sexta-feira, 29 de março de 2013

Rememorando: Café letrado na Mediateca (2007 e 2008)

                               Os convidados: o poeta Régis Bonvicino e o cineasta Bebeto Abrantes.

                                                 Poetas e amigos entre o público presente.
                               O poeta Heitor Ferraz (a esquerda) e o editor Jorge Viveiros da 7Letras
             José Eduardo Barros, o poeta Bonvicino (ao centro) e Solange (organizadora do evento)
                                O poeta Jean-Marie Gleize, o tradutor (ao centro) e o poeta Michel Deguy.
A poeta e editora Laure Limongi.

           O poeta Rogério Luz (ao centro) e o diretor da Mediateca na época, Jérémie Desjardins (de pé)
fazendo a apresentação do Evento Café Letrado.




Logomarca de Guto Lins.

Fotos de Rafael Viegas.

domingo, 24 de março de 2013

Poema do livro Estrangeira


No metrô
O homem de olhar oblíquo não dissimula nada. O inverno havia terminado em Paris. As flores nos canteiros dos parques davam sinais de claridade. Os jardineiros habituados em plantá-las agem rápido, e vestem nossos olhares.
No vagão do metrô, um senhor de alguma idade e nenhum banho incomoda imenso. Os passageiros descem tropeçando na primeira estação tão logo a porta se abre. Alguns jovens destemidos tapam o nariz ao entrar. Ninguém fica impune neste vagão de metrô. O cheiro de um homem invade narinas, olhos, bocas...
Ele veste calças rasgadas de tecido grosso, o suficiente. Na mistura dos cheiros exala o suor antigo. Um raro odor brota de seu corpo imenso.
Na língua estrangeira expressa palavras roucas, e diz que é um homem que não faz mal a ninguém.

(Ainda pude perceber a cor das unhas).

O homem de olhar oblíquo nada dissimula?




OBS:
Publicado pela primeira vez no Portal Cronópios, e, depois no livro Estrangeira ed. 7Letras, 2010.

domingo, 17 de março de 2013

Poema do livro "Estrangeira"


Quatro momentos com variações

1.
Era o que lhe restava: a mesma dor de cabeça de sempre e os pés encharcados. Saiu. Ao voltar, retornou pelo caminho oposto ao que costuma fazer com frequência. Na calçada, bem próximo ao restaurante da esquina, mulheres. Sentadas. Em bandos. Não são ciganas. As saias sujas e as pernas expostas deixam ver a pele picada de insetos.
Procurou escapar. Atravessou a rua pelo canto da calçada em diagonal. Uma enorme poça d’água se interpôs. Os carros colados uns aos outros. Quase não conseguiu espaço para o corpo que precisava chegar ao outro lado da calçada.

2.
Pensou em Mariana que encontrara há pouco. Um sorriso sem manchas. Não estampava nada na face. Próximo ao olho direito persiste um vinco. É uma prega funda. (Tal qual a da saia que usávamos no colégio na década de sessenta.)
Não posso perguntar nada. Mas os ruídos do comércio naquele bairro inventam uma força no corpo.

3.
Nem bem se arrumou, depois do banho da manhã, começou a correr. O trabalho exige. Escutar. Deixar-se ouvir. Frear as formas do rápido demais ou ainda do que cresce depressa.
O processo atravessa. Corre. Talhado no vento, às vezes em passos lentos. Não fosse a estrada de mais de mil direções, diríamos que se repete.

4.
As casas na madrugada são como as ruas. Quase sempre silenciosas. Os corpos respiram. Não se movimentam. Os músculos deitados saboreiam outras histórias. Relaxam. Mas há a paisagem vaga. O sono que não acontece. O corpo doído. Doente.
Os restos encontrados ao relento.
As cidades permitem muito. As pedras da calçada, entre as frestas e as areias, suportam o rumor e as bebedeiras do bairro. Sonham. Abafam tristezas.

Em Barcelona as espanholas, ruidosas e coloridas, devoram  a arte e as ruas.
Barcelona canta e canta de gente.
Cidade velha.
Una canción maligna que nos ensordece.



sexta-feira, 15 de março de 2013

Luz-farol

                             
A pequenina luz piscava. Entre o sono e o acordar suspirei, afinal, eu não estava em alto mar. E não era um farol! Aliviada, percebi o vaga-lume que voava intermitente pelas paredes de meu quarto.
Uauá do tupi. Pirilampo do grego. Aquele que leva ou conduz o fogo, o calor. Do latim lampyride.
No verão sobrevive um ano ou mais.

O caga-lume riscou o vazio da janela.


domingo, 10 de março de 2013

Anselm Kiefer

Anselm Kiefer

Livro com Asas de Anselm Kiefer

Anselm Kiefer
Buch mit Flügeln (Book with Wings), 1992-94
Lead, steel, and tin
Collection of the Modern Art Museum of Fort Worth, Museum purchase, Sid W. Richardson Foundation Endowment Fund
© Anselm Kiefer

Source: http://www.sfmoma.org/exhib_events/exhibitions/234#ixzz2NBEcdjuF
San Francisco Museum of Modern Art





O trabalho de Kiefer sob inspiração de alguns versos do poeta de língua alemã Paul Celan recupera - em fragmentos - as histórias contadas pelos judeus, sobreviventes de Auschwitz.
São os "cabelos de cinza de Sulamita" ou "os cabelos de ouro de Margarete", soltos em algumas telas de Kiefer, que trazem a referência evocada em versos de Celan, nos quais a poesia “testemunha a presença do humano – à majestade do absurdo”.[1]




[1] CELAN, Paul. O Meridiano. Op. Cit. p. 46.


sábado, 9 de março de 2013

Mulheres

Aquela mulher de rosa
brinca de boneca
e faz de conta que é mulher.

A mulher de verde
- os olhos míopes-
da janela deixa escapar os sonhos.

Aquela mulher de vermelho
salto alto
um vaga-lume
pisca.

A mulher de cinza
olhos pretos
desistiu.

Outras tantas
douradas ou brancas
negras, azuis, adoradas
venenosas
e amarelas,

De seda ou bordada
mulher rasgada.
Mulher,
infinitas.



Publicado na Antologia Poesia Viva em 1995. 

sexta-feira, 8 de março de 2013

Homenagens à mulheres especiais

Ficheiro:Salome1.jpg

Lou Andreas-Salomé, nasceu em São Petersburgo em 1831. Escritora e psicanalista. Conviveu com Freud com quem tem correspondências trocadas. Amou e foi amada por Rilke e Nietzsche. Dizem que Tausk e, até mesmo, Wagner sucumbiram ao seu encanto e à alegria de viver. Casou-se duas vezes. Morreu aos 75 anos.
"Assim, para quem ama, o amor, por muito tempo e pela vida afora, é solidão, isolamento, cada vez mais intenso e profundo. O amor, antes de tudo, não é o que se chama entregar-se, confundir-se, unir-se a outra pessoa. (...) O amor é uma ocasião sublime para o indivíduo amadurecer, tornar-se algo por si mesmo, tornar-se um mundo para si, por causa de um outro ser: é uma grande e ilimitada exigência que se lhe faz, uma escolha e um chamado para longe."



                                             (foto do site www.biografy.com - Anna Freud biografy)
Anna Freud, nasceu em Viena, Áustria, em 1895. É a sexta e última filha de Freud e Martha, e se dedicou aos estudos da psicanálise especialmente com crianças. Fundou sua própria clínica em 1952. Publicou diversos livros e escreveu até o fim de sua vida. Foi companheira de Freud em algumas de suas viagens ao sul da Itália. Morreu em Londres em 1982.
Com Lou Andreas-Salomé encontramos A l'ombre du père: Correspondance1919-1937 (Na sombra do pai: Correspondência 1919-1937, Editora Hachette, 2006 (ISBN 2012357288).



Alma Mahler nasceu em Viena em 1879 e morreu em Nova Iorque em 1964. Ao casar-se com o músico Gustav Mahler surpreendeu a todos. Depois da morte de Mahler, casou-se com o arquiteto alemão Walter Gropius e, depois, aos cinquenta nos com o poeta judeu Franz Werkel. Foi a musa inspiradora de muitos gênios de sua época, entre eles, Gustav Klint. 



Maria Helena Vieira da Silva, pintora portuguesa. Nasceu em Lisboa em 1908 e morreu em Paris em 1992. Em 1930 casou-se com o pintor húngaro Árpád Szenes. O casal residiu por um longo tempo no Brasil durante a Segunda Guerra e no pós-Guerra. Ambos exerceram influência entre nossos pintores. Hoje, sua belíssima pintura está consagrada. 



quinta-feira, 7 de março de 2013

Cecília Meireles - homenagem pelo dia internacional da mulher!



Motivo


Eu canto porque o instante existe
e a minha vida está completa.
Não sou alegre nem sou triste:
sou poeta.


Irmão das coisas fugidias,
não sinto gozo nem tormento.
Atravesso noites e dias
no vento.


Se desmorono ou se edifico,
se permaneço ou me desfaço,
— não sei, não sei. Não sei se fico
ou passo.


Sei que canto. E a canção é tudo.
Tem sangue eterno a asa ritmada.
E um dia sei que estarei mudo:
— mais nada.
































Aprendi com as Primaveras a me deixar cortar para poder voltar sempre inteira.
Cecília Meireles

Nasceu em 1901 na cidade do Rio de Janeiro e morreu em 1964.
Casou-se duas vezes. Fundou a primeira biblioteca infantil do Rio de Janeiro, em 1934.
Devo dizer que com Cecília vivi momentos únicos de leituras sensíveis ainda na minha adolescência.


PS. o recorte da imagem com as fotos múltiplas foi retirado da internet.

sábado, 2 de março de 2013

Grândola Vila Morena - Homenagem a Portugal em suas inúmeras manifestações no dia de hoje



Os brasileiros precisam saber que hoje, dia 2 de março de 2013, aconteceram inúmeras
manifestações nas cidades portuguesas. O povo se manifestou contra o atual estado das
coisas no país, e cantou o "hino", assim nomeado, "Grândola Vila Morena" como
fizeram no passado, na Revolução dos Cravos.