sábado, 31 de dezembro de 2016

Poema inédito


Escrevo uma página branca
Uma página clara Sem pudor
Escrevo com a dor de um dia
De misérias e faltas inúmeras ao redor

Escrevo hoje no final dos tempos
De um tempo surdo Escrevo
Sem me distrair e sem padecer demais
Apenas escrevo com a brisa que não sopra

Sem as árvores de outrora escrevo
Ainda na falta de humanidade
Buscando a solidariedade

São puras as razões desta escrita
São impróprias as suas delicadezas
E marginal plural o contexto


Rio de Janeiro, 31 de dezembro de 2016

Oito noites em Veneza chega a Veneza

                                 
                                           O livro nas mãos da italiana Maria, que estuda e
                                           lê português. Viva! 

quarta-feira, 28 de dezembro de 2016

Flash back: fragmento de texto já publicado

Escrever...
o quê?
E
por quê ?

A partir de nossa escrita percebemos nossas mudanças?

A mão assim como o pé envelhece.
A escrita pode permanecer firme. Eretas as letras cavalgam. Abrem trilhas. Mudam caminhos.


         “As palavras são mais velhas que nós e o texto não tem idade.
                                                                             (Edmond Jabès)



Mãos se enfurecem
não se abandonam
viajam com o corpo de alto a baixo.
Degolam.
Formam a linha e os encantamentos da geometria.
Dormem.
Morrem.

E a voz? (para onde ela vai?)
:
a voz do escrito sussurra pedaços de histórias     e alguns enxertos de textos   
lidos.
A voz    
negocia com pessoas distantes e lugares            nunca vistos.
Alcança as pedras encobertas do limo.               
Âncora do tempo.                    Compõe com alguma farsa.




Ps: publicado no Portal Cronópios em agosto de 2008. Título: Mãos 

terça-feira, 27 de dezembro de 2016

Flash back: lançamentos de livros

                                         Com o poeta Antonio Carlos Secchin no lançamento e leitura
                                         de O sonho da Gaivota Lumme editor, 2015 no                  
                                         Café Envídia Leblon,
                                       
                                     
Com o marido no lançamento de Gradiva verão
Lumme editor, 2013 no Café Envídia

 
Com Jorge Viveiros de Castro, editor da 7Letras
no lançamento de Outonos montagem incompleta, 2014

       Com o prof. Jorge Fernandes da Silveira no lançamento 
         de Oito noites em Veneza,  na livraria da ed.7Letras, 2016

                                          Na livraria Travessa, Ipanema, com Beth Chaves de Mello
                                          lançamento de Estrangeira, 7 Letras 2010

  Com amigos no lançamento de O Idioma pedra de 
        João Cabral, Ed.Perspectiva 2010 na livraria Travessa 

               Com amigas psicanalistas no lançamento de Livro das Areias
na Gávea, livraria Timbre, Lumme editor 2012

Com familiares na livraria Timbre, lançamento de 
Quase sem palavras, 7Letras, 2011

         
             Com a mãe no lançamento de Contornos
                  Massao Ohno editor, 1991, livraria Marcabru

sexta-feira, 23 de dezembro de 2016

Escrito em 20.12.2016

Dentro do corpo corre
o vento de nossa alma
irmã de outros homens.
A viagem o sangue faz
circular nas vibrações
variadas e instáveis ao redor.
Somos velhas narrativas
a procurar o tom que
persevera no infinito.
Um dia. Uma década.
Uma vida. Várias...



Feliz Natal a todos!

quarta-feira, 21 de dezembro de 2016

Verão outra vez


Nasce a manhã
Azul
Nenhuma nuvem
A bruma não esconde verdades
Insistimos em rever o passado
Um ano interminável
Nos caminhos do texto
O pensamento se estende
O visível e o invisível
Não se encontram
Mas o horizonte está lá
A verdade anda lenta
Festejada na esperança
Com um olhar infantil
A música e a magia da música
No movimento das árvores  
Outra vez procuramos a paz


Rio de Janeiro, 21 de dezembro de 2016.







sábado, 17 de dezembro de 2016

Poesia inédita

crianças órfãs vagam
ruas da Síria; labirintos
pedras nuas
olhos vagos
olhos vastos
escuro dia
nuvens de poeira
palavras poucas
roucas
fumaça e fogo
tudo é sombra
cinzas nos corpos
crianças órfãs
roupas ralas
poeira e chão




Rio de Janeiro, na madrugada de 17 de dezembro de 2016.

sexta-feira, 16 de dezembro de 2016

POEMA

Exercício                                
1.

É com angústia que o poeta espera a escrita se inscrever, mas não somente. Diante da folha em branco ou da tela clara de um computador habilita-se o jogo das palavras no vazio que brilha. Um jogo onde as palavras inserem-se – em sua materialidade – como se cada uma delas fosse mesmo um objeto, uma espécie de pião (conforme comentou Picasso sobre os poemas de Francis Ponge), que se movimenta e gira entre os dedos da mão, sem cessar.
Experimentamos
construir na escrita alguns tantos objetos, com palavras
pensamos pelas esquinas dos versos
buscando o tempo que arrisca no chão (d e s t e r r i t o r i a l i z a d o)
ou no céu - folha - de - papel
visualizar o dia, a loucura, a morte?
Assim na folha nua ou na tela-água,
palavras fluem e resistem
e se autorizam...
Algumas bóiam, saboreiam certas sobras, afundam.
Algumas outras encontram a rota e carregam muchas voces.
Há ainda as que sacodem a saia das beiradas das páginas deixando ver  (an)águas antigas que resistem ao calor de tempos novos.

As letras – algumas letras: d, b, p, g, j ,q – parecem insetos pousados nas janelas. Essas letras – de braços ou pernas alongadas – podem ao se juntar com qualquer das cinco vogais levar muitos fios e formar palavras de paladar inusitado. 
Ou, qual bombas!!! explodir matérias (sem poesia).
Lembro que vi, em flash de TV, as bombas --- minas --- sendo retiradas do chão, em locais onde foram plantadas, como se fossem sementes secas:

(horror
e
silêncio)



2.

Em dias de tempestade gosto de olhar o céu, e, procuro no clarão dos raios recolher nas mãos os sonidos caídos do alto ou do baixo do escuro escorrendo.
É de lá que me ocorrem as letras altas, as que cortadas em cima levam  junto as formas decididas: f, t, l, h. São letras que supõem crescimento no traço riscado à mão de cima pra baixo ou vice versa.
As dentais T T T (tês) envolvem um trabalho de elegante exigência ao leitor, compondo um ateliê atulhado dentro da boca. “Na visualidade da escrita, a fieira de dentes: T T T T T T” (Décio Pignatari, em um dos prefácios de Marina Tsvietáieva, p.18).           
As palavras estrangeiras também ensinam. Transpõem novos cenários. A palavra inglesa thirteen, por exemplo, traz na língua um especial sonido de vento-em-frestas no alvorecer das frases prestes a sair... e correr. 
Nas línguas estrangeiras encontro a estranheza com as diferenças, inclusive, a da presença da falta como é o caso da letra E (no francês), que, às vezes, está lá como a traduzir a própria falta. Cito: chèvr(e)/ (cabra), onde a sonoridade, segundo o dicionário da língua francesa, é de três consoantes c,h,v. A letra E é muda. Valère Novarina fala que “O E mudo é a mola invisível do francês: um ponto de energia que se comprime ou se estende – dependendo da emoção – e dá à nossa língua sua força propulsiva” (Diante da palavra, p.41).   
Há poetas que gostam de trabalhar esta materialidade que os convoca sem perdão. Eles passeiam a mão firme que corta e fura o poema ao escrevê-lo, listando coisas, palavras-coisas, pensamentos, agonias. As palavras fazem trabalhar o músculo!
Mas importa – singularmente – a travessia de cada poeta, “travessia respiratória do espaço” – matéria invisível (Novarina, Idem, p. 47).
É de lá que acodem os ritmos, os movimentos da língua, do escuro recanto que cada poeta busca ouvir e trazer à tona em seu texto.


3.

Hoje, os poemas são muitos, insistem e escrevem-se na página guardando a falta que compõe o olhar de cada poeta. A paisagem está destituída, enquanto paisagem de mundo. Paisagem de deserto ou linha de horizonte de onde o ponto perdido deixa ver apenas a poeira, em terreno impossível sequer de se respirar...


4.

As perguntas sobre o tempo de um escrito podem circular e abismar. De um lado o poeta escreve a um leitor que é percebido como leitor ninguém-absolutamente-ninguém (em um mais além de João Cabral), e por outro lado escrevem, escrevem, escrevem. Os poetas contemporâneos sussurram sem cessar a este leitor ausente, endereçam-se a um ponto de interrogação.
O que pode a poesia, então?

  
                                  Rio de Janeiro, abril de 2006.

PS: publicado pela primeira vez no Portal Cronópios. Depois,  foi republicado em blogs de poetas (parcialmente ou inteiro). Inédito em livro.

De cabeça pra baixo

A Síria nos causa indignação!
Nunca vimos nada igual. Ou já vimos e esquecemos?
Metáfora do mundo: de cabeça pra baixo!
Crianças - quase loucas - andam em meio aos escombros.
Não há sequer um refúgio onde se abrigar.
As bombas explodem e devastam cidades inteiras.
Falta tudo. Roupas, alimentos, água.
E uma palavra amiga. Não há voz nem sussurro de esperança!
Síria, sim, metáfora do mundo!
Sem abrigo nem salvação digna.

Homens selvagens dominam as Nações.



Rio de Janeiro, 16 de dezembro de 2016.



Les bougies et pancartes déposées devant l’ambassade de Syrie, à Paris, le 15 décembre.

Imagem reproduzida do jornal Le Monde on line de hoje.

quinta-feira, 15 de dezembro de 2016

Na língua materna

1.

Imagine a solidão de um estrangeiro.
Um árabe. Um chinês.
Um norueguês. Qualquer um.
Um país. Um lugar. Qualquer.
Os olhos. As mãos. Um café.
Um canadense. Um brasileiro.
Um alemão. Um.

Qualquer lugar.
(... e aqui não se fala inglês!)


2.

Um árabe procura um café. Está tudo fechado.
Um alemão deseja um interlocutor.
A francesa se queixa do calor.
E o norueguês não encontra o caminho de casa.

As praias estão poluídas.
O diálogo não se faz, embora a mímica ajude.
Copa do mundo? Onde? Quando?
Começou. Vai começar. Acabou.
Talvez, a hospitalidade seja o fruto da resistência!


3.

Nenhum oceano a ver,
apenas um mar negro de óleo!
Pássaros enlameados:
negro petróleo.
No movimento do tempo
não vejo nada claro.
Em solidão... os homens.
Qualquer um.
Um.



PS. poema do livro
Outonos [montagem incompleta]

quinta-feira, 8 de dezembro de 2016

Hermann Hesse e Jacques Le Goff revisitados

Nas férias que passei na Itália, este ano, comprei em uma livraria francesa o livro François d'Assise Hermann Hesse, na tradução do alemão por Jean-Louis Schlegel; um livro lançado pela Éditions Salvador em 2015.  
Hesse reuniu neste livro Franz von Assisi, publicado em 1988 na Alemanha, três textos: uma narrativa pessoal e lírica que nomeou Vida de são Francisco/ Vie de saint François, uma ficção sobre um episódio vivido por Francisco aos doze anos, e uma tradução alemã das Fioretti. em francês, La couronne de fleurs de saint Françoise d'Assise. 
O livro ainda tem um estudo de Fritz Wagner, que nos possibilita a compreensão do lugar dado por Hesse a Francisco de Assis.
Recentemente, também, descobri o livro São Francisco de Assis escrito por Jacques Le Goff, o importante historiador de nosso tempo. Publicado pela Record, na tradução de Marcos de Castro em 2015. Cito Le Goff: "Sempre fui fascinado por São Francisco, um dos mais impressionantes personagens do seu tempo e da Historia Medieval"

Assim que em meio a estas e outras novas leituras, escrevo e tomo notas para um próximo livro banhada pelos escritos de Francisco e de seus inúmeros leitores!


Rio de Janeiro, 8 de dezembro de 2016.

segunda-feira, 5 de dezembro de 2016

Morre Ferreira Gullar aos 86 anos

Resultado de imagem para Ferreira Gullar


O grande poeta do Maranhão partiu, no final desta primavera carioca de 2016!

Em meio às tensões e aos desencantos causados pela corrupção desvairada na política brasileira, e com o sofrimento vivido por todos nós depois do acidente de avião que matou jogadores e jornalistas, no qual problemas de conduta sinalizam o quanto somos falhos, nos despedimos do importante poeta brasileiro que soube como poucos escrever a nossa humanidade!

A ele também devemos dar uma salva de palmas!!!