fotos de arquivo

terça-feira, 11 de abril de 2017

Livro das areias. "Os ruídos" (fragmento 16)

Nas andanças pelo bairro e caminhando muito lento, ou fazendo o passo ligeiro, 
compreendi um pouco mais do movimento das pernas ao serem lançadas no ar.
Se fosse uma escultora, certamente moveria as minhas mãos para buscar captar
o movimento dos pés - do passo e da passada - neste momento onde o ar apanha
no espaço o que está elevado.

Alberto Giacometti gostava de caminhar à noite pelas ruas de Paris. Sofria de 
intensa insônia. Quando retornava para casa, quase ao amanhecer, seu rosto 
transpirava em ângulos agudos. Suas mãos que  retorciam o ferro das esculturas
não se cansavam.Trabalhavam em ritmo próprio com os traços que o ajudavam 
a ver o mundo e conhecer o exterior.

Giacometti tinha a cabeça de um imperador romano.

Constato na transposição deste jogo de escrita, que o  escultor retorcia 
traços-letras de sua obra deixando-se inundar pelo ritmo do trabalho 
(possivelmente sem comer, sem dormir e sem beber).

Concretamente digo e repito que devo escrever um estudo sobre Giacometti,
a partir de seus banquinhos bem baixos nos quais colocava as peças que
ia esculpir apoiando-as com as mãos, e torcendo e retorcendo a matéria
que compunha aos poucos seu trabalho. Modelando com os dedos, tanto
quanto Franz Kafka modelava suas cartas à Felice, Giacometti esculpia
o desejo.

(p.32-33)

Nenhum comentário:

Postar um comentário