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quarta-feira, 4 de janeiro de 2012

Roland Barthes: observações sobre o livro Diário de luto

Comprei no dia 2 de janeiro de 2012 o livro Diário de luto de Roland Barthes que a Martins Fontes editou em 2011, com o apoio da Mediateca da Maison de France. Na capa há um vibrante desenho que Barthes fez em 1977. Esta tradução realizada por Leyla Perrone-Moisés, a grande responsável pela divulgação do pensamento de Barthes no Brasil, também compõe a coleção Roland Barthes que reúne importantes obras do autor reeditadas e algumas inéditas (como é o caso dos Cursos do Collège de France).
Neste trabalho de escrita, Barthes redimensiona o luto recuperando aspectos importantes do trabalho do luto já tão estudado e documentado em Freud, especialmente no livro Luto e Melancolia.
O escritor anotou a tinta ou a lápis, em pequenas fichas, um diário que se monta aos pedaços, datando o texto no esforço físico que reforça o gesto de escrever desde “a primeira noite” de seu luto, em 26 de outubro de 1977.
Morte de mãe, morte do primeiro objeto amado. No caso de Barthes: a morte do ser amado!
Algumas afirmações freudianas podem ser encontradas em suas letras. Mas a pergunta que retorna ao leitor, de imediato, é sobre o tempo de duração de um luto. De fato, constatamos que o luto pode ser indeterminado. É preciso tempo para a experiência do luto, e na singularidade de cada sujeito. Relembramos Freud novamente, em carta a um amigo, quando após a morte de sua querida filha Sofia afirmou haver no luto uma impossibilidade de elaboração. Alguns lutos certamente guardam uma dificuldade maior, como é o caso da perda de um filho(a).
Embora Barthes pareça levantar discretas críticas ao luto descrito na Psicanálise, na verdade ele só faz afirmá-lo. São inúmeras as qualidades que encontrei neste importante livro, que podem nos ajudar a pensar (e mesmo a elaborar) o sofrimento vivido com a perda de uma pessoa amada.
O luto barthesiano, “um mal-estar contínuo”, nomeado também “um bloqueio”, “uma disponibilidade dolorosa”, parece esperar uma saída e, ainda assim, nomeando-se ao longo de muitas páginas, persegue o caminho de um luto... impossível: “trabalhar, acompanhado, colado à “presença da ausência”. Podemos sentir quando “o luto toma sua velocidade de cruzeiro...” e o escritor escreve seus pesadelos e seus choros.
Identificado a Marcel Proust nas páginas sobre a separação de sua mãe, Barthes repete sua dor descomedida: “(Como) o tempo é longo, sem ela.”.
Ao leitor, a tarefa nada fácil de segui-lo. E... perseverar – quem sabe – na saída de algum momento muito doloroso.

Rio, 04.01.2012.
Solange Rebuzzi




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