segunda-feira, 30 de julho de 2012

Matisse


                                           "A dança" (fragmento, óleo sobre tela), 1932-33.





Quando Matisse esculpiu os corpos das dançarinas
Moveu-os com os dedos mansos
Descubro
Que os dedos fortes de Matisse suavizam formas


Mais e mais redondas elas se tornam



Os corpos desenhados por Matisse são feitos em curvas
As dançarinas em roda brincam com o corpo em ângulos sinuosos

Algumas levantam as pernas alongadas
Qual uma ave que abre as penas das asas
                                                                Em voo solitário


As cores na palheta aguardam
Os azuis pedem os pelos dos pincéis longos
                                                             e... sonham essas carícias.



sábado, 28 de julho de 2012

Sob a névoa e poema (A bordo de um 737)




                                                    A bordo de um 737:


                                             Um vulto na janela. O horizonte decola surdos ruídos.
                                             Algumas luzes se apagam. Um certo bocejo vagueia em
                                             estrelas distantes. Praia do Flamengo, Cristo Redentor,
                                             Corcovado.

                                            (e não falarei das sombras, nem de nomes esquecidos).
                                            Sim, sim ainda há os estrondos dos vidros!


                                                   


                                                   (do livro Leblon, voz e chão. 2004)

quinta-feira, 26 de julho de 2012

Portas do mundo (Brasil, França, Espanha)





Inédito (publicado na revista Famigerado )


  Poema da madrugada

1

Perdida no metrô
ela marcha sem fronteiras
uma pressa sem
fronteiras
todos correm – correm
c’est par là – ah non – c’est
par ici
Ah, oui!

Todos têm pressa
uma pressa de todos os dias
todos os gestos
nos pés
poeira
outros povos
outros chãos

c’est par là
ah oui!
mais non
c’est par ici

(um sobe-e-desce
não mais de ruas e avenidas
no metrô
todas
as línguas!)

Et on voit des traces des horizons de l’azur curieux –
c’est bon le vent qui vient de la fenêtre
la clarté me stupéfie


2


A mulher sorri
alimenta o filho-bebê-indiano
olhos de vazia Amêndoa

L’Amande de Paul Celan
est là
dans ce moment au métro
et je suis là aussi
(com o olhar
pequeno e marrom)

A mulher reconhece em mim a mulher
do dia anterior
– à mesma hora:
15:15
na estação
Cité Universitaire

Mas como seguí-la agora
que desceu de repente?
Não saberei dizer o que faz
essa mulher e seu bebê
no trajeto do metrô
jusqu’à station St. Michel-
Notre Dame


(Amande: fruit en forme d’oeil, plein du secret de la mort.
Fruit en forme de larme - a écrit la poètesse Martine Broda)
Paris, 10 de março de 2005.


terça-feira, 17 de julho de 2012

Celan lê Freud / Celan lit Freud



Encontrei na internet, recentemente, um texto escrito por Jean Bollack que comenta versos de Paul Celan em uma análise densa, e os liga a textos freudianos sobre a Guerra de 1914-1918.
            Nuits de gris, préconsciemment froides,
            Noites de cinza, préconscientemente frias,
Na noite há a presença de uma noite sem cor, que também se reporta à “cinza” dos corpos incinerados. A materialidade da palavra carrega mais de um sentido e – em um giro – conseguimos ler o que o nome tem a dizer.
A noção de passagem com nuances ínfimas – “o cinza sob o cinza” – tanto quanto a palavra com sua materialidade precisam ser ditas e reditas.
            Ler... reler... tresler...
Além do Princípio do Prazer que estuda as neuroses de guerra, onde Freud anunciava algo da “compulsão à repetição” se afastando do “princípio do prazer”.
O horror vivido na Segunda Guerra, e o luto como o tom “cinza-sobre-cinza” dão o sinal
          Au-dessous de la conscience
                  (...  Et pas de paix)   
conforme o título deste poema de Celan
         Abaixo da consciência
                 (... E sem paz)
que traduzimos livremente, embora fique martelando na mente que os traumatismos da guerra sublinham a compulsão à repetição; “(... E sem paz)”.
Bollack considera que Freud acompanha Celan, pois há nos versos celanianos um redizer e uma re-escrita constante.

Agora,
Aproveito pra também dizer que a Guerra na Síria é uma presença. Não conseguimos vê-la direito mas, lá, eles matam diariamente a própria população que grita seu sofrimento ao mundo!
De um passo a outro,
indago: precisamos investir em armas bélicas no Brasil?

O relógio pulsa
A pulsão de morte
Situa-se no meio
                              Do horizonte da linguagem humana
A boca grita:
Leiam
Freud!


Rio de Janeiro, 16 de julho de 2012.




domingo, 15 de julho de 2012

Hélène Grimaud plays Bach


Relendo Freud
                       
São as 17 palavras ou expressões freudianas escolhidas e comentadas na interessante tradução de Marilene Carone, no livro Luto e Melancolia, que me movem a escrever agora.
O livro de capa dura brinca com as letras que se mostram em movimento nessa capa cinza que a editora CosacNaify nos oferta, em primeira reimpressão, 2012. O movimento que está inserido também no trabalho de linguagem que os textos “Melancolia e criação” de Maria Rita Kehl e “Uma ferida a sangrar-lhe a alma” de Urania Tourinho Peres, que participam do livro tanto quanto o clássico “Luto e melancolia” de Freud, (antigo conhecido), é o mesmo movimento que escutamos na clínica de nossos analisantes, que falam... falam... e, um dia percebem que se colocaram a mover a vida, movendo “as letras” de seus desejos.
Lentamente, abro um parêntese para dizer que o entusiasmo nessa leitura é grande.
Recebo essa tradução de Marilene Carone, discutindo dezessete momentos do texto de Freud, que vão desde o estado de ânimo do luto (fazendo a distinção com a disposição para o luto, conforme a tradução anterior equivocada) até um possível “cochilo de revisão” na tradução de ‘alternation’ para alternação, que é recuperado como “alternância”, do alemão abwechslung, claro!
Não fosse a tradutora também uma psicanalista, dificilmente encontraríamos as Notas sugeridas de leituras, outras que as de Freud, que podem vir a dar algum esclarecimento a mais ao texto “Luto e melancolia”. Alguns conceitos são recuperados como tais. E esse é o caso dos termos Kompromiss e Regredieren. Ambos os termos foram traduzidos de forma aleatória anteriormente e perderam o sentido primeiro. São palavras de raiz que dizem da 'formação de compromisso' e da 'regressão' (e não da 'transigência' e nem de 'retroceder').
Ler Freud é sempre inovador!


                                                                                   
                                                                      


Freud em sua mesa de trabalho. Londres, 1838.
                                          

sexta-feira, 13 de julho de 2012

Cidade de Annecy - França






Annecy possui uma história rica e mais antiga que a maioria das cidades dos Alpes franceses. Vestígios de vilas datando o período Neolítico (ou idade da pedra polida) foram encontrados próximos aos rios da região.[3]

Palácio de l'Isle
O primeiro povoado foi criado pelos romanos no século I a.C. e se chamava Boutae. Com a queda do Império Romano, a região se torna palco de várias invasões incluindo a dos povos germânicos, burgúndios e mais tarde dos francos, o que traz muita insegurança ao local. Os sobreviventes destas invasões se refugiaram nas colinas vizinhas, e foi somente noséculo XI que uma nova cidade começou a se formar nas margens do rio Thiou, próxima a uma torre de defesa e protegida por edificações que haviam sido construídas. Estas edificações se tornariam mais tarde o Castelo de Annecy.
Como Annecy está localizada entre Genebra e Chambéry, boa parte da sua história foi mais tarde fortemente influenciada por essas duas cidades, entre os séculos X e XIX. No século XII, uma casa fortificada foi construída em uma pequena ilha no meio do rio Thiou, edificação hoje conhecida como Palais de l'Ile (Palácio de l'Isle)
O lago de Annecy é um dos mais limpos do mundo, e o segundo maior da França. Uma verdadeira maravilha!

Obs: O material sobre a história de Annecy (acima) foi retirado do Wikepédia.
As fotos são de José Eduardo Barros.


quinta-feira, 5 de julho de 2012

Fragmento do livro 'Quase sem palavras' (7Letras, 2011)

A janela está aberta. O outono se inicia com as folhas das castanheiras avermelhando o verão. Os porteiros da rua juntam em montes as folhas. Arranham o chão em barulhos de vassoura e cimento. A louca senhora da redondeza trabalha sua rotina compulsiva: varre, varre, varre.
O que varre esta senhora? Inicia de repente no canto do muro, sem parar fica horas sem fim varrendo o mesmo espaço. Uma folha é uma folha arrastada pelo vento, molhada da aurora. Nem sempre corre no chão. Para de repente e logo recomeça. Leva montes de folhas em qualquer direção, subitamente desiste. Não há como penetrar os caminhos do absurdo.
Enrolada na manta verde do sofá da sala, respiro a impaciência do lugar onde me encontro. Vou até a cozinha, preparo uma massa para o almoço, com decisão. A mulher que varre os sonhos habita minha mente, em voltas e voltas.
Afinal, o que varre esta mulher?

terça-feira, 3 de julho de 2012

Eis o enquadre:

a rua é de pedra e de raízes são seus dedos a boca se firma entre
lábios cor de carne naturalmente abrem e fecham sem pestanejar
(os cílios castanhos)
ela olha os ônibus barulhentos que passam sua fumaça e o peso dos
corpos cansados no final do dia - sempre igual
os homens não se olham
respiram o suor com o peso que carregam na cabeça
os olhos fixos em qualquer lugar
sem pensamento os homens voltam pelas ruas presos ao corpo de
um ano atrás-do-outro uma guerra-atrás-da-outra

ela às vezes vê
os pés nas pedras do chão

sim, aquela que gosta de caminhar as cidades  os bairros  as ruas  as
esquinas  os cafés  as livrarias  os mercados  as calçadas  as poças
d'água
com as pupilas
que engolem

(poema do livro Estrangeira, 7Letras, 2010)