sexta-feira, 16 de dezembro de 2016

POEMA

Exercício                                
1.

É com angústia que o poeta espera a escrita se inscrever, mas não somente. Diante da folha em branco ou da tela clara de um computador habilita-se o jogo das palavras no vazio que brilha. Um jogo onde as palavras inserem-se – em sua materialidade – como se cada uma delas fosse mesmo um objeto, uma espécie de pião (conforme comentou Picasso sobre os poemas de Francis Ponge), que se movimenta e gira entre os dedos da mão, sem cessar.
Experimentamos
construir na escrita alguns tantos objetos, com palavras
pensamos pelas esquinas dos versos
buscando o tempo que arrisca no chão (d e s t e r r i t o r i a l i z a d o)
ou no céu - folha - de - papel
visualizar o dia, a loucura, a morte?
Assim na folha nua ou na tela-água,
palavras fluem e resistem
e se autorizam...
Algumas bóiam, saboreiam certas sobras, afundam.
Algumas outras encontram a rota e carregam muchas voces.
Há ainda as que sacodem a saia das beiradas das páginas deixando ver  (an)águas antigas que resistem ao calor de tempos novos.

As letras – algumas letras: d, b, p, g, j ,q – parecem insetos pousados nas janelas. Essas letras – de braços ou pernas alongadas – podem ao se juntar com qualquer das cinco vogais levar muitos fios e formar palavras de paladar inusitado. 
Ou, qual bombas!!! explodir matérias (sem poesia).
Lembro que vi, em flash de TV, as bombas --- minas --- sendo retiradas do chão, em locais onde foram plantadas, como se fossem sementes secas:

(horror
e
silêncio)



2.

Em dias de tempestade gosto de olhar o céu, e, procuro no clarão dos raios recolher nas mãos os sonidos caídos do alto ou do baixo do escuro escorrendo.
É de lá que me ocorrem as letras altas, as que cortadas em cima levam  junto as formas decididas: f, t, l, h. São letras que supõem crescimento no traço riscado à mão de cima pra baixo ou vice versa.
As dentais T T T (tês) envolvem um trabalho de elegante exigência ao leitor, compondo um ateliê atulhado dentro da boca. “Na visualidade da escrita, a fieira de dentes: T T T T T T” (Décio Pignatari, em um dos prefácios de Marina Tsvietáieva, p.18).           
As palavras estrangeiras também ensinam. Transpõem novos cenários. A palavra inglesa thirteen, por exemplo, traz na língua um especial sonido de vento-em-frestas no alvorecer das frases prestes a sair... e correr. 
Nas línguas estrangeiras encontro a estranheza com as diferenças, inclusive, a da presença da falta como é o caso da letra E (no francês), que, às vezes, está lá como a traduzir a própria falta. Cito: chèvr(e)/ (cabra), onde a sonoridade, segundo o dicionário da língua francesa, é de três consoantes c,h,v. A letra E é muda. Valère Novarina fala que “O E mudo é a mola invisível do francês: um ponto de energia que se comprime ou se estende – dependendo da emoção – e dá à nossa língua sua força propulsiva” (Diante da palavra, p.41).   
Há poetas que gostam de trabalhar esta materialidade que os convoca sem perdão. Eles passeiam a mão firme que corta e fura o poema ao escrevê-lo, listando coisas, palavras-coisas, pensamentos, agonias. As palavras fazem trabalhar o músculo!
Mas importa – singularmente – a travessia de cada poeta, “travessia respiratória do espaço” – matéria invisível (Novarina, Idem, p. 47).
É de lá que acodem os ritmos, os movimentos da língua, do escuro recanto que cada poeta busca ouvir e trazer à tona em seu texto.


3.

Hoje, os poemas são muitos, insistem e escrevem-se na página guardando a falta que compõe o olhar de cada poeta. A paisagem está destituída, enquanto paisagem de mundo. Paisagem de deserto ou linha de horizonte de onde o ponto perdido deixa ver apenas a poeira, em terreno impossível sequer de se respirar...


4.

As perguntas sobre o tempo de um escrito podem circular e abismar. De um lado o poeta escreve a um leitor que é percebido como leitor ninguém-absolutamente-ninguém (em um mais além de João Cabral), e por outro lado escrevem, escrevem, escrevem. Os poetas contemporâneos sussurram sem cessar a este leitor ausente, endereçam-se a um ponto de interrogação.
O que pode a poesia, então?

  
                                  Rio de Janeiro, abril de 2006.

PS: publicado pela primeira vez no Portal Cronópios. Depois,  foi republicado em blogs de poetas (parcialmente ou inteiro). Inédito em livro.

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