Somos a favor do porte de livros!
Somos a favor da economia verde!
E vamos dar voz aos nossos índios!

sábado, 7 de janeiro de 2012

Homenagem a Paulo Leminski


                                   A escrita leminskiana “marginal”
ou Paulo Leminski à margem da página
                                                                                         Solange Rebuzzi
                           Ao pé da pena

                              todo sujo de tinta
                           o escriba volta pra casa
                       cabeça cheia de frases alheias
                                 frases feitas
                                  letras feias
                                 linhas lindas
                               a pele queima  
                          as palavras esquecidas
                             formas formigas  
                     todas as palavras da tribo

                                 por elas
                               trocou a vida
                         dias luzes madrugadas
                                    hoje
                       quando volta pra casa
                 página em branco e em brasa
                            asa lá se vai
                     dá de cara com nada
                       com tudo dentro
                                  sai

                                           Paulo Leminski

                                                                                                                                                  
A noção de experiência, enquanto processo de fabricação, pode nos ajudar a pensar questões da escrita do instigante poeta curitibano Paulo Leminski, pois sua obra poética se compõe também de textos em prosa, traduções, ensaios, letras de música, jungles de propaganda, cartas-poemas; em uma mistura de formas, que confirmam a obra que se desdobra nas margens tanto quanto no texto e em anexos ou rasuras, em  distintas configurações.
A década de 70 abre a brecha para esta maneira mais livre de escrever e pensar. Leminski foi fruto de seu tempo, e ativo participante nesta arte que promove vida e obra embrenhadas. Autorizou-se ao escrever a conhecer o outro lado da norma, após ter experimentado também os poemas concretos. O poeta – favorecido pela prática libertadora de misturar – construiu sua obra “marginal”, ou como ele diria: “à margem esquerda da frase,” lá onde o sentido termina e a palavra permanece, levando o leitor a conhecer mais que o habitual. 
Experiência e marginalidade podem ser consideradas como parte da argamassa de sua escrita; o que promove ao seu talento inventivo uma rara beleza. Bebendo das “obras mães”, sem deixar de experimentar na língua, o poeta captou o mais sensível. E Catatau foi a experiência máxima onde “o portmanteau desempenha papel principal”, embora alguns de seus poemas possam também traduzir certo indizível. Aludindo a algo do informático-eletrônico, o poeta trabalhou as palavras até seu extremo. E deixou neste livro um universo de ‘palavras que carregam palavras’; as saborosas palavras-valize, misturadas ao nosso idioma na raiz, ou melhor, em uma mistura de línguas, com os jogos de linguagem, os trocadilhos e os movimentos das letras ao sabor da leitura (com palavras indígenas, expressões portuguesas, e o chão de nosso país com seus bichos e hábitos, etc). Tudo isso misturado com imagens da chegada do filósofo Descartes ao Brasil junto com Nassau. Uma ideia que nasceu durante suas aulas de cursinho, em Curitiba. Cito:
        
          A muriçoca cutuca, belisca – ah maçaroca, ax, ex, ix... Zeh
                           (...)
          Um peninsulamento engolve verdaduras esponjatâneo.
                         (...)
           Este país cheio de brilho e os bichos dentro do brilho é constelação de olhos de fera.
                        (...)
          Dou com a língua nos dentes e a linguagem nos dentes deles. D’entes de fora...

Escrever parecia ser possível reescrevendo e remastigando de tudo, na linha de Oswald de Andrade, com o maxilar devorador, segundo Haroldo de Campos “buscando o convívio de tudo com tudo” (Metalinguagem e outras metas). Leminski, portanto, construiu sua obra saindo da forma/fôrma vanguardista da época, e permaneceu ligado primordialmente ao ritmo que lhe mostrava a direção do verso (desde o seu início na casa da Cruz do Pilarzinho, quando com a porta entreaberta afirmava o ritmo de sua escrita com o vento).
O poeta deu lugar à pura beleza da linguagem, pois acreditava que a palavra poética carrega uma “santidade de linguagem” (palavras recolhidas em entrevista dada aos 41 anos, ao cineasta Werner Schumann, em 1985: Ervilha da fantasia, uma Ópera Paulo Leminskiana).
Mas, importa dizer que a marginalidade da escrita de Leminski se mostra especialmente, em momentos de troca, na correspondência com o poeta paulista Regis Bonvicino. Dessas missivas recolhemos afirmações que estabelecem a construção de um pensamento poético que afirma liberdade e se autoriza sempre mais. Construindo sua obra também nessa troca epistolar, Leminski conheceu com o que as cartas favorecem – uma experiência de confiança e intimidade, sem largar o compromisso com a linguagem. A base é a exploração das fronteiras da escrita. Ali, como um personagem misturado à língua, ele passeia e escrevia-se-escrevendo.
Cito-o na carta 42, escrita em 1978:


produzo muito (meu projeto é de desrepressão, desovo, quero atingir algo, ergo,   erro muito... mas sei que quando acerto é de foder... eu já sei q várias vezes eu disse coisas nunca ditas , vitais, carne gorda e forte... para cada dez poemas, um mais ou menos... para cada 50 um definitivo...   


Dentro desta linha de pensar a “desrepressão”, Leminski, de maneira sutil, sugere algo daquela época ainda sob efeito dos anos de silêncio e ditadura, afinal era o final da década de 70. E ele adianta um preceito válido e inteligente para os nossos dias, ao afirmar que errar faz parte da experiência, ou como podemos ainda incluir, faz parte da errância da escrita.


Logo adiante, nessa mesma carta:


Uma coisa é certa: a poesia (como tudo o mais) não tem solução dentro do capitalismo. Quanto mais capitalismo, menos poesia, é só ver o que acontece no Brasil de hoje, das multinacionais, ‘milagres’ monetaristas, consumo feroz de bobagem num quadro onde os problemas fundamentais (alfabetização, alimentação, escolarização, e uma política cultural voltada para nossos interesses nacionais e populares, democracia, enfim)...


E ainda, retomando a carta 38, ele declarou:


A DITADURA ESVAZIOU A POESIA, VAMOS ENCHER
NEM SÓ DE BOAS INTENÇÕES VIVE A POESIA
A GERAÇÃO POSSÍVEL QUE NÃO DEIXOU A UTOPIA MORREU

Aqui escutamos o poeta antenado; um lúcido construtor além de transgressor da linguagem. Leminski deixa um legado importante como poeta de nosso tempo. E só temos a agradecer




Nenhum comentário:

Postar um comentário