domingo, 30 de abril de 2017

Fragmento do livro Estrangeira

              Escrevo um dia


 De lá do alto da Maison Canadienne
            vê-se o final da tarde
      A pequena janela no telhado
assiste quase tudo deste lado do firmamento



Nem mesmo as rosas rubras do vaso nesta janela
             conseguem se distanciar
     do cheiro das laranjas espanholas
        que invadem nossa maison e
o telhado dessa primavera-verão de Paris



p.54

terça-feira, 25 de abril de 2017

Revista Brasileira - Academia Brasileira de Letras, Ano VI. n.90


                                                     Divulgo a bonita Revista da Academia
                                                     Brasileira de Letras, Jan.Fev.Mar, 2017

domingo, 23 de abril de 2017

Tempos sombrios (com a palavra o poeta Paul Celan)

Fala Também Tu


Fala também tu, 
fala em último lugar, 
diz a tua sentença. 

Fala — 
Mas não separes o Não do Sim. 
Dá à tua sentença igualmente o sentido: 
dá-lhe a sombra. 

Dá-lhe sombra bastante, 
dá-lhe tanta 
quanta exista à tua volta repartida entre 
a meia-noite e o meio-dia e a meia-noite. 

Olha em redor: 
como tudo revive à tua volta! — 
Pela morte! Revive! 
Fala verdade quem diz sombra. 

Mas agora reduz o lugar onde te encontras: 
Para onde agora, oh despido de sombra, para onde? 

Sobe. Tacteia no ar. 
Tornas-te cada vez mais delgado, irreconhecível, subtil! 
Mais subtil: um fio, 
por onde a estrela quer descer: 
para em baixo nadar, em baixo, 
onde pode ver-se a cintilar: na ondulação 
das palavras errantes. 

Paul Celan, in "De Limiar em Limiar" 
Tradução de João Barrento e Y. K. Centeno 

segunda-feira, 17 de abril de 2017

Anotações de 2015

Recolho de meu caderno de Cerisy, e a partir do que
escrevi em 20.08.2015
:

"O Caderno do Pinhal  é o primeiro livro inacabado
 de Ponge. É uma experiência de errância. Uma mistura 
 de completude e falta como o que vivemos na vida."
                                                            Marie Frisson



Comenta-se, também, que o poeta tinha uma atenção ao descontínuo.
Ele faz uma mistura entre "o poeta e o savant". Pesquisa
e conquista um saber mas "pas encore". Trabalha sempre
em movimento, buscando uma nova forma de pensar a poesia.


PS. Aproveito para relembrar que eu estava muito contente em poder 
entregar em mãos meu livro Traduzir, Testemunhar Francis Ponge. 
Recém saído do forno, naqueles dias, pode ser conhecido por alguns 
pesquisadores do poeta. Principalmente, pode ser lido por sua filha 
Armande Ponge, que me confessou ler em espanhol e em latim 
com facilidade; o que a auxiliou a lê-lo em português!

sábado, 15 de abril de 2017

O Rio de Janeiro acorda...



Em contraste com a beleza absoluta da cidade,
os cidadãos vivem dias e momentos
difíceis nos quais necessitam refletir.
Nada é tão violento quanto o cinismo!

Cidade cortada. Atordoada
no absurdo!

sexta-feira, 14 de abril de 2017

Ao encontro do Grupo Ponge (fragmento do livro Estrangeira)

Viagem a Lyon. Dia 2 de abril .


A língua pode ser seca. Este é o primeiro aprendizado que
carrego deste encontro com os estudiosos da obra do poeta
Francis Ponge.
Assisto aos seminários no Departamento de Arte*, e algumas
apresentações de trabalhos de artistas contemporâneos de Lyon.
São cinco dias intensos.

Anoto.
Primeiramente a partir do livro de Francis Ponge Comment 
une figue de parole et pourquoi com apresentação de
Jean-Marie Gleize.

Preciso pensar a questão da repetição do poema La figue.
Um texto escrito com repetições, mas de forma nova a cada vez.
Faço a relação com a repetição freudiana, que se faz cada vez de
forma nova.

(...)
(Adoro esta dimensão da leitura de Gleize que contorna o objeto
com o olhar e atinge um ponto distante inserindo no texto algo
também do biográfico).

(Algumas árvores no caminho de Lyon lembram as damas descabeladas
dos filmes antigos que retratam o pós-guerra, ou ainda o período
da revolução).

Não posso deixar para trás a impressão que a Gare de Lyon me causou.
Os vagões enormes do TGV e a correria das pessoas, semelhante ao que
senti em Paris ao descer no aeroporto. Diferentemente do que os trens
nos causam, enquanto estamos a caminho - quando podemos ler ou
cochilar sem pressa - os vagões parados incitam a correr.

Na volta à Paris grandes vagões lotados. Eu me surpreendo com um
enorme cão que também embarca: pelos longos e dourados. O casal
jovem e gordo não cabe na poltrona. Escondem o cão embaixo de suas
cadeiras. Ele fica por lá em silêncio, sem se mover, durante todo o
tempo da viagem. Cheguei a esquecê-lo!
(...)

Procuro ler.

*A E.N.S.(École Normale Supérieure/Escola Normal Superior) de Lyon
está localizada em um espaço de muita natureza. Na época, o Centre d'Études
Poétiques estava sob a direção de Jean-Marie Gleize.

pgs.47- 48

quinta-feira, 13 de abril de 2017

Anoitece

                                             Veneza, Itália
                                             Guarapari, Esp.Santo-Brasil
                                              Nova York, EUA

terça-feira, 11 de abril de 2017

Livro das areias. "Os ruídos" (fragmento 16)

Nas andanças pelo bairro e caminhando muito lento, ou fazendo o passo ligeiro, 
compreendi um pouco mais do movimento das pernas ao serem lançadas no ar.
Se fosse uma escultora, certamente moveria as minhas mãos para buscar captar
o movimento dos pés - do passo e da passada - neste momento onde o ar apanha
no espaço o que está elevado.

Alberto Giacometti gostava de caminhar à noite pelas ruas de Paris. Sofria de 
intensa insônia. Quando retornava para casa, quase ao amanhecer, seu rosto 
transpirava em ângulos agudos. Suas mãos que  retorciam o ferro das esculturas
não se cansavam.Trabalhavam em ritmo próprio com os traços que o ajudavam 
a ver o mundo e conhecer o exterior.

Giacometti tinha a cabeça de um imperador romano.

Constato na transposição deste jogo de escrita, que o  escultor retorcia 
traços-letras de sua obra deixando-se inundar pelo ritmo do trabalho 
(possivelmente sem comer, sem dormir e sem beber).

Concretamente digo e repito que devo escrever um estudo sobre Giacometti,
a partir de seus banquinhos bem baixos nos quais colocava as peças que
ia esculpir apoiando-as com as mãos, e torcendo e retorcendo a matéria
que compunha aos poucos seu trabalho. Modelando com os dedos, tanto
quanto Franz Kafka modelava suas cartas à Felice, Giacometti esculpia
o desejo.

(p.32-33)

segunda-feira, 10 de abril de 2017

Jardim das delícias, Salvador - BA



                                             
                                                     

Fotos de J.E. Barros, 2010.