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quinta-feira, 31 de janeiro de 2013

Reflexão:


No outono,

o ar em movimento...
desejos tomam posse da mais profunda respiração
e alguns gestos carregam o mais distante de nossa humanidade (grega, judaica, cristã)?
Fixados nas pedras, os movimentos marcam uma memória sensorial muito antiga.

No poético encontro razões para me confrontar com o tempo,
a história, o desejo.
No movimento sempre relançado, a imagem em sua relação com o sonho nos apresenta sua questão.
A imagem de um sonho - até mesmo esquecida - em um relato que tenta desenhá-la, mas não consegue.
Resta apenas um gesto. Qualquer.

As imagens se desfazem.
A palavra restitui a memória na sua superfície legível.
Acaso, já pensamos que são as imagens que nos levam a "ver" o sonho (nestes espaços em branco
nos quais eles muitas vezes se mostram?)

Cabelos rabiscados de névoas




Revejo os pássaros da infância.
Costumávamos guardá-los no viveiro de arame.
Domingo, com as mãos ligeiras
eu gostava de ajudar meu pai.
Muitas p i p i r a s
beliscavam o mamão doce
naqueles dias incomparáveis de calor amazonense.
Cabelos - amarrados no rabo de cavalo – e ao sol a tarefa do brilho.

O verde da grama formigava.
Café da manhã prolongado: Suco de cupuaçu e de maracujá.
Realidade de gestos.
Bico vermelho, penas negras.
Pequeninas. Assustadas.
Elas sorriam nas duas faces do mamão aberto.
Recolhíamos os sons.
Guardávamos os pássaros
para soltá-los depois.

Cabelos rabiscados de névoas
e entre nós, nos dedos soltos, os gestos.






(poema do próximo livro)

terça-feira, 29 de janeiro de 2013

Santa Maria

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Rogai por nós, agora

e na hora da morte de tantos de nossos jovens.

Amém!



sábado, 26 de janeiro de 2013

Fragmento do Livro das areias

11.



A caminhada e um mergulho.
Percorro uma foto em duas cores. Um corpo leve.
Saído do frio.
A nudez não tem eixo.
O corpo sim. Esse pode se dividir em partes e ser
visualizado aos poucos.
A nudez embaça. Incorpora emoções e o olhar
padece de algum mal que nos conforta com o que vê,
e, é apenas isso.
Um detalhe pode ser o centro de uma imagem, uma
só imagem.
O corpo de lado comparece em ângulos. Os joelhos
dobrados qual folha de papel e bem perto da janela
compõem a cena.
A janela verde, aquela que se abre ao lado do mar e 
perto da pracinha logo acima da rua de barro, deixa
ver o vento sujo de poeira.

(publicado no Livro das areias, 2012)

Passeio na orla do mar



                                           Para Oliverio Girondo


De manhã um passeio na praia povoada.
Super povoada.

Pernas e mais pernas nas areias.
E braços e cabeças em tumulto.

Muito azul e alguma coisa cinza.

Não há sombra. No ritmo da caminhada de algumas mulheres o horizonte do corpo e o algodão da estação se incorporam.

Por quase nada, um gole de água de coco pode acender o desejo.

Os homens em bando jogam vôlei e futebol.
O céu cinza finca o tempo e as horas.

O mar
essa água metade sal e metade vento
afoba e abafa os vícios de verão.

Muito azul! Alguma coisa gris?

O mar grita.

Na voz do mar
uma tortura,
um sonido distante
:
muito azul e muito cinza.


(publicado no livro Estrangeira, 2010)

sexta-feira, 25 de janeiro de 2013

Nunca mais

Nunca mais



Sonhei que o mar
                     avançava pela sala
                                             e as pedras
                                                     suportavam

                                                      nossa velhice


Há sinais de peixes
                     no universo?

Um osso mergulhado
              na lacuna do tempo


E as nuvens tão azuis
e as heras tão verdes
                me seguem


Em revoada
os corvos
              anoitecem




(publicado no livro Pó de borboleta, em 2002)
       

quinta-feira, 17 de janeiro de 2013

Inverno em Paris - 2009






Parc Montsouris
Fotos de José Eduardo Barros

sábado, 12 de janeiro de 2013

Impressionismo no Rio de Janeiro


Crônica de uma visita

Recebi o telefonema nesta manhã de sábado. Ela estava eufórica porque havia conseguido ver a exposição do Centro Cultural Banco do Brasil que termina amanhã.
Foi logo me contando que a fila estava bastante grande, mas a sua filha cuidara deste desconforto esperando em pé durante três horas e, depois, ambas conseguiram adentrar a exposição tão desejada, na qual permaneceram por quarenta minutos preciosos diante das obras de Manet, Pissaro, Cézanne, Degas, Monet e Renoir entre outros. Relatou-me detalhes de tudo, desde a moldura dos quadros até o efeito estético que a exposição causava na maneira como estavam as obras dispostas. "Uma maravilha!"
Então, vieram os comentários com os detalhes vividos na fila de espera.
Um senhor idoso, que estava colocado logo atrás delas, nunca havia ido a um museu antes. Portanto, como ele nunca havia visto uma exposição perguntou a ela se estava acostumada a ver coisas assim tão especiais. Ela saiu contando dos museus existentes na cidade, e dos que ainda estavam por vir. Encantado esse senhor muito humilde perguntava mais e mais. Ouviu estarrecido que ali bem perto existia a Casa França Brasil, onde ele também podia ir conhecer e ver exposições interessantes, além do Espaço Cultural da Caixa e o Paço Imperial.
Depois de ouvir com atenção, o tal senhor perguntou se ela conhecia o angu do Gomes porque era uma delícia, e insistiu que ela precisava conhecer. Acrescentou que a Feira de S. Cristóvão também era especial, e que ele estava mesmo muito curioso com essa exposição, mas que seu sonho, agora, era ir ao cinema e assistir a um filme deitado, já que ficara sabendo que essa era a novidade do momento.
A senhora idosa, um pouco sem jeito, disse que ainda não fizera tal experiência, mas achava que valeria a pena. Despediram-se com a fila andando e as cores vivas das telas dos impressionistas surgindo de forma surpreendente.
Em silêncio, ela seguiu guardando seu espanto com esse diálogo tão carioca, e fora da esfera mais conhecida de seu ambiente social.
Só pra lembrar repito o que ouvi no final do telefonema:
Hoje a exposição “Impressionismo: Paris e a modernidade” está aberta até bem tarde e vale muito a pena!
"Eles estão fazendo aqui como os franceses fazem lá: a noite dos museus!"
                                                                                            

                                                                                                                                                         Rio de Janeiro, 12/01/2013.


Homenagem a Rubem Braga.

Hélène Grimaud - Beethoven - Piano Sonata Nº31 Op110