins geométricos ou Le Poète, le monde et la rose / O poeta, o mundo e a rosa. As noções mais importantes que encontramos em sua poesia são a metáfora mística, a dialética do vazio e da matéria e a relação ao universo. 

sábado, 7 de janeiro de 2012

Homenagem a Paulo Leminski


                                   A escrita leminskiana “marginal”
ou Paulo Leminski à margem da página
                                                                                         Solange Rebuzzi
                           Ao pé da pena

                              todo sujo de tinta
                           o escriba volta pra casa
                       cabeça cheia de frases alheias
                                 frases feitas
                                  letras feias
                                 linhas lindas
                               a pele queima  
                          as palavras esquecidas
                             formas formigas  
                     todas as palavras da tribo

                                 por elas
                               trocou a vida
                         dias luzes madrugadas
                                    hoje
                       quando volta pra casa
                 página em branco e em brasa
                            asa lá se vai
                     dá de cara com nada
                       com tudo dentro
                                  sai

                                           Paulo Leminski

                                                                                                                                                  
A noção de experiência, enquanto processo de fabricação, pode nos ajudar a pensar questões da escrita do instigante poeta curitibano Paulo Leminski, pois sua obra poética se compõe também de textos em prosa, traduções, ensaios, letras de música, jungles de propaganda, cartas-poemas; em uma mistura de formas, que confirmam a obra que se desdobra nas margens tanto quanto no texto e em anexos ou rasuras, em  distintas configurações.
A década de 70 abre a brecha para esta maneira mais livre de escrever e pensar. Leminski foi fruto de seu tempo, e ativo participante nesta arte que promove vida e obra embrenhadas. Autorizou-se ao escrever a conhecer o outro lado da norma, após ter experimentado também os poemas concretos. O poeta – favorecido pela prática libertadora de misturar – construiu sua obra “marginal”, ou como ele diria: “à margem esquerda da frase,” lá onde o sentido termina e a palavra permanece, levando o leitor a conhecer mais que o habitual. 
Experiência e marginalidade podem ser consideradas como parte da argamassa de sua escrita; o que promove ao seu talento inventivo uma rara beleza. Bebendo das “obras mães”, sem deixar de experimentar na língua, o poeta captou o mais sensível. E Catatau foi a experiência máxima onde “o portmanteau desempenha papel principal”, embora alguns de seus poemas possam também traduzir certo indizível. Aludindo a algo do informático-eletrônico, o poeta trabalhou as palavras até seu extremo. E deixou neste livro um universo de ‘palavras que carregam palavras’; as saborosas palavras-valize, misturadas ao nosso idioma na raiz, ou melhor, em uma mistura de línguas, com os jogos de linguagem, os trocadilhos e os movimentos das letras ao sabor da leitura (com palavras indígenas, expressões portuguesas, e o chão de nosso país com seus bichos e hábitos, etc). Tudo isso misturado com imagens da chegada do filósofo Descartes ao Brasil junto com Nassau. Uma ideia que nasceu durante suas aulas de cursinho, em Curitiba. Cito:
        
          A muriçoca cutuca, belisca – ah maçaroca, ax, ex, ix... Zeh
                           (...)
          Um peninsulamento engolve verdaduras esponjatâneo.
                         (...)
           Este país cheio de brilho e os bichos dentro do brilho é constelação de olhos de fera.
                        (...)
          Dou com a língua nos dentes e a linguagem nos dentes deles. D’entes de fora...

Escrever parecia ser possível reescrevendo e remastigando de tudo, na linha de Oswald de Andrade, com o maxilar devorador, segundo Haroldo de Campos “buscando o convívio de tudo com tudo” (Metalinguagem e outras metas). Leminski, portanto, construiu sua obra saindo da forma/fôrma vanguardista da época, e permaneceu ligado primordialmente ao ritmo que lhe mostrava a direção do verso (desde o seu início na casa da Cruz do Pilarzinho, quando com a porta entreaberta afirmava o ritmo de sua escrita com o vento).
O poeta deu lugar à pura beleza da linguagem, pois acreditava que a palavra poética carrega uma “santidade de linguagem” (palavras recolhidas em entrevista dada aos 41 anos, ao cineasta Werner Schumann, em 1985: Ervilha da fantasia, uma Ópera Paulo Leminskiana).
Mas, importa dizer que a marginalidade da escrita de Leminski se mostra especialmente, em momentos de troca, na correspondência com o poeta paulista Regis Bonvicino. Dessas missivas recolhemos afirmações que estabelecem a construção de um pensamento poético que afirma liberdade e se autoriza sempre mais. Construindo sua obra também nessa troca epistolar, Leminski conheceu com o que as cartas favorecem – uma experiência de confiança e intimidade, sem largar o compromisso com a linguagem. A base é a exploração das fronteiras da escrita. Ali, como um personagem misturado à língua, ele passeia e escrevia-se-escrevendo.
Cito-o na carta 42, escrita em 1978:


produzo muito (meu projeto é de desrepressão, desovo, quero atingir algo, ergo,   erro muito... mas sei que quando acerto é de foder... eu já sei q várias vezes eu disse coisas nunca ditas , vitais, carne gorda e forte... para cada dez poemas, um mais ou menos... para cada 50 um definitivo...   


Dentro desta linha de pensar a “desrepressão”, Leminski, de maneira sutil, sugere algo daquela época ainda sob efeito dos anos de silêncio e ditadura, afinal era o final da década de 70. E ele adianta um preceito válido e inteligente para os nossos dias, ao afirmar que errar faz parte da experiência, ou como podemos ainda incluir, faz parte da errância da escrita.


Logo adiante, nessa mesma carta:


Uma coisa é certa: a poesia (como tudo o mais) não tem solução dentro do capitalismo. Quanto mais capitalismo, menos poesia, é só ver o que acontece no Brasil de hoje, das multinacionais, ‘milagres’ monetaristas, consumo feroz de bobagem num quadro onde os problemas fundamentais (alfabetização, alimentação, escolarização, e uma política cultural voltada para nossos interesses nacionais e populares, democracia, enfim)...


E ainda, retomando a carta 38, ele declarou:


A DITADURA ESVAZIOU A POESIA, VAMOS ENCHER
NEM SÓ DE BOAS INTENÇÕES VIVE A POESIA
A GERAÇÃO POSSÍVEL QUE NÃO DEIXOU A UTOPIA MORREU

Aqui escutamos o poeta antenado; um lúcido construtor além de transgressor da linguagem. Leminski deixa um legado importante como poeta de nosso tempo. E só temos a agradecer




quarta-feira, 4 de janeiro de 2012

Roland Barthes: observações sobre o livro Diário de luto

Comprei no dia 2 de janeiro de 2012 o livro Diário de luto de Roland Barthes que a Martins Fontes editou em 2011, com o apoio da Mediateca da Maison de France. Na capa há um vibrante desenho que Barthes fez em 1977. Esta tradução realizada por Leyla Perrone-Moisés, a grande responsável pela divulgação do pensamento de Barthes no Brasil, também compõe a coleção Roland Barthes que reúne importantes obras do autor reeditadas e algumas inéditas (como é o caso dos Cursos do Collège de France).
Neste trabalho de escrita, Barthes redimensiona o luto recuperando aspectos importantes do trabalho do luto já tão estudado e documentado em Freud, especialmente no livro Luto e Melancolia.
O escritor anotou a tinta ou a lápis, em pequenas fichas, um diário que se monta aos pedaços, datando o texto no esforço físico que reforça o gesto de escrever desde “a primeira noite” de seu luto, em 26 de outubro de 1977.
Morte de mãe, morte do primeiro objeto amado. No caso de Barthes: a morte do ser amado!
Algumas afirmações freudianas podem ser encontradas em suas letras. Mas a pergunta que retorna ao leitor, de imediato, é sobre o tempo de duração de um luto. De fato, constatamos que o luto pode ser indeterminado. É preciso tempo para a experiência do luto, e na singularidade de cada sujeito. Relembramos Freud novamente, em carta a um amigo, quando após a morte de sua querida filha Sofia afirmou haver no luto uma impossibilidade de elaboração. Alguns lutos certamente guardam uma dificuldade maior, como é o caso da perda de um filho(a).
Embora Barthes pareça levantar discretas críticas ao luto descrito na Psicanálise, na verdade ele só faz afirmá-lo. São inúmeras as qualidades que encontrei neste importante livro, que podem nos ajudar a pensar (e mesmo a elaborar) o sofrimento vivido com a perda de uma pessoa amada.
O luto barthesiano, “um mal-estar contínuo”, nomeado também “um bloqueio”, “uma disponibilidade dolorosa”, parece esperar uma saída e, ainda assim, nomeando-se ao longo de muitas páginas, persegue o caminho de um luto... impossível: “trabalhar, acompanhado, colado à “presença da ausência”. Podemos sentir quando “o luto toma sua velocidade de cruzeiro...” e o escritor escreve seus pesadelos e seus choros.
Identificado a Marcel Proust nas páginas sobre a separação de sua mãe, Barthes repete sua dor descomedida: “(Como) o tempo é longo, sem ela.”.
Ao leitor, a tarefa nada fácil de segui-lo. E... perseverar – quem sabe – na saída de algum momento muito doloroso.

Rio, 04.01.2012.
Solange Rebuzzi