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Somos a favor da economia verde!
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quinta-feira, 23 de novembro de 2017

Escrevo

Momento intenso e raro. Mais um dia de ficção. A chuva desce em gotas claras. Miúdas e delicadas elas se mostram banhando o vidro da janela. Escrevo. Não pretendo ler os jornais do dia. Não há o que ler. Prefiro reler as obras que me são caras.
Receita:
Sair pouco. Trabalhar. Ler versos em voz alta. Escrever mais. Gastar as horas livres cozinhando.  Temperar o humor com sabores novos. Descortinar os gestos lentos. Habitar um olhar mais crítico.  Aceitar as diferenças.



Rio, 22 de novembro de 2017

quarta-feira, 22 de novembro de 2017

Para onde caminha o poeta? (4)

4.

Uma. Uma dezena. Quantas?
A cidade obscura não reage.
As plantas e as flores fluem em lamentos.
Ao longo do caminho indiferentes
os pequeninos micos dependurados surgem.
Plantam-se nos fios de arame da rua.

Os poetas sussurram em solilóquio.
Soam palavras a decifrar, todavia.
Helicópteros atordoam as manhãs.
Os dedos ágeis respiram o tato.  
O Tempo não diz o depois de amanhã.
Acordem, poetas do mundo!

Gemem os versos magros deste triste canto.
O ano se esvai entre sustos e soluços.
Até as brincadeiras se apagam.
O poeta ao acaso escreve. Escuta.
Lábios semifechados soletram preces.
Um som desconhecido. Uma voz rouca se difunde.



Rio, 21 e 22 de novembro de 2017.

Para onde caminha o poeta? (3)

3.

As estrelas ainda brilham? 
O poeta claustrofóbico entre quatro paredes.
Não pensa. Sente no corpo a dor da cidade.
Em silêncio padece. O poeta não está surdo. 
Suas mãos permanecem alinhadas às teclas negras.
Com as extremidades trabalha a linguagem.

Ruídos nada brandos invadem o espaço em branco.
Batidas roucas e loucas de obras estranhas.
Bizarro o mundo anda de qualquer jeito.
De lado ou para trás a humanidade desliza.
Os oceanos afundam corpos e línguas.
O céu a tudo assiste. A memória curta dos homens não se compadece.

Poetas do mundo gritem! 
Vamos invadir as ruas de vocábulos e de versos.
Não desistir nunca. Nossa Terra nossa Alma.
A música e a poesia correm dentro do corpo.
A humanidade somos todos nós.
As árvores assim como nós precisam respirar.


Rio de Janeiro, 21 e 22 de novembro de 2017.



terça-feira, 21 de novembro de 2017

Para onde caminha o poeta? (2)

2.

A solidão dos tempos. Uma breve presença da memória.
Nas mãos só teclas negras alcançam o espaço.
Um rio sujo e sem direção atravessa nossos caminhos.
Quase totalmente vazias as ruas padecem.
Falam de um novo momento que se anuncia tímido.
Ao poeta é dada a constatação do escuro assim como o fio do novo.

Ainda e sempre é preciso dizer as horas e as manhãs.
Se um pedinte esticar as mãos não esqueça de abençoá-lo.
Traduz-se o descaso com muitas nuances.
Traduz-se a fome em camadas. Finas e fundas.
Não se traduz a corrupção. Ela amarga na boca seca.
No horizonte o riso de poucos. Minguados.

Caminha o poeta claustrofóbico.
Caminha lento. Trôpego.
Procura o verde das árvores. Suas letras mancas quase se perdem.
Pedras da cidade. Clama o poeta pelo verde
e o amarelo. Estrelas tontas da fuligem
contaminam o nosso horizonte.


Rio, 21.11.2017






segunda-feira, 20 de novembro de 2017

Para onde caminha o poeta? (1)

1.

Os dias e as noites são complexos.
Nas manhãs ainda cantam as cigarras e os grilos sussurram no final do dia.
O poeta procura as teclas negras do computador. As idéias não brilham.
Faz silêncio em torno apesar dos ruídos na garagem.
As pessoas falam de quase tudo e não dizem nada.
Os enquadres das cenas da cidade são dramáticos e preconceituosos.

Ainda não é verão no Rio de Janeiro.
As manchetes dos jornais precisam seguir o fluxo do rio.
Os versos têm que sair pelas cartilagens das mãos.
O final de semana pretende acontecer nesta página em branco.
As buzinas dos veículos tocam ao longe. Longe.
No dia do Zumbi dos Palmares sentimos falta dos tempos do passado.

Em 1695 - neste dia 20 de novembro -  morreu Zumbi.
O líder acrescentou justiça à vida daquela época.
Silêncio enigmático. Mágico.
Onde caminha a justiça de nosso tempo?
Conhecemos as manobras ilegais de longa data.
O poeta escreve dias e noites claustrofóbicos.




Hoje, 20 de novembro de 2017.

sexta-feira, 17 de novembro de 2017

INDIGNAÇÃO

Hoje é um dia difícil para os cariocas.
Estamos indignados diante da decisão da ALERJ e de seus atos indecentes e inumanos.
O povo precisa reagir para ter de volta a ética que se perdeu.
O Estado esvaziou seus princípios na corrupção.
O Rio de Janeiro sofre todos os dias com o desrespeito de seus governantes; o que nos afeta diretamente. São tantos os motivos de indignação que a população está chocada com a quantidade de corrupção que contamina a cidade.
Vamos recuperar a República. A "coisa" pública!
Vamos recuperar nossos direitos!
Os homens públicos que trabalharam se locupletando precisam devolver o que não lhes pertence,
e ter vergonha na cara!

Rio de Janeiro, 17 de novembro de 2017.


quarta-feira, 15 de novembro de 2017

Frans Krajcberg partiu...

Frans Krajcberg (publicado no Portal Cronópios em 11/09/2005 em minha coluna "Nas dobras da língua")

                         Comment faire crier une sculpture comme une voix?
                                                                                     Krajcberg




Inspirado pelas formas atormentadas das árvores e dos animais ressequidos, tantas vezes observadas no detalhe das florestas queimadas, Krajcberg sustenta a força de uma estética singular.

Quando em 1980 ele começou a esculpir com as madeiras queimadas encontradas e recolhidas na floresta amazônica, atingiu o ponto principal de sua obra. O trabalho, desde então, supõe um desdobramento de gestos.

As criações das cores a partir de pigmentos recolhidos da terra, das pedras coloridas e do manganês no Pico do Itabirito em Minas Gerais, perto de Cata Branca (muito rico em minerais de ferro), são fundamentais em seu trabalho, tanto quanto as madeiras que ele reaproveita após as queimadas na Amazônia e na Bahia, e os elementos naturais retirados dos mangues.

Sobre sua história, conta-se que de 1958 até meados da década de sessenta, ele circulou com freqüência no quartier de Montparnasse. Um bairro de Paris que abrigou inúmeros artistas durante o século XX, e que foi um quartier escolhido por muitos para viver e trabalhar. Os trabalhos de Krajcberg, desta época, são impressões en rochers, e telas de terras e de pedras.

Entre os artistas que por lá transitaram também estão Pablo Picasso, Marc Chagall e Alberto Giacometti. Antes ainda, o escultor Antoine Bourdelle e Ossip Zadkine. O pintor Modigliani com suas histórias de alcoolismo escandalizou o bairro. O escritor surrealista André Breton, Gertrud Stein e Ezra Pound também viveram por lá. Além de muitos outros escritores (alguns com passagens meteóricas como é o caso do russo Maiakovski e da bailarina Izadora Duncan). Montparnasse conta um pouco da história dos homens que viveram e trabalharam em Paris, desde o início do século vinte.

Na vila de número 21, na avenue du Maine, encontramos hoje o Espace Krajcberg. Lá estão os trabalhos deste artista em uma mostra definitiva. São obras que apresentam parte do seu percurso. Soubemos que L´Espace Krajcberg também pretende ser um local para estudo e consulta de livros de arte. E ainda um lugar de reflexão sobre questões da arte e do meio ambiente.


*

Krajcberg tomou conhecimento que perdera toda sua família nos campos de concentração nazistas, depois da Segunda Grande Guerra. Apesar de possuir amigos na França, e de ter adotado Paris como sua cidade cultural, ele decidiu partir rumo ao Brasil, terra ensolarada, onde desejava desenvolver sua arte e reconstruir-se em um outro tempo: une seconde vie.

Mas, foi no ateliê desta pequena vila da avenue du Maine, que ele iniciou o desdobramento de sua obra. Lá plantou sementes de criação e linguagens originais. Dividiu-se, então, trabalhando entre o Brasil e a França, construindo aos poucos uma obra-manifesto com cores, formas e texturas da floresta.

Podemos imaginá-lo nesta época circulando – em silêncio – entre as folhagens e flores que na primavera quase escondem a entrada do Chemin de Montparnasse. A caixa de correspondência mantém seu nome inscrito. E as histórias são contadas boca a boca: “Ele morava bem ali, aquela porta era sua casa, durante os anos 60. Era ali que trabalhava. Às vezes, ainda circula por aqui”.

Alguém já disse que a natureza é seu colorido ateliê. Definitivamente, as paredes não o contém. Viajando o Brasil, desde Minas Gerais até o Amazonas, atravessando rios e matas, respirando o cheiro da chuva, passando por Nova Viçosa na Bahia, onde hoje reside, ele recolhe materiais e idéias para futuros trabalhos. Sejam eles com fotografias, filmes, esculturas, pinturas ou obras gráficas.

* *

Durante o verão de 2005 são inúmeras as esculturas-árvores Krajcberg espalhadas no Parque de Bagatelle em Paris. Eu contei vinte e sete esculturas na alameda principal, e quatro instalações de muitos troncos colocadas sobre a grama, próximas ao Trianon, no Bois de Bologne.

Árvores-asas, árvores-raízes. Produtos das queimadas e absorvidas na arte, que as transforma em peças singulares. Na linguagem que passa por este trabalho, um grito agudo ou grave - como num texto literário - abre caminho.


árvores retorcidas negras rubras
raízes invertidas
ninhos de pássaros supostos
casas de marimbondos vazias
colméias de abelhas imaginárias

as mãos de Krajcberg
t r a n s p o r t a m
árvores - almas
destituídas pelas queimadas
árvores - poemas
portadoras de um grito
de estranheza

Nas árvores-poemas de Frans Krajcberg o nosso olhar repousa sem destino. A força do real confere à sua obra um lugar único, en abîme, a maneira do poeta Francis Ponge que trabalhou com as coisas e os objetos do mundo vegetal fazendo-os falar. São diálogos interrompidos com a natureza muda e suas raízes. Eu diria que são conversas infinitas, pois que se apresentam em forma de fragmento, sem começo nem fim específico. Buscando nas raízes “o mundo mudo” o lugar do homem se encontra como “ser abandonado”.

Os trabalhos das árvores-raízes de Krajcberg, suas esculturas, estão impregnados de poesia. Parecem dizer ao homem do homem. E sobre a urgência de vida, neste espaço negro das queimadas de nossa Floresta Amazônica, principalmente.

Impossível não se sentir tocado diante da força de tal gesto de criação. Um senhor de 84 anos – de origem polonesa – habitante de nossa terra por escolha (naturalizado brasileiro em 1957), faz com a responsabilidade de sua obra, dia a dia, um gesto pela vida. Ou melhor, como ele mesmo nos diz: um GRITO!




    Parc de Bagatelle (fotos de José Eduardo Barros, 2005)




domingo, 5 de novembro de 2017

Fragmentos do livro novo: Assis de Francisco/ Francisco de Assis

A piccola Assis está encravada em um vale da Úmbria,  
região central da Itália. Chega-se a esta pequenina 
cidade de carro, de ônibus ou de trem. Alguns expe-
rimentam alcançá-la a pé. Em geral são os estudiosos
ou os homens de fé que a procuram mais. Em fun-
ção disso, o turismo que por lá passeia também é
um turismo diferente. Reconhece-se Assis de longe.
Está desenhada em uma montanha como uma pin-
tura antiga gasta pelo tempo. E, hoje, me parece um
pouco esbranquiçada entre nuvens baixas, que tomam
o cenário desta manhã. (p.11)

(...)
André Vauchez no seu livro Françoise D'Assise faz relatos
pertinentes sobre a situação política da cidade de Assis
comentando que o poder de alguns homens ligados à
lei se ampliou naquele momento, em função da prática
do crédito que se iniciava e favorecia aos comerciantes.
Tudo leva a crer que a família Bernardone foi bastante
favorecida. O ainda jovem Francisco passou a ter atritos
mais contantes em casa, sempre com o pai, por perceber
o excesso de conforto que o dinheiro dava a seus familiares
em contraste com a vida dos empregados, os que trabalhavam
com seu pais (...) p. 69