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domingo, 17 de março de 2013

Poema do livro "Estrangeira"


Quatro momentos com variações

1.
Era o que lhe restava: a mesma dor de cabeça de sempre e os pés encharcados. Saiu. Ao voltar, retornou pelo caminho oposto ao que costuma fazer com frequência. Na calçada, bem próximo ao restaurante da esquina, mulheres. Sentadas. Em bandos. Não são ciganas. As saias sujas e as pernas expostas deixam ver a pele picada de insetos.
Procurou escapar. Atravessou a rua pelo canto da calçada em diagonal. Uma enorme poça d’água se interpôs. Os carros colados uns aos outros. Quase não conseguiu espaço para o corpo que precisava chegar ao outro lado da calçada.

2.
Pensou em Mariana que encontrara há pouco. Um sorriso sem manchas. Não estampava nada na face. Próximo ao olho direito persiste um vinco. É uma prega funda. (Tal qual a da saia que usávamos no colégio na década de sessenta.)
Não posso perguntar nada. Mas os ruídos do comércio naquele bairro inventam uma força no corpo.

3.
Nem bem se arrumou, depois do banho da manhã, começou a correr. O trabalho exige. Escutar. Deixar-se ouvir. Frear as formas do rápido demais ou ainda do que cresce depressa.
O processo atravessa. Corre. Talhado no vento, às vezes em passos lentos. Não fosse a estrada de mais de mil direções, diríamos que se repete.

4.
As casas na madrugada são como as ruas. Quase sempre silenciosas. Os corpos respiram. Não se movimentam. Os músculos deitados saboreiam outras histórias. Relaxam. Mas há a paisagem vaga. O sono que não acontece. O corpo doído. Doente.
Os restos encontrados ao relento.
As cidades permitem muito. As pedras da calçada, entre as frestas e as areias, suportam o rumor e as bebedeiras do bairro. Sonham. Abafam tristezas.

Em Barcelona as espanholas, ruidosas e coloridas, devoram  a arte e as ruas.
Barcelona canta e canta de gente.
Cidade velha.
Una canción maligna que nos ensordece.



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