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sexta-feira, 14 de agosto de 2015

Um livro


Um livro, qualquer livro pode vir a nos tocar de forma irrefutável e nos fazer companhia a vida inteira. É fato sabido, um livro lido na juventude pode se tornar um amigo, um sábio companheiro daquele tempo. Assim é que um bom romance ou um livro de poemas ganha um lugar na memória sensível jamais imaginado.
Os livros que lemos na infância ou os que escutamos pela voz de nossos pais, as queridas histórias contadas na hora de dormir acalmam angústias infantis desconhecidas até mesmo do mundo adulto. A historinha A cigarra e a formiga dá às crianças a chance de sonhar caminhos distintos para a vida. Mas, é no tempo da vida adulta que descobrimos que trabalhar e ser responsável pode ser um múltiplo. Podemos ser um pouco formiga e um pouco cigarra, sem persistir nos excessos. E é preciso reconhecer a importância do canto e da leveza tão necessários na vida!
Quando li O Diário de Anne Frank pela primeira vez, encontrei o terror da Segunda Guerra em poucas páginas de um único livro. A humanidade em instantes deixou de ser romântica, e a praia e as festas da pré-adolescência não eram mais minha única preocupação. A dedicada busca pela sobrevivência de uma menina e de sua família durante a guerra, escondidos em um espaço reservado atrás da porta falsa de um armário e durante um longo tempo, não havia sido suficiente para poupá-los. Quase todos os membros desta família foram eliminados. 
Nunca vou entender as guerras. Nem as grandes nem as menores; essas que vemos diluídas nas telas da tevê em cenas rápidas e sem precedentes, no que diz respeito a violência que mata e que autoriza atos ferozes ou desrespeitosos entre os homens de diferentes religiões e raças.
Foi lendo Exodos de Leon Uris ainda na adolescência que habitei, novamente, durante um longo verão aqueles anos da Segunda Grande Guerra. Recuperei de forma poética e dura, mais tarde, esses momentos escuros transcritos por Paul Celan. E o verso "teu cabelo de cinzas Sulamita", no poema “Fuga da morte”com a tradução de Modesto Carone, intensificou esse pesadelo. Traduziu que a busca para atravessar essa catástrofe pela escrita poética é algo que toca um impossível a dizer.
Tampouco imaginei, que alguns livros lidos na infância e na adolescência me ensinassem em níveis tão distintos. Entendo, agora, que suportei melhor o tempo de Ditadura no Brasil sem me importar tanto com a duração desse tempo e sem negá-lo, porque em meu inconsciente estava gravado muitas outras experiências de sofrimento e alienação dos homens.

                                                                                                 
                                                                                                            Rio, 13/08/2015




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