terça-feira, 12 de agosto de 2014

Faixa de Gaza (2008 - 2014)

Carta ao amigo desconhecido


Por Solange Rebuzzi

                                              “Le monde défile derrière une mire
                                               et dans les graduations de ma lunette de tir.”
                                                                                               Jean- Michel Espitallier



 
     Foto: Le Figaro.18.01.2009



         
É difícil fazer a vida possível no tempo de uma jornada.
A loucura e a ganância ocupam a maior parte da vida dos homens.

Escrevo.
Denuncio. O sofrimento não é o de um povo.

Escrevo primeiro neste caderno negro que comprei em outra parte do mundo, e atenta sempre aos inúmeros olhares e línguas na intenção de marcar, também, o horror que se mostra nos fatos que o vento invernal, desse momento, sopra em nossos ossos.

O gesto é na direção de apertar as mãos – as suas e as de outros tantos que não conheço – que pedem clemência diante da guerra e da loucura que se impõem mais uma vez aos homens de nosso tempo.
Sim, eu os escuto!
E peço a paz.

Denuncio a matança que acontece na faixa de Gaza.
E somo minha voz às vozes de muitos outros.


Não, não é possível ficar em silêncio.
Tampouco assistir na televisão essa matança sem rumo apresentada em nome de um passado doído, e reconstruída como em um xerox de momentos outros repetidos.
A dor, nessa condição estreita que queima e fere, é da humanidade e não apenas a de um povo.
Lembrem-se que a cada vez que se mata um homem e uma criança de qualquer raça mata-se a esperança, e a esperança com a diferença que a vida precisa construir para fazer sobreviver em nós a nossa humanidade. A humanidade é um múltiplo!

Entre os mais próximos
- e somos numerososnão aceitamos a morte
como condição à vida nessa série de assassinatos.

Está tudo tingido de sangue
milhares de feridos
A tensão está em todos os lugares
Os hospitais improvisados nem existem

Quem está ditando a lei?

Nãomais o olhar fixando a câmara de TV
vejo corpos
E pedaços de corpos
Todos têm medo
É a guerra





Paris, 30 de dezembro de 2008.



                                              * * *

http://cronopios.com.br/site/colunistas.asp?id=3760#texto

Repito, com mínimas mudanças, a publicação feita no Portal Cronópios em 2008, onde estou como colunista. 

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