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domingo, 30 de março de 2014

"Gradiva verão" de Solange Rebuzzi





GRADIVA
corre em meu corpo quente
Em passadas largas
procura escapar das chamas
Do outro lado da calçada
Ela descobre um olhar
Pisca
Avança em movimentos
ondulados
Quer correr, mas apenas caminha


A alguns passos, talvez dez, descubro que o corpo de
uma mulher de biquíni pode pertencer à natureza
tanto quanto  a areia pertence ao mar. Em solidão,
a figura se mistura às ondas do mar e o olhar se perde.
No detalhe, um pé ou um dorso podem trazer
lembranças de intimidade.


Ele parece estar distante quando se move entre  as
páginas de um livro.



Quando Matisse esculpiu os corpos das dançarinas
Moveu-os com os dedos mansos
Descubro
Que os dedos fortes de Matisse suavizam formas

Mais e mais redondas elas se tornam



Diante de inúmeras garrafas cheias de flores, Matisse
plantava seu jardim sobre a mesa onde trabalhava
durante horas. Possivelmente, eram as mesmas flores
que ele colhia no jardim e colocava na curva do braço,
uma após outra, ao acaso.



(De cabelos grisalhos e sem sorrir o homem a quem
dedico estas linhas pode muito bem revelar uma
verdade invisível
Costuma dizer algo do olhar mais escondido
capturando-o no ponto onde a máquina e o homem
se tocam)!


pgs. 55-57 do livro Gradiva verão

2 comentários:

  1. SOLANGE,

    sou seu mais novo seguidor.

    A narrativa estava me recolocando na imensidão perdida da mais necessária introspecção, enquanto você lia.

    Eu filho incomodado desta barulheira citadina e espectador aborrecido das incursões policias e tiroteios com a marginalia de plantão, sôfrego entre descargas inconvenientes dos motores fumacentos de carros ,carros, carros...

    Malditos financiamentos em sessenta meses, seiscentos anos, seis mil séculos, entupiram as ruas, atravancaram o trânsito, poluem até as vísceras sagradas da mulher gravida!

    Penetram em cada entranha, coisa monstruosa esta barulheira infernal destas mais diversas formas de poluição do nosso Rio de Janeiro.

    E você Solange fez tudo certo.

    Escolheu o melhor lugar, sentou-se com a elegância das princesas etíopes em grande estilo, começando a me entusiasmar à medida que ia avançando o texto.

    E no final, no grande final, nisto que já considerava o momento culminante de mais uma apresentação de gala do Cirque du Solei,
    majestoso, perfeito, impecável!

    Eis que, um monstro surge, um monstro voador, destes que ao contrário da maioria nas cidades não rodam nas ruas , mas sim, no mesmo céu do sol generoso que me leva para a praia..

    Um indesejável poluidor sonoro, um troço voador indesejável, uma quinquilharia que voou sobre a sua cabeça, calma, elegância de um texto até então belíssimo.

    A poluição sonora abafou sua voz, calou minha emoção, e eu que geralmente envergo mais não quebro, quebrei.

    Não consegui ouvir a maior parte do final.

    Monstro poluidor indesejável, força do mal, avalanche da gang organizada dos estraga prazeres!

    Nem adiantava torcer para que aquele helicoptero,avião ou nave espacial perdida sobre a sua cabeça caísse, pois ,estava gravado, irremediavelmente marcada pela destruição destas surpresas que a urbanidade letal nos proporcionam.

    Não entendi o final,sou indesejável fruto entre máquinas fumaças e algazarras da minha cidade.

    Que pena!

    Seria tão bom se você pudesse mandar este texto.

    É pedir demais, mas quem sabe ao visitar meus blogues num destes silêncios da madrugada, possa obter de você a generosidade que a cidade me tem negado, sistematicamente.

    Um abração carioca.

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    1. Obrigada, Paulo, pelo seu comentário tão sincero e pertinente!
      Foi exatamente isso que aconteceu. A leitura foi interrompida pelos helicópteros "míopes" desta nossa cidade.

      Um abraço da Solange
      PS. vou colocar o fragmento do texto lido no meu blog.

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