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sábado, 25 de janeiro de 2014

Poema do novo livro Outonos - no prelo


Poema para uma gata

                                         a Jacques Roubaud

 
Aos animais é dada a morte bem cedo.

Aos gatos que escovamos e observamos os olhos se fecharem, aos cães, pequeninos, os que carregamos como a um filho, damos alimento, proteção.

Na vida, os bichos gemem, comem. Dormem. E nos observam. Andam junto ao assoalho. Conhecem os cheiros, as sombras.

Os olhos vazam nossos ossos. Saboreiam intimidades.

Duque gostava das torradas que meu pai lhe lançava todas as tardes.

Coringa corria solto nas noites quentes de Manaus até a casa silenciar.

 

Quando um animal morre, enterra-se.

Na escrita um pelo se instala.

E na história da Gata Mostarda, que escovávamos quase todos os dias,
um cão de raça pequenina e amiga surge rente ao chão.

Sentada no Limbo a observar de bem longe, ela bebe em silêncio nossos segredos íntimos.

Quando somos gata, não somos cão.

Os olhos vazam nossos olhos.

Gemem. Comem. Dormem. Perseguem cheiros.         

Quando somos cão, não somos gata.

 
 
       Foto de José Eduardo Barros em Nova York em 1996.
 
 
 

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