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sexta-feira, 17 de janeiro de 2014

Fragmento do Livro das areias - " Os corpos"

No Tarumã quase não havia praias.
O ‘Banho’ (como se costumava dizer) pertencia aos
índios da tribo dos Tucanos, e ficava bastante
afastado da cidade. Longe.
Era o passeio do final de semana nos dias de sol.
Quase sempre encoberto pelas águas cheias, o rio
Tarumã dava nome ao local e era escuro como o rio
Negro. Na beira, bem na beirinha, as areias brancas
abriam o fundo que a cor das águas clareava,
em tom amarelado. Eu gostava de olhar os meus pés,
ali, dentro das águas mornas desse rio-igarapé.
De maiô inteiro minha mãe passeia de mãos atadas
com meu irmão, ainda muito pequeno. Foto em
preto e branco.
Minha irmã e eu seguimos nosso pai. Às vezes,
era preciso atravessar de canoa e, outras vezes,
resolvíamos nadar. Segurávamos no ombro dele.
Eu me apoiava de leve, buscando boiar.
No outro lado do rio moravam os índios da família
Laureano. Todos da tribo dos Tucanos, que por ali
habitavam há alguns anos.
[114]

Os homens de uma cor avermelhada e marrom eram
muito queimados do sol. As mulheres me pareciam
amarelas sempre um pouco sujas da rotina diária.
Em geral carregavam os filhos enrolados no corpo,
na frente ou de lado.
Essa família, com muitos e fartos filhos, morava em
uma maloca redonda, que, de longe, parecia quadrada.
Ainda sinto o cheiro da palha seca no telhado
e da terra viva molhada nos pés, em dias de chuva
de verão.
O chão batido segurava estacas. Grossas. Elas fincavam
a vida daquela família ao redor. Ali nasciam,
pescavam, se banhavam, amavam e morriam. Não
sei dizer se algum deles foi estudar por perto. Acho
que sim. Foram nomeados como uma tribo civilizada.
Dois dos filhos do Seu Laureano foram batizados
por meus pais, recebendo nomes cristãos.
Lembro-me bem da Maria. Mínima. Minha mãe
dizia que eu também havia nascido do tamanho de
uma caixa de sapatos.
[115]

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