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sábado, 1 de março de 2014

Freud com Gradiva: entre o psicanalista e o escritor...

Freud com Gradiva... e
Gradiva verão
 
 
Se é na escrita que está "a verdadeira vida do sonho" como nos lembra Edmundo Gómez Mango, no livro Freud com os escritores (Três estrelas. São Paulo, 2013), pois "o escritor  é capaz de recuperar, na língua, a vida secreta do sonho", temos cada vez mais que  agradecer a Freud. O que ele pensou, teorizou e escreveu sobre a paisagem psíquica humana foi, também, um desvelamento da tarefa realizada por um pesquisador.
O ensaio "Com a Gradiva" escrito por J.-B. Pontalis participa do livro Freud com os escritores firmando alguns laços entre a psicanálise  e a literatura. Agradeço o ensejo dos dois psicanalistas e relembro aos leitores que, recentemente, lancei o pequenino Gradiva verão pela Lumme editor (São Paulo, 2013). Com muita alegria pude encontrar no texto de Pontalis sobre a personagem Gradiva algumas ponderações que participam de meu livro.
Cito Pontalis:
 
É como se a Gradiva calcasse seus passos nos dele [Freud] e, com isso, a ciência laboriosa  adquirisse a leveza de uma moça maliciosa e detentora de um único saber que a psicanálise gostaria de almejar : o saber de amor. (Freud com os escritores, p. 139)
 
A cena das caminhadas de Gradiva, já conhecida dos leitores de Freud, pode ser estendida em nossa memória. É sabida a paixão de Freud pela arqueologia. "E Freud observa o fragmento, como o de Gradiva, que carrega na imagem algo do arcaico da humanidade".
(Gradiva verão, p.22)
 
O livro da editora Três estrelas acompanha Freud em seus escritos habitados por escritores, nomeados "companheiros de viagem", e apresenta uma bela capa em p/b com a imagem de Freud, em pé, olhando a obra de Oscar Nemom feita em 1932: o busto em pedra esculpido; o olhar parado, firme e sem retoque.
Cada um de nós pode procurar o arcaico da humanidade em traços que se mostram nas obras de arte. Mas:
 
Ela, a nossa Gradiva, - uma imagem feminina em deslocamento - comporta algo do mistério da mulher. Pode-se perfeitamente reconhecer que a pergunta de Freud sobre a mulher permanece em aberto:
- Para onde caminha uma mulher que caminha?
(Gradiva verão, p.25) 
 
Pontalis afirma que "tudo que julgamos perdido pode ser trazido de volta à luz do dia", mas pondera: "Pedras, sim, mas com a condição de que falem!" ( Freud com os escritores, p. 142)
 
Entre o psicanalista e o escritor assim como nos passos de Gradiva, aquela que avança, encontramos motivo para novas leituras!
 
 
 
 
 ***
J.-B. Pontalis (1924-2013). É filósofo e psicanalista. Escreveu, entre outros, Perder de vista (Zahar, 1991), À margem dos dias (Primavera editorial, 2012). Foi organizador de Vocabulário da psicanálise (Martins ed. 2001).

Edmundo Gómez Mango (1940). Prof. de literatura, psiquiatra e psicanalista. Escreveu La place des mères (1999), La mort enfant (2003), Un muet dans la langue (2009),  publicados pela Gallimard.

Tradução de André Telles 
 

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