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segunda-feira, 29 de fevereiro de 2016

Solange Rebuzzi entrevistada por Nonato Gurgel

Entrevista a Nonato Gurgel
Rio, 22/11/2012

A escritora, tradutora e psicanalista Solange Rebuzzi ostenta uma bibliografia cuja dezena de títulos contempla gêneros diferentes como a poesia, o ensaio e o romance. Autora de textos sobre alguns autores seminais da nossa literatura, como João Cabral e Paulo Leminski, a autora lança no próximo dia 28 o Livro das Areias, sobre o qual ela fala a seguir.

01 – Solange, como classifica o seu novo livro de ficção, cuja “língua que não é só a de um romance”?

O Livro das areias é uma narrativa. Está fora das classificações mais usuais. Nasceu assim. A escrita deu a direção à minha fala, fora da linguagem mais linear. Quando afirmo, no início do livro, que a língua não é só a de um romance quero marcar essa diferença, enquanto possibilidade. Ele está escrito em versos livres, mas é uma narrativa de tempos vívidos em diálogo com a escrita.

02 – A sua inscrição profissional abrange diversas áreas do saber e da cultura como a psicanálise, a literatura e a tradução. Até que ponto a psicanalista, a escritora e a tradutora dialogam? Ou estas atividades profissionais são exercidas de formas isoladas?

Nonato, meu caro, são as diferentes áreas de “um saber não sabido” que se mostram como eu gosto de dizer. A psicanalista, a escritora e a tradutora conversam... O meu interesse está assinalado no estilo que as narrativas, as distintas narrativas, saboreiam. O escrever se impõe a partir da leitura com o ritmo da letra. Os gêneros importam menos.
No consultório, são os analisantes que fazem e refazem sua própria escrita-vida diante de uma escuta analítica que lhes dá novas possibilidades.
Na tradução o trabalho celebra a língua estrangeira, que nos alcança enquanto tradutores-escritores-poetas e a experiência se coloca diante da falta, pois não se traduz nunca com a completude e a perfeição. Traduzimos com o desejo e a capacidade de inventar, subtrair e/ou somar. 

03 – Quais são as diferenças entre este Livro das Areias (2012) e as narrativas de Estrangeira (2010) e Quase sem palavras (2011)?

O livro Quase sem palavras foi escrito primeiro, no final da década de 90. E é um romance; um romance poético. Tem personagens, uma história que avança durante algumas décadas, uma temática, etc... Os fios que tecem essa história “quase sem palavras” dizem algo da ditadura, dos exílios, da busca amorosa da juventude na cidade do Rio de Janeiro de outras décadas, com seus bares, praias, encontros e desencontros.
Estrangeira nasceu depois de um tempo de estudos na França, durante um doutorado-sanduíche em 2005. É também uma declaração de amor à Paris, mas não só. Talvez, por isso ele tenha sido publicado primeiro. E o Livro das areias cresceu aos poucos, obedecendo ao ritmo da memória, pois é bastante autobiográfico (dentro da lógica que reconhece que o escrito carrega o bio da grafia ficcional sempre, conforme nos ensina Roger Laporte).

Muito grata pela possibilidade de falar do meu trabalho. Aproveito para divulgar meu blog: www.solrebuzzi.blogspot.com
E dizer que vem aí, ainda neste final de ano, Francis Ponge Nioque antes da primavera (Lumme editor). Tradução e Posfácio.
Um grande abraço,

Solange 


PS. Publico, agora no meu blog, a entrevista que dei ao colega e professor Nonato Gurgel.

sexta-feira, 19 de fevereiro de 2016

À Sombra das Tamareiras (Contos Orientais) de Humberto de Campos

Comprei na semana passada o impressionante livro de contos À Sombra das Tamareiras de Humberto de Campos, escritor e acadêmico já falecido há muitos anos.
Intrigada e atraída pela leitura fui, lentamente, levada a relembrar um outro momento de minha vida, vivido na biblioteca de meu avô em Vitória, quando ainda muito jovem fiz a primeira leitura deste livro. Talvez com a primeira edição; a de 1935 pela José Olympio.
A delícia desse reencontro com o escritor foi crescendo de um conto a outro. E não me tirou o gosto de reviver na leitura a escrita dos contos orientais, possivelmente soprados ao escritor maranhense conforme ele mesmo afirma logo no início do livro.
Mas as lembranças não pararam por aí, nem as delícias. As N.A. (notas do autor) assim como as notas em geral são de grande proveito, e lemos as explicações sobre os nomes próprios, as expressões, os hábitos e as inúmeras sutilezas vividas tanto na Síria quanto no deserto de Dahna, ou nas montanhas de Oman, na Turquia e também na Arábia Saudita através dos escritos de Campos.

Em tempos violentos como os de hoje, em algumas destas regiões, o livro nos leva a conhecer um outro lado da vida dos homens que passaram a viver outra realidade.

Parabéns à editora Almádena que o publicou!


  S.R.

Rio de Janeiro, 19 de fevereiro de 2016.



O Conselho do Xeque

Quando os príncipes Aislan e Khaled, filhos gêmeos do rei Rumazan, chegaram à adolescência, e a alma se tornou dentro deles como o pássaro novo cujas asas se enfeitam das primeiras penas, o monarca os chamou e disse-lhes:
- Viestes até aqui trazidos pela minha mão, à semelhança de dois cegos levados a pedir esmola na feira de Chiraz. Aproxima-se, porém, o momento de vos conduzirdes a vós mesmos e eu tenho de dar-vos, a cada um, o seu bordão. Qual dos caminhos da sabedoria desejais seguir? O dos estudos profundos, que alimentam o espírito, ou o da poesia leve, que deleita o coração?

(fragmento, p. 49)


quinta-feira, 11 de fevereiro de 2016

Homenagem a Einstein

A Física comemora hoje a fantástica descoberta que confirma na experiência a teoria de Albert Einstein.
Viva!
O mundo vibra com a confirmação da existência das ondas gravitacionais que participam do movimento da terra.

Estamos inundados por estas ondas!


(Direto da cidade do Rio de Janeiro)



quarta-feira, 10 de fevereiro de 2016

segunda-feira, 8 de fevereiro de 2016

Nota de Carnaval

Escuto o samba ao longe. Como se fosse um sonho estranho, interminável e sem imagens; os ritos deste carnaval chegam pelas paredes de minha casa. Invadem espaços abertos, antes dados aos pássaros e ao vento.
Não me incomodam tanto.
O mais difícil e abominável está encoberto pelo descaso de homens que ocupam funções e cargos políticos que desvalorizam a necessidade de cuidar da Saúde da Cidade Maravilhosa, agora, invadida pelos mosquitos da zika.
Uma epidemia sem precedentes se apresenta!
Ninguém se responsabiliza. O samba e o álcool escondem e abafam o medo. O horror da devastação da doença. A calamidade. 
Talvez, o fundo do poço a que estamos lançados neste verão!


Rio de Janeiro, 8 de fevereiro de 2016.

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2016

Poema


Talvez a terra seja estreita para os homens de diferentes credos
O sol no monte dourado parece partir em improváveis direções
Na hora da despedida a música das lágrimas escorre
Talvez, a terra não seja a mesma para os diferentes credos
A história da peregrinação dos homens se faz com desespero
No horizonte acende-se a angústia do peito e dos pés
Os personagens não são os mesmos de outros séculos 
Talvez os homens necessitem do rito da partida

Algum estranho caminho se mostra como salvador:
Germany para além das estradas... logo depois do mar
A poeira do chão carrega o brilho dos astros
Homens e mulheres sustentam velhos e crianças
Talvez, a Guerra não esqueça o sonho de seus filhos
No entanto, presenciamos um cenário devastado
Cidades e monumentos abandonados. Violência.
A história se conta pelas mãos e nos olhares

Ou nas línguas ainda a aprender
A música das lamentações secou
As mulheres acalmam os desejos antigos
Elas pregam em voz baixa sem usufruir de nada
Além de novas singularidades. Silêncio
Talvez, o incenso lançado no espaço do horror
Conspire para harmonizar odores e fúrias
Tanto quanto as insanas folias sem medida





Rio de Janeiro, nas vésperas do carnaval de 2016.
(revisto em 1.03.2016)