sexta-feira, 14 de abril de 2017

Ao encontro do Grupo Ponge (fragmento do livro Estrangeira)

Viagem a Lyon. Dia 2 de abril .


A língua pode ser seca. Este é o primeiro aprendizado que
carrego deste encontro com os estudiosos da obra do poeta
Francis Ponge.
Assisto aos seminários no Departamento de Arte*, e algumas
apresentações de trabalhos de artistas contemporâneos de Lyon.
São cinco dias intensos.

Anoto.
Primeiramente a partir do livro de Francis Ponge Comment 
une figue de parole et pourquoi com apresentação de
Jean-Marie Gleize.

Preciso pensar a questão da repetição do poema La figue.
Um texto escrito com repetições, mas de forma nova a cada vez.
Faço a relação com a repetição freudiana, que se faz cada vez de
forma nova.

(...)
(Adoro esta dimensão da leitura de Gleize que contorna o objeto
com o olhar e atinge um ponto distante inserindo no texto algo
também do biográfico).

(Algumas árvores no caminho de Lyon lembram as damas descabeladas
dos filmes antigos que retratam o pós-guerra, ou ainda o período
da revolução).

Não posso deixar para trás a impressão que a Gare de Lyon me causou.
Os vagões enormes do TGV e a correria das pessoas, semelhante ao que
senti em Paris ao descer no aeroporto. Diferentemente do que os trens
nos causam, enquanto estamos a caminho - quando podemos ler ou
cochilar sem pressa - os vagões parados incitam a correr.

Na volta à Paris grandes vagões lotados. Eu me surpreendo com um
enorme cão que também embarca: pelos longos e dourados. O casal
jovem e gordo não cabe na poltrona. Escondem o cão embaixo de suas
cadeiras. Ele fica por lá em silêncio, sem se mover, durante todo o
tempo da viagem. Cheguei a esquecê-lo!
(...)

Procuro ler.

*A E.N.S.(École Normale Supérieure/Escola Normal Superior) de Lyon
está localizada em um espaço de muita natureza. Na época, o Centre d'Études
Poétiques estava sob a direção de Jean-Marie Gleize.

pgs.47- 48

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