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sábado, 26 de julho de 2014

Héctor Libertella - "O mesmo"


O mesmo

um mundo no qual sonhar e estar desperto se mesclam, sim, mas se são literalmente equivalentes.
            No gueto, por exemplo, alguém troca sonho por realidade. Acocorado na porta do bar, um homem dorme. Trata-se do único guardião da praça. Seu sonho é tudo o que o rodeia: ali observa os olhos bem abertos dos paroquianos, dirigidos à árvore de Saussure. Enquanto a árvore, não representa nada para ele (o sonho não é, como em Góngora, autor de representações). é a árvore que lhe aparece. No realismo último e extremo as coisas têm, consequentemente, uma presença extrema, extraordinária.
            Enquanto dorme, o guardião sabe que as coisas cotidianas que o rodeiam são igualmente extraordinárias. Não é preciso aumentá-las com a lupa do olhar (leitura).


ANALOGIA. Em “Pierre Menard, autor de Quixote”, Borges se esforça por encontrar uma diferença no seio do mesmo.  O Quixote de Menard é igual, letra a letra, ao de Cervantes, mas diferente, e Borges se encarrega de marcar essa diferença em dois achados. 1) Escrito trezentos anos depois, o Quixote de Menard é arcaico e afetado em comparação com o idioma natural e desenfadado de Cervantes na sua época, 2) A história é mãe da verdade em Cervantes, é o que está acontecendo. Em Menard é o que ele julga que aconteceu. se fez duvidosa; anos depois: interpretação.


HOMOLOGIA. No gueto, por outro lado, não existe a analogia, essecotejar versões”. Em todo caso, uma vaga homologia. Ali o sonho é como a vigília no Quixote de Menard em relação a Cervantes. São o mesmo que não se compara.


TAUTOLOGIA. O único sonho do guardião da praça não admite a diferença. Os “restos diurnosque vestem e revestem seu sonho não são restos, simplesmente porque ele dorme de dia e com os olhos abertos. Dorme a sesta (Macedônio Fernandez: a Siesta Evidencial) e nesse sonho tudo é evidente. Ele não tem que decifrar nenhuma mensagem, nenhuma lenda escrita comoutra vez Macedônio – “os pés de tinta china da sesta”.   
            Tampouco o sonhooutra vez Góngora – é para ele umteatro sobre o vento armado”. Não está armado porque não é teatro.
            Em relação ao vento, nãometáfora: agora no seu sonho de olhos abertos o guardião que começou a soprar vento na praça.



Héctor Libertella.
El árbol de Saussure. Una utopía.
Adriana Hidalgo editora (pgs. 71-73)

Tradução: Solange Rebuzzi
Rio de Janeiro. Verão de 2009.





Ps. recebi da poeta Tamara Kamenszain em 2009 um "regalo", o livro do escritor argentino Héctor Libertella. Em seguida traduzi o fragmento acima que, agora, publico no meu blog.

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