domingo, 31 de agosto de 2014

A figura do pai na obra Dois Irmãos de Milton Hatoum


                                 Dedico meu texto aos habitantes do sul do Líbano
                           (e a meu pai, que sempre amou o Amazonas!)



“Estava envelhecendo, o Halim: uns setenta e tantos, quase oitenta, nem ele sabia o dia e o ano do nascimento. Dizia: “Nasci no fim do século passado, em algum dia de janeiro... A vantagem é que vou envelhecendo sem saber minha idade: sina de imigrante.”   


A sina é de imigrante e um certo não saber é a vantagem da “idade” chegando, em país estrangeiro. Um estranhamento com datas, e determinado, possivelmente, pelas mudanças oriundas da língua e por um calendário que anda diferente, pois carrega a vida “menos sazonal e estabelecida do que a vida em casa”,[1] já que o exílio é a vida descentrada.  
            Descrever o personagem de um livro é tarefa difícil. E encontrar os significantes que possam defini-lo me parece ser um caminho distinto do meu projeto neste texto. Decido investigar a questão sobre a figura paterna, indo ao encontro de Halim, este que é o pai de três filhos – os gêmeos Osmar e Yaqub, e Rânia, na obra Dois Irmãos de Milton Hatoum.
            Priorizo escutar as vozes do escrito, especialmente a voz de um pai: 


“... um pai...eu nunca soube o que significa... não conheci nem pai nem mãe... vim para o Brasil com um tio, o Fadel. Eu tinha uns doze anos... ele foi embora, desapareceu, me deixou sozinho num quarto da Pensão do Oriente... me agarrei na Zana, quis tudo... até o impossível.” 


No papel do narrador está algo da errância que a escrita experimenta ao se fazer obra. Digo que o narrador, no texto, faz a sua própria travessia. São narrativas de memória que a voz deslocada do autor vai confirmando, em sua estrangeiridade, ao longo dos temas que aborda: a dor, o exílio, a infância, a migração, a vida manauara em certa época (ao redor das décadas de 50 e 60). E a nós, leitores atentos, essa voz revela-se em trânsito, no encontro desencontrado com este imigrante – Halim, que anda ao encalço da voz estrangeira na esteira das histórias e dos versos contados, ou escritos pelas mãos do poeta Abbas, um personagem que assim como ele vivia navegando no Amazonas.
          Hatoum compõe sua trama e faz conviver memórias em desarmonia. Elas nos chegam com detalhes, enquanto nos comovemos com a história de imigrantes libaneses que vieram viver em Manaus. As cenas recortadas pela escrita compõem os cheiros e delicadezas desde “o bafo de anis na boca, e um ou dois dísticos de amor na ponta língua”[2] até o vento que entra pela fresta de “uma janelinha que dá para o rio negro”,[3] onde “uma brisa soprava do rio trazendo o pitiú de peixe, o cheiro de frutas e pimenta”. Somos capturados pelos nossos sentidos, que nos abrem um mundo de sutilezas e gostos, inclusive os insabidos. Um mundo onde não há Oriente nem Ocidente porque o que sentimos, antes de tudo, é da ordem do humano. Tanto quanto no conto As Mil e uma noites, nas histórias que carregam muitos fios, nós somos capturados pela memória inventiva que nos atravessa.
         Retomemos o fio...
         Halim constituiu família em Manaus casando-se com Zana, a filha de olhos grandes de Galib, o dono de um restaurante na cidade no início do século XX, local de encontro de imigrantes libaneses, sírios e judeus marroquinos, que viviam perto da Praça N. Sra. dos Remédios, nesta época.         
          Foi com a escrita em árabe – um gazal[4] de quinze dísticos rimados – e ofertados a Zana, em meio ao alvoroço do almoço de um sábado, que se oficializou esta relação amorosa. O fato foi vivido como uma revelação, e assim é relatado em meio a outros tantos que acontecem  “em dias esparsos aos pedaços”, como “retalhos de um tecido “sonoro””, que nomeiam Halim: “um flâneur da província”, que gostava de pitar o bico do narguilé, contando e recontando suas histórias.  
Repito que ele gostava de dizer os versos do poeta Abbas:  “algaravias do desejo” com espaços de “silêncios projetados na fumaça que nublava seu rosto,” no intervalo preciso, e, concomitantemente ao sumiço da voz.
         Pergunto:
         Onde procuramos os traços de uma memória de travessia? Jacques Derrida nos ensina que “nunca se fala mais que uma língua”[5] e “nunca se fala uma só língua”.[6] Recebemos no corpo as marcas que podem permanecer como feridas inscritas em nosso corpo. E estamos falando e nomeando, inclusive, o corpo da língua e a escrita.          
De um pai, desde este lugar estranho-estrangeiro, algumas expressões e comportamentos comovem. Alguma coisa que passa invisível, lentamente, e pode ser transmitida pela “diagonal do tempo”,[7] “do pai do pai”,[8] ou conforme dizemos na psicanálise, como um traço identificatório (inconsciente) que pode ser levado de uma geração a outra, pela voz de um pai, por exemplo.
        Quando o autor Milton Hatoum declara em entrevista que, escreve, faz e refaz seu texto, recortando palavras e excluindo trechos, até definir-se com as que, ao seu olhar, conseguem traduzir algo também de uma perda, podemos considerar que o que trabalha no escrito desse autor, obriga-o, e dá a direção ao texto, pois a voz de um escrito se impõe.  
         O pai Halim está apresentado ao leitor, de forma diferente na relação com cada filho. E quando surge no lugar do pai do pai, ou seja, do avô, aparece mais liberto e mais aberto em suas considerações e memórias. Recolhemos as palavras ditas pelo neto, o narrador que nos fala (contando momentos difíceis vividos logo após a morte de Galib, o pai de Zana): 


“Deitados na rede, conversavam sobre Galid, a infância de Zana em Biblos,[9] interrompida aos seis anos, quando ela e o pai embarcaram para o Brasil. O pai a levava para banhar-se no Mediterrâneo, depois caminhavam juntos pelas aldeias, (...) visitavam amigos e conhecidos cristãos.” 


Acende-se no texto a cena familiar de uma despedida: “A beleza misteriosa, bíblica, dos cedros milenares nas ondulações brancas às vezes douradas pelo sol invernal” além das misturas de um banho de mar e crenças distintas. Zana, aqui configurando seu luto, traz a imagem do próprio pai e os gestos que o habitavam no momento de despedida de seu lar no Líbano, cidade perdida, para no momento seguinte retomar outros fios, lembrando–se que os dois juntos contemplavam o mar e um rochedo escuro. No gesto e no movimento do corpo em ato de manifestação, algo muito singular que mora nas memórias de Zana, agora compartidas com o marido Halim, nos transportam por instantes breves em cena cinematográfica, para outras terras... outros chãos...
Mais além da memória e da perda, o que podemos encontrar? Seria a própria cena de um véu que se toma de sombras? Ou os fantasmas que as imagens do sofrimento acordam, inclusive, no leitor?
O exílio, que foi reconhecido por Edward Said em seus estudos como “uma fratura incurável entre um ser humano e um lugar natal”,[10] não é compreensível do ponto de vista de nossa humanidade. Há algo que emudece irremediavelmente aí, por mais que se fale na literatura dessa experiência secular vivida ao longo da história. Os exilados estão separados das raízes da terra natal, de um passado definitivo e da língua mãe; mesmo em suas lembranças algo está morto.
A vida pode ser tão escassa, especialmente para aqueles que na “loucura” da história familiar de um luto ou da perda da Pátria-mãe, nunca completamente elaborada, são colocados a tamponar a falta do Outro e permanecem presos neste lugar sem saber.
No texto de Hatoum, Zana - a mãe – encarna o lugar de morada mas, também, de alguma loucura. São as palavras do Pai, primeiro as de seu próprio pai, e, depois as do pai de seus filhos, que irão firmar alguma lei nessa família. E também será com as palavras de Halim, que Zana é reconhecida como morada, inclusive para ele próprio em momentos de extremo sofrimento; o refúgio do amor no corpo da amada: “...Zana entrou no quarto e me viu nu na rede. Me viu e entendeu. Declamei umas palavras do Abbas... Era a senha...”
Ao mesmo tempo em que acalma os próprios pesares na cena de intimidade vivida no embalo da rede, Halim consagra ao leitor suas dúvidas e angústias enquanto um pai. Eis que os filhos homens, os gêmeos Yaqub e Osmar somam seus contrários de excessos e restrições, impulsividade e concisão.
De um pai, na experiência com a paternidade, Lacan constrói que  “a relação de procriação está, com efeito, implicada na relação do sujeito com a morte”.[11] Ao filho, na maneira como ele se colocará diante do desejo ou não dos pais, “algo conserva a marca do fato de que o desejo não existia antes de certa data”,[12] ou seja, o filho carregará a marca do desejo do Outro em sua fantasmática.  
        Mas, diante de uma mãe que enlouquece e se distancia depois do nascimento dos filhos, colando-se ao filho Caçula (o gêmeo que nasceu depois), o pai pouco fez. Em algumas situações, resta aos sujeitos na cena assujeitados tornarem-se perversos ou diabólicos, usando as expressões de Hanna Arendt, recuperadas por Derrida no livro O monolinguismo do outro.
Supomos, portanto, que o livro de Hatoum nos esclarece pontos importantes deste lugar do Pai, função paterna, e também de sua voz. No início do Seminário Os nomes do paiDes noms du père, Lacan anuncia que não será possível explicar, de imediato, o porquê desse plural. A seguir, faz a relação desse seminário com outros,[13] vários outros, para anunciar o passo seguinte: a saber, que esse plural diz respeito ao desdobramento, em diferentes níveis, da função do nome do pai. Então, não mais uma figura paterna, mas uma função. Desde o pai primordial de antes do interdito do incesto (o pai freudiano, o pai totem) até o pai de depois do totem. O plural dos nomes-do-pai teria a significação de repor em jogo o equívoco, ou melhor, o enigma do saber; um saber que falha, um saber não-todo.
Ao que buscamos construir que existe um caminho de tropeços e surpresas para cada pai diante de cada filho, pois há um pai enquanto sujeito que fala e há a angústia que não é sem objeto. Há ainda, nessas passagens, momentos insondáveis que dizem respeito inclusive ao nome de Deus.
Assim é que as palavras e decisões desse pai Halim podem montar cenas distintas e inesperadas. Algumas delas se abrem e se fecham epifânicas, e outras são quase bíblicas. No livro, os filhos gêmeos são separados um do outro durante alguns anos, logo no início da adolescência, pela decisão do pai de mandar Yaqub para o Líbano, depois de uma briga muito violenta entre os dois.
Após o desespero da cena, a voz do pai intervém e faz alguma barra, pois afasta os irmãos gêmeos e manda o mais velho de volta à terra natal de seus ancestrais, deixando-o lá em silêncio, durante anos. Sem conseguir alcançar e interditar o filho nomeado o Caçula,  Halim às vezes se desespera. Na pressão de suas palavras confirma-se um lugar sem lugar. Lugar onde, possivelmente, se instalou o caçula Osmar: “o filho de minha mulher”. Pois, se algo da ordem da estranheza fica fora da alçada paterna, podemos ouvir Halim nos seus lamentos em voz alta: “Parece que o diabo torce para que uma mãe escolha um filho...” e, parece-nos enquanto leitores, que o texto vem confirmar o estranho-familiar, situando-o nesse lugar de desconforto, inominável.
Halim advertiu a esposa sobre os excessos de zelo com o Caçula, mas não conseguiu impedir esses excessos. Não suportava ouvir os cochichos de Zana com o filho, e repetia parecendo falar sozinho: “Tu entendes isso? Entendes?” Distanciado do jogo dessa sedução, e com dificuldade de interrompê-lo, o pai chegou a cometer atos bárbaros. Mas, aqui, não iremos nos deter nos enlouquecidos atos que a narrativa testemunha. 
Reconhecemos que o testemunho vem dizer de um ato, onde a língua tem sua função. Algumas vezes, o ato atravessa silêncios e se faz construtor de dignidades em situações ímpares. Segundo Derrida “a língua há de ser mais e outra coisa que uma ferramenta que permaneça todo o tempo, “sempre”, única, através dos deslocamentos e dos exílios”.[14] O pai Halim, deslocado na língua, busca recuperá-la com os versos repetidos e rimados da melodia conhecida árabe: o gazal. Quem sabe se não o faz para conservar consigo um ritmo da terra mãe.
Lembramos que não é por acaso que a língua no norte do Brasil é falada mais lenta, em ritmo descansado. Além disso, não há como não reconhecer que o povo da região do Amazonas é receptivo à dimensão sensorial das palavras (facilitador destas misturas de sons e dialetos). Há, também, na mistura dos sabores, algo peculiar e familiar entre as pimentas exóticas, em uma tradução saborosa de “oriente-amazônico”[15] no qual tudo parece fazer “parte de um pêndulo: mágico" que alude a um outro tempo e um outro espaço.[16]  
Seguimos priorizando as vozes e, agora, um balbucio nos chega pela voz da avó Zana, pouco antes de morrer. O balbucio é da ordem da linguagem, enquanto marca primeira e definitiva: 


“soprou nomes e palavras em árabe que eu conhecia: a vida, Halim, meus filhos, Omar. (...) no seu rosto o esforço, a força para murmurar uma frase em português, como se a partir daquele momento apenas a língua materna fosse sobreviver. (...) conseguiu balbuciar: Nael...querido...” 


   O narrador, nesse momento da história, é reconhecido e é nomeado pela primeira vez: Nael, o que testemunha. Aquele que vai viver e contar o que viu e ouviu 30 anos antes.
Cito: 
“Ele me levava para um boteco na ponta da Cidade Flutuante. Dali podíamos ver os barrancos dos Educandos, o imenso igarapé que separa o bairro anfíbio do centro de Manaus. Era a hora do alvoroço. O labirinto das casas erguidas sobre troncos fervilhava: um enxame de canoas navegava ao redor das casa flutuantes, os moradores chegavam do trabalho, caminhavam em fila sobre as tábuas estreitas, que formam uma teia de circulação. (...) Um outro sumia na escuridão do rio e virava notícia.”
 
Buscando abrir caminho nas memórias entrecruzadas segue sendo inevitável no percurso do próprio narrador os acontecimentos que dão lugar à voz de uma raiz bem brasileira: a de sua mãe Domingas, a índia que servia na casa, a que foi dada ao casal Zana e Halim no início da vida matrimonial deles. Uma índia que sabia nomear os “pássaros que triscavam a água escura: as batuíras e as jaçanãs”, pois nasceu à margem do rio Jurubaxi, um braço do rio Negro.
No marco de tensão e na força da pontuação, onde está a singularidade musical do texto, encontramos a “palavra como uma melodia perdida” [17] e podemos perceber a singularidade da voz desse escrito (uma espécie de modulação semântica que tem relação com o estilo do escritor): 


“O oceano, a travessia...Como tudo era tão distante!”, lamentou Halim. "Quando alguém morria no outro lado do mundo, era como se desaparecesse numa guerra, num naufrágio. Nossos olhos não contemplavam o morto, não havia nenhum ritual. Nada. Só um telegrama, uma carta... A minha maior falha foi ter mandado o Yaqub sozinho para a aldeia dos meus parentes”, disse com uma voz sussurrante.                                                            
(silêncio)   


Escolho encerrar esse texto, dando voz ao escritor Hatoum, com palavras recolhidas de uma entrevista onde a cena familiar traz um fragmento importante de sua própria história. Ele está diante de seu pai em um silêncio que fala. Cito: 


“Perscrutar um homem ajoelhado no seu quarto, a rezar com o corpo voltado para Meca, era violar um momento de sua intimidade, mas também descobrir o fervor religioso do meu pai. Outros parentes próximos eram católicos ou cristãos maronitas, mas nenhuma religião me foi imposta: era mais importante tomar conhecimento do texto bíblico ou corânico do que optar por uma religião. Afinal, diziam os mais velhos, somos todos descendentes de Abraão.”[18]


                                                                   Solange Rebuzzi
 






[1] SAID, Edward. Reflexões sobre o exílio in: Reflexões sobre o exílio e outros ensaios. São Paulo: Cia das Letras. 2003, p.60.
[2] HATOUM, Milton. Dois Irmãos. São Paulo: Cia das Letras. 2006, p.51.
[3] HATOUM, Milton. Ibidem, p.53. Todos os trechos a partir de agora, no texto, que estiverem com aspas e sem referência explicitada, são palavras do autor neste livro. 
[4] O nome original nasceu na Índia e chegou ao Iran, tornando-se a forma mais popular de poesia árabe. Literalmente significa “conversando com mulheres”. Escrevia-se ghazal, e antes ainda qasida.
[5] DERRIDA, Jacques. El monolinguismo del otro. Buenos Aires: Manantial. 1997, p.42.
[6] DERRIDA, Jacques Ibidem, p.42.
[7] GLEIZE, Jean-Marie. Texto inédito de entrevista dada a Benoît Auclerc, traduzido livremente.
[8] GLEIZE-Jean-Marie. Ibidem.
[9] Nome grego da cidade Fenícia Gabal. Considerada a mais antiga cidade do mundo, situa-se na costa mediterrânea do Líbano. Byblos também é “papiro Egípcio”. Pesquisa em internet.
[10]SAID, Edward. Reflexões sobre o exílio in: Reflexões sobre o exílio e outros ensaios. Op. cit. p. 46.
[11] LACAN, Jacques. O Seminário. Livro3As psicoses. Rio de Janeiro: Jorge Zahar editor. 1992, p. 347.
[12] LACAN, Jacques. Intervenciones y Textos. Manantial. P. 124.
[13] Os seminários são: A metáfora paterna (os de janeiro e fevereiro de 1958), os seminários de 1961 que diziam respeito a função do nome próprio, os seminários de maio de 1960 que traziam o drama do pai na trilogia claudélienne, e o seminário sobre o nome próprio (dezembro de 1961 e janeiro de 1962).   
[14] DERRIDA, Jacques. Idem, p. 92.
[15] HATOUM, Milton. Entrevista.
[16] HATOUM, Milton. Entrevista na internet.
[17] HATOUM, Milton. Anotações pessoais feitas no encontro com estudantes de Literatura, na Universidade da Sorbonne Nouvelle, Paris3. Paris, primavera de 2005.
[18] HATOUM, Milton. Entrevista recolhida na internet.






*Conferência de encerramento do
II Encontro de Literatura e Psicanálise,
 apresentada em 26 de agosto de 2006
durante a Bienal Internacional do Livro de Fortaleza-CE.
O texto foi publicado em 2006 na revista Famigerado, n.7. Aqui,  com alguma revisão, foi republicado.

sexta-feira, 29 de agosto de 2014

Poema - 29.08.2014



                                                                A paisagem
                                                                quase nada:
                                                               manchas azuis
                                                            céu em movimento.
                                                      Os tecidos seda e algodão:
                                                               brancos sobre
                                                            o branco dos olhos.
                                                            A ópera cantada
                                                    longe: raízes, terra de ninguém.

                                                        Um rumor e gestos.
                                                          O sonho trêmulo
                                             (o homem de pé entre as estrelas.)

                                                   Qualquer véu faz caminho
                                                    o branco sobre o branco
                                                       (entre as estrelas...)




Obs: foto feita em Belo Horizonte em 2003.

terça-feira, 26 de agosto de 2014

A aranha rubra


autora: Solange Rebuzzi

ilustração: Guto Lins


1


A aranha rubra segue
à risca
o balanço das pernas
cavalgando no ar


Observo os passos da
aranha pelas letras no papel
não é aranha ao léu
come insetos...


estende-se e -----------  lê
sobre as letras que trafega
Um salto duplo no

súbito  ~~~~~~~~~~~~~~~~~~~

e um passo além do céu
                                                uuuuuuuhhh~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~


Sem inibição nem
teia:       
              parece que não deixa
                        rastro
               
Quando vai-----------------decide-
se oblíqua faz o jogo


Presas chãs impensadas
cruzando espaços brancos cruzando










2

UMA          PERNA                AQUI                 (e)





OUTRA                                                                                 LÁ


posso deslocar        já
qual um gato
um sapo que escorrega
e saltita rápido


desejo dançar nua
no delírio da língua
sem parceiro no ar
procuro o escuro do tempo
a mais negra fontana
(dormindo acordada)


Quero o rumor da mesa
a forma não é alimento
chegar perto do Sol
nas viagens entre espaços
poentes duendes, diablos
sobras, poeiras, zoos


Antes firmo moradia
aqui: convidando leitores
nos livros finco o pé
caminho(s) terra(s) inteira(s)
nestas horas trabalho-
trabalho-e-babo 


Do meu pulo habitual
não faço concessões
consigo pular          vãos
janelas  ~~~~~~~~~~~~~~  portões
gosto de passear         ahhh
pernilongos abelhas zangões


pelas veredas dia
experimento trilhas
frestas abismos telas
- uma aranha não duvida!












Solange Rebuzzi
  é poeta e pesquisadora. Publicou em poesia, entre outros: “Canto de sombras” e “Pó de borboleta” (7Letras). E-mail:
solrebuzzi@uol.com.br


Guto Lins é artista gráfico e professor da PUC-Rio.

http://cronopios.com.br/cronopinhos/ineditos.asp?id=41
Com os mais sinceros agradecimentos ao Portal Cronópios que publicou em 23 de abril de 2006, pela primeira vez, (link acima) o texto "A aranha rubra". 

domingo, 24 de agosto de 2014

André Breton, ROI SOLEIL - Textes et photographies par Henri Cartier-Bresson

A editora Fata Morgana sempre nos presenteia com suas primorosas edições.
Esta de 1995, em especial, é plena de fotografias em p/b. São  os cliques de Bresson e, ao mesmo tempo, o seu texto que nos apresentam o poeta surrealista André Breton como um rei; Rei Sol.
A caminhada de Breton em chão de pedra ao longo do rio, na village medieval Saint-Cirq-Lapopie, segurando seu cachimbo foi o mote deste livro. O olhar de Bresson sobre Breton saboreando a caminhada do amigo e seu recanto de trabalho marcam um tempo da amizade "solar" desses dois homens.


Rio de Janeiro, 24 de agosto de 2014.



A região foi escolhida pelos franceses, em 2012, como preferida.
Foto retirada da internet. 
www.saint-cirqlapopie.com


Le village de Saint-Cirq-Lapopie, cher au poète surréaliste.
 
Casa de André Breton em Saint-Cirq-Lapopie. Imagem retirada da matéria de Le Figaro, em 10 de março de 2014, quando a propriedade estava à venda.

terça-feira, 12 de agosto de 2014

Faixa de Gaza (2008 - 2014)

Carta ao amigo desconhecido


Por Solange Rebuzzi

                                              “Le monde défile derrière une mire
                                               et dans les graduations de ma lunette de tir.”
                                                                                               Jean- Michel Espitallier



 
     Foto: Le Figaro.18.01.2009



         
É difícil fazer a vida possível no tempo de uma jornada.
A loucura e a ganância ocupam a maior parte da vida dos homens.

Escrevo.
Denuncio. O sofrimento não é o de um povo.

Escrevo primeiro neste caderno negro que comprei em outra parte do mundo, e atenta sempre aos inúmeros olhares e línguas na intenção de marcar, também, o horror que se mostra nos fatos que o vento invernal, desse momento, sopra em nossos ossos.

O gesto é na direção de apertar as mãos – as suas e as de outros tantos que não conheço – que pedem clemência diante da guerra e da loucura que se impõem mais uma vez aos homens de nosso tempo.
Sim, eu os escuto!
E peço a paz.

Denuncio a matança que acontece na faixa de Gaza.
E somo minha voz às vozes de muitos outros.


Não, não é possível ficar em silêncio.
Tampouco assistir na televisão essa matança sem rumo apresentada em nome de um passado doído, e reconstruída como em um xerox de momentos outros repetidos.
A dor, nessa condição estreita que queima e fere, é da humanidade e não apenas a de um povo.
Lembrem-se que a cada vez que se mata um homem e uma criança de qualquer raça mata-se a esperança, e a esperança com a diferença que a vida precisa construir para fazer sobreviver em nós a nossa humanidade. A humanidade é um múltiplo!

Entre os mais próximos
- e somos numerososnão aceitamos a morte
como condição à vida nessa série de assassinatos.

Está tudo tingido de sangue
milhares de feridos
A tensão está em todos os lugares
Os hospitais improvisados nem existem

Quem está ditando a lei?

Nãomais o olhar fixando a câmara de TV
vejo corpos
E pedaços de corpos
Todos têm medo
É a guerra





Paris, 30 de dezembro de 2008.



                                              * * *

http://cronopios.com.br/site/colunistas.asp?id=3760#texto

Repito, com mínimas mudanças, a publicação feita no Portal Cronópios em 2008, onde estou como colunista. 

sábado, 9 de agosto de 2014

Blog do NOBLAT - Brasília, 9 de agosto de 2014.

Enviado por Karenina Moss -
7.1.2008
 |
23h18m
POEMA DA NOITE

Nos jardins de Nîmes (fragmento) - Solange Rebuzzi


uma árvore tem quatro chãos
o vazio do poeta
o vento dos sinos
os s(s) e n(s) dobrados
correntes e asas
de palavras a serem ditas;
uma pétala nos céus esquecidos das vogais?

Dominique Fourcade leu versos
no Centro George Pompidou
- poemas escritos a partir de uma foto:
um americano e um iraquiano

(eu soube que Juan Miró pintou
quadros a partir de poemas)

alguns versos são escritos
para serem lidos sem paginação sem tempo
são escritos enquanto as areias e os ventos se movem
barulhos da rua invadem as passagens

vozes (fora do poema?)

a tela do computador é água,
disse-nos o poeta Armando Freitas Filho


respiro


Solange Rebuzzi nasceu no Rio de Janeiro em 1951.Estudou Psicologia na PUC-Rio, na década de 70, no calor dos movimentos estudantis e das manifestações que se configuravam como experiências políticas. Publicou "Leblon, voz e chão" e o ensaio "Leminski, guerreiro da linguagem" (7Letras).


Agradeço a publicação do fragmento do poema "Nos jardins de Nîmes" no blog do Noblat. Publicação feita em 2008 e, agora, em 2014 novamente. Este poema foi publicado inteiro pela primeira vez, em 2006, na revista Poesia Sempre da Biblioteca Nacional. E, depois, nos livros Estrangeira (2010) e Outonos [montagem incompleta] (2014).